Estudo mostra: Mais mobilidade da população gera mais variantes da COVID-19 em MG

 


A não adesão do Brasil às medidas rígidas de isolamento social pode agravar o enfrentamento à COVID-19 em todo o mundo. Estudo comparativo realizado pela Rede Análise COVID-19 demonstra a correlação entre o aumento da mobilidade nas cidades e a explosão de casos no Brasil e no Reino Unido. O estudo levou em conta dados dos dois países onde surgiram as variantes do vírus que mais preocupam a OMS. Foram comparados os gráficos de mobilidade gerados pelo Google e os dados oficiais de casos de cada país. Em janeiro, o Reino Unido, diante da constatação de descontrole, impôs medidas rígidas para reduzir a mobilidade das pessoas. O Brasil, no entanto, segue sem ações coordenadas em nível nacional.

"Nossa pior época no país está sendo agora", afirma o cientista de dados e coordenador da Rede Análise COVID-19, Isaac Schrarstzhaupt. Nas últimas 24 horas, o Brasil registrou 778 mortes, que já chegam agora a 255.720 desde o início da pandemia. E são mais 35.742 casos, num total de 10.587.001. A Rede Análise COVID-19 é um grupo multidisciplinar de cientistas e pesquisadores criado para acompanhar a evolução da doença em todo o país. A rede é nacional, com a participação, de forma voluntária, de 80 pesquisadores de todas as áreas, biomédicos, cientistas de dados e juristas. "Nos juntamos para fazer esse trabalho voluntário de combater a desinformação. Fazemos muita checagem de dados, fazemos análise, modelagem de dados e publicamos no nosso site e redes sociais."

O aumento da mobilidade em Minas e em São Paulo preocupa. “Minas é um estado que mostra que a taxa de crescimento reage superrápido à retirada das medidas de flexibilização. Eles vinham bem, com BH fechada, mas reabriram muito cedo. São Paulo também reabriu e a taxa reverteu”, diz o especialista. Schrarstzhaupt comparou os números de casos com a adoção de medidas de fechamento das atividades comerciais.

O pesquisador demonstra que quando as medidas de isolamento social são corretamente aplicadas geram redução de casos. "No Brasil, a gente nunca teve medidas de restrição fortes e bem-executadas. Isso deixou o vírus se espalhar de uma forma que tivemos um fenômeno que chamamos de sincronicidade da curva. O vírus se espalhou tanto no país que está presente em todos os locais”, explica. “Não é como no começo, quando tinha um estado que estava mal e outro que estava bem", alerta o cientista de dados.
Aumentar a mobilidade leva a um acréscimo de casos. "Aumenta a mobilidade, logo depois aumenta o contágio. Pessoas em mobilidade carregam o vírus. Muitas vezes, elas estão assintomáticas e nem notam. Andam para lá e pra cá disseminando o vírus. Vira uma cascata, uma bola de neve”, diz Isaac. Os dados mostram que a mobilidade se intensificou no Brasil a partir de 7 de setembro. “De lá para cá, a velocidade da queda ficou cada vez menor. O que era queda virou estabilidade em outubro. Em novembro, a curva subiu, estourou em dezembro. Em janeiro de 2021, tivemos recordes no número de mortes.”

O vírus se espalhou por todo o Brasil, na avaliação do pesquisador, em decorrência do afrouxamento nas medidas de restrições. Nos últimos dias, muito se falou em lockdown. No entanto, o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano, reforça que ele não foi adotado de maneira integral, como ocorreu em outros países, como a Itália. Ao contrário, prefeitos e governadores adotaram medidas mais amenas para reduzir a mobilidade, como o toque de recolher ou o fechamento parcial do comércio nos fins de semana.

Conforme a comparação entre Brasil e Reino Unido, as restrições na mobilidade precisam ser adotadas de forma rígida e por períodos longos para que possam surtir efeito na queda de casos. Alguns estados decretaram lockdown de poucos dias, três dias, e fim de semana. No entanto, ao fazer as correlações entre dados de mobilidade e curva de transmissão, os números não caem de imediato. “Não dá para pensar que em 10, 12 dias haverá redução”, diz o cientista de dados. No Reino Unido, foram necessários 50 dias para que os casos recuassem.

A análise demonstra que na terra da rainha Elizabeth, no início, não foram adotadas medidas de restrição, mas, depois, diante do aumento de casos e mortes, fez-se correção da rota. "O Reino Unido teve no início comportamento errado, mas fez a correção. Você consegue comparar um comportamento errado com um comportamento correto em um país. Eles deixaram o vírus rolar solto no começo, em março de 2020. De 1º a 23 de março, o vírus rolou totalmente solto e, então, fizeram o fechamento, que seguiu até julho, para conseguir estabilizar, deixar a curva estável e, só assim, ela começou a cair".

No país europeu, a curva caiu e, em junho, o governo britânico reduziu as restrições. Em julho, voltaram à vida normal, quando a curva de casos começou a subir de novo, mas não tão rapidamente como no começo. "Já havia o conhecimento de máscaras, distanciamento, medidas de segurança, então subiu um pouco mais leve, mas ainda assim as pessoas relaxaram. O aumento que começou em julho tornou-se exponencial em setembro. O contágio aumentou tanto que, inclusive, gerou uma nova variante", diz.

Diante disso, o Reino Unido adotou medidas de fechamento fortes, tentaram abrir, voltaram a subir e adotaram a terceira medida de fechamento em 4 de janeiro. "Agora, em 24 de fevereiro, começaram a afrouxar as restrições. Vai até abril e maio a flexibilização deles."
Ao fazer uma comparação com o Brasil, o pesquisador Isaac Schrarstzhaupt conclui que não foram feitas medidas de restrição completas. "Alguns locais fecharam por muito pouco tempo. Outros locais deixaram totalmente aberto. Vimos muitas aglomerações", diz. Outro problema é que não houve uma ação coordenada no país, cada estado e cada município adotou as medidas em um tempo e de uma forma.

A cada infecção, o vírus se copia


O maior problema é que, além de não haver ação coordenada no Brasil em nível nacional, Bolsonaro ataca o isolamento. "Ele é contrário às medidas de distanciamento físico, contrário ao uso de máscara e adoção dos protocolos. Algumas frases que ele falou: 'Temos que conviver com o vírus. Todo mundo vai pegar um dia, então tem que pegar de uma vez para todo mundo se livrar'”, afirma Schrarstzhaupt.

Ele ressalta que o negacionismo fomenta novas variantes. "Cada vez que o vírus infecta uma pessoa, ele se copia, começa a fazer várias cópias de si mesmo. A cada infecção, são milhões de cópias. Cada vez que faz uma cópia, não sai 100%. Não é uma maquininha copiadora perfeita. Sai com diferenças que podem ser prejudiciais, pode ser que o vírus fique fraco e morra ali mesmo ou pode ser que tenha mutação que o deixe mais forte ou mais transmissível", diz. As variantes que mais preocupam a Organização Mundial da Saúde surgiram no Brasil, Reino Unido e África do Sul.
Fonte: Estado de Minas

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