Dois anos depois que sirene de mina da Vale foi acionada, distrito de Macacos ainda vive impactos da 'lama invisível'

 


Era sábado à noite quando a sirene da mina Mar Azul, da Vale, rasgou o silêncio e a tranquilidade do pacato distrito de São Sebastião das Águas Claras, conhecido como Macacos, em Nova Lima, na Grande BH. Às pressas, cerca de 200 pessoas tiveram que deixar suas casas naquele dia 16 de fevereiro de 2019, depois do aviso sonoro indicar risco de rompimento da barragem B3/B4.

Menos de um mês antes, a barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho, havia rompido, matando 270 pessoas, das quais 11 seguem desaparecidas.

Passados dois anos que a sirene tocou, moradores e comerciantes de Macacos ainda convivem com os impactos do que chamam de “lama invisível”. Desde o dia 27 de março daquele ano, a barragem está em nível 3 de emergência, que é de perigo iminente de colapso.

Luiz Carlos Rodrigues Filho é um dos comerciantes que, desde então, contabiliza apenas prejuízos. Há oito anos, ele escolheu o distrito para montar um restaurante e uma pousada. Mas, os turistas desapareceram. A pousada e o restaurante ficaram dois anos fechados e só foram reabertos agora, em 17 de fevereiro.

“A realidade é que o turismo ainda não vem a Macacos. Agora tem o problema da pandemia. Mas ainda não percebo nos turistas a confiança para voltar, porque sempre ligam ao risco de rompimento da barragem, que ainda não foi descomissionada. A entrada da cidade ainda tem cones, ainda tem caminhões, máquinas, isso tudo assusta quem quer vir aqui”, contou.

Luiz Carlos tentou um acordo extrajudicial com a Vale. Mas a mineradora ofereceu um valor que não cobria toda a perda que teve. Depois de mais de um ano, a proposta acabou sendo retirada pela empresa, segundo o comerciante.

“Não fui indenizado em nada. A Vale não reconhece nexo causal entre a situação de risco e o fim da minha empresa. Quem aceitou a proposta da Vale já num primeiro momento, aceitou, quem questionou, como eu, foi penalizado com a retirada da proposta”, disse.

De acordo com a Vale, 118 famílias que seriam atingidas em caso de rompimento da B3/B4, foram realocadas para moradias escolhidas por elas próprias ou para hotéis da região. A mineradora garantiu que arca com as despesas fixas (aluguel, IPTU, água e luz), cesta básica e gás.

Em relação à indenização, a Vale disse que está "comprometida em indenizar, de forma justa e célere, todas as pessoas impactadas. A empresa entende que a indenização individual aos atingidos é a medida mais adequada para tanto. Diante disso, firmou com a Defensoria Pública de Minas Gerais um Termo de Compromisso para indenização de danos materiais e morais."

A mineradora não comentou o caso específico do comerciante Luiz Carlos, mas disse que as propostas apresentadas têm um prazo de aceitação e, não existindo retorno, são consideradas recusadas.

Um novo pedido pode ser feito, segundo a Vale, com a apresentação de documentos e uma nova análise é realizada pela empresa. 


'Coisa irreparável, que dinheiro não paga', diz morador

Próximo à Mina Mar Azul está a Mata do Engenho, uma das regiões que será mais afetada caso ocorra rompimento da B3/B4. Moradores que viviam na mancha de inundação já foram retirados de suas casas. Mas quem permaneceu na comunidade convive com medo e transtornos diários.

"Medo sempre acontece no período de chuva. (...) Uma coisa que é irreparável, que o dinheiro não paga, é este impacto gravíssimo, de alterar o modo de vida da população", disse um dos moradores, João Borges.

Em busca de tranquilidade, João e a família se mudaram de Belo Horizonte para a Mata do Engenho há três anos. A casa dele era a mais afastada. Depois que a Vale interditou a estrada de acesso à comunidade, que estava na mancha de inundação, uma nova via foi construída pelos próprios moradores. E a propriedade de João ficou logo na entrada.

“Eu era o último do bairro, agora virei o primeiro. Virei a portaria. Todos os carros que precisam entrar pela comunidade passam na minha porta. Ficamos inseguros, perdi minha privacidade”, contou.

De acordo com João, o tráfego intenso de carros tem aumentado também a poeira dentro de casa, afetando a saúde da sua filha, de 13 anos.

“Uma das coisas que tinham que fazer era passar caminhão-pipa duas vezes por dia, para amenizar a poeira. Não fazem manutenção na estrada. Estão apenas programados para dizer não para tudo. A dar muitas desculpas para não cumprir o que está acordado”, falou.

O sossego ainda tem sido interrompido por um helicóptero que sobrevoa a região para verificar o nível de segurança da barragem e pelos testes de sirene com música erudita, que começaram a ser realizados somente em janeiro deste ano. “O helicóptero sobrevoa uma vez por mês, de 8 às 17 horas. É barulho o dia inteiro”, contou. “E o teste da sirene é a coisa mais mórbida, com música clássica. E é alto, como se o som viesse de uma casa vizinha”.

Em relação à poeira, a Vale afirmou que "vem reforçando as ações de mitigação através da constante umectação das vias feitas por caminhões-pipa. A empresa adota rigorosos procedimentos de segurança, que incluem inspeções visuais para garantir as condições de trafegabilidade dos veículos".

Segundo a mineradora, os testes com as sirenes fazem parte da implementação do Plano de Ação de Emergência e são realizados mensalmente, sempre no dia 8, por volta das 10h, com música clássica.


Vale não informa prazo para descomissionamento de barragem

O presidente da Associação do Meio Ambiente Mata do Engenho (Ama-me) Fábio Ernesto disse que a mineradora não é transparente com as medidas adotadas para descomissionamento da estrutura.

"Falta transparência. A gente queria saber qual é o cronograma de descomissionamento. Eles não falam quais são as fases. A gente queria saber, mas eles não divulgam", falou. Quando a sirene tocou pela primeira vez, em 2019, Fábio, a esposa e os dois filhos saíram de casa com a roupa do corpo e se abrigaram num ponto alto do distrito, até que pudessem retornar com segurança.

Passado este tempo, ele teme que tenha que fazer o mesmo se houver rompimento da B3/B4, sem nem sequer ter participado de treinamento para deixar a área com segurança.

"Não tem nenhuma placa avisando rota de fuga. Já pedi para colocar piquete que definisse o ponto onde a gente pode ir sem correr riscos. Uma vida inteira trabalhando duro e, na hora que achei que ia vir pra cá para ter sossego, acontece isso", disse.

A Vale informou que, em outubro do ano passado, concluiu a implantação de uma contenção de rejeitos, com um sistema de comportas que vai reforçar a segurança durante o descomissionamento da B3/B4, mas não informou, ao G1, o cronograma para finalizar a descaracterização da estrutura.

O "muro" tem 33 metros de altura e 190 de comprimento e, segundo a mineradora, vai conter 100% dos rejeitos, em caso de ruptura. Após a descaracterização da barragem, a Vale garante que a contenção será removida e a área recuperada.

A professora Fernanda Tuna, que mora no bairro Jardim Amanda, também queixou da falta de transparência. "A gente tem a indefinição em relação ao descomissionamento. A barragem segue em nível 3, que é risco iminente de rompimento. Por mais que seja monitorada, não há nada que possa impedir de romper. Isso já causa aquilo que a gente chama de ser afetado pela lama invisível. A gente não tem uma solução", disse.

G1 MG

Enviar um comentário

0 Comentários