Coluna Agenda 21 - 26/03/2021

 


A ROUPA NOVA DO REI!

Há aproximados três meses, já em plena pandemia, tentei ajudar uma senhorinha com 74 anos, catadora e acumuladora compulsiva de materiais recicláveis a limpar o porão onde vive.

Em meio a precariedade da situação, alguns gatos e um cachorro de nome Toquinho lhe faziam companhia. Inegável o carinho que ela dedicava aos animais, todos abandonados por pessoas conhecedoras dos seus bons sentimentos. Entretanto, quem conhece a resistência de um acumulador compulsivo em ser ajudado, deduz que com ela não foi diferente. Ao fim de um dia de separação dos recicláveis para venda, ela decidiu que não permitiria a continuidade dos trabalhos.  Apenas parte do material acumulado no corredor externo de sua casa havia sido retirado. Senti muita angustia pela situação imposta inconscientemente àqueles animais e acabei levando dois gatinhos, um deles doente, para o canil municipal (que até então eu não conhecia). Foi chegar ao canil com os dois gatinhos e sair com três, os que havia levado e um terceiro, ainda filhotinho e bem abatido. Destes três, dois ficaram internados numa clínica veterinária e a terceira, uma gatinha devolvi à casa da senhorinha. O gatinho retirado do canil, faleceu no dia seguinte e o outro ficou internado até a alta e adoção. O canil municipal foi um divisor de águas em minha vida. Desde então retirei de lá oito gatinhos debilitados e destes somente 03 continuam vivos (todos foram assistidos por veterinários com os cuidados necessários). Você, leitor deste artigo, deve estar se perguntando o que pretendo com este relato? Pois bem, pretendo chegar ao coração de muitos e pedir que visitem o canil municipal e tirem suas próprias conclusões sobre como vivem os animais recolhidos no município. Pretendo que nos tornemos defensores convictos da castração. Pretendo sensibilizar as pessoas para que acolhamos um animal em situação vulnerável até que esta situação seja resolvida e este animal consiga ser inserido em uma família. Pretendo despertar nossos gestores públicos para uma atuação misericordiosa com os animais recolhidos das ruas. Enfim, pretendo que façamos alguma coisa por eles.

A situação foi levada à alguns vereadores, que visitaram o local e em seguida, numa reunião com o secretário de governo se posicionaram unanimemente sobre a necessidade imediata de providências. Passados alguns dias, uma emissora de TV esteve no local e estranhamente transmitiu aos seus telespectadores informações destoantes da realidade do local. Este fato me fez recordar de uma história de Hans Christian Andersen, “A Roupa nova do rei”, na qual, um sujeito ardiloso fazendo-se passar por alfaiate oferece a um rei, uma belíssima roupa tecida com fios mágicos visíveis somente aos olhos de pessoas inteligentes. A roupa caríssima, que não existia, era um engodo do alfaiate em troca de fortunas de um rei cuja vaidade não permitiria ver sua inteligência questionada. A cena caricata fica por conta do desfile do rei nu, pelas ruas do reino, elogiado por súditos que também não queriam passar por tolos. Todos fingiam ver, por pura vaidade, o que não existia até que uma inocente criança grita que o rei está nu.

De forma espirituosa, o moral desta história é e está bem atual. Realmente o excesso de vaidade inviabiliza a luz ao final do túnel para aqueles que precisam. Vaidade, perniciosa vaidade que mesmo levando inocentes as covas, não se constrange. 

Afinal, quem tolera ver suas convicções questionadas? Somente aquelas sensíveis à dor do próximo, capazes de enxergar o rei nu e rever suas certezas.


Engª Civil Stella Maria Sulz Barbosa
Vice-Presidente do Fórum da Agenda 21 Local
Contato: agenda21localvarginha@gmail.com


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