Hospitais preveem falta de medicamentos essenciais para intubação

 


A crise de falta de leitos hospitalares em todo país, diante da piora dos indicadores da COVID-19, se agrava devido a um novo obstáculo criado pela escassez de medicamentos básicos para intubação de pacientes contaminados pelo vírus em estado grave. Com a explosão de internações, entidades representantivas do setor de Saúde temem o desabastecimento de insumos e remédios essenciais. Ontem, o Ministério da Saúde requisitou os estoques da indústria de medicamentos que compõem o chamado “kit intubação”, incluindo anestésicos e bloqueadores musculares, para abastecer a rede do Sistema Único da Saúde (SUS) por 15 dias. Em Minas Gerais, o número de diagnósticos da doença respiratória alcançou, ontem, 1.003.104 e os óbitos somam 21.303 desde o início da pandemia.

Profissionais da saúde e gestores hospitalares reclamam da falta de medicamentos básicos para intubação, como Midazolan, Fentanil, Rocurônio e Propofol, entre outros. A queixa é que, além dos preços altos, a demanda elevada pressiona o fornecimento. “Estamos vendo insumos que já estão sendo colocados em lista de espera, indicando que há um risco de começar a faltar. Aliado a isso houve aumento de até 700% dos preços de alguns dos itens como o Midazolam”, afirma Wesley Marques, superintendente da Associação e Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Casas de Saúde de Minas Gerais (conhecida como Central dos Hospitais).

Hospitais da Região Metropolitana de Belo Horizonte consultados pela reportagem do Estado de Minas informaram que, no momento, o estoque tem sido suficiente. Porém, médicos afirmam que todos os tipos de sedativos e bloqueadores neuromusculares – necessários para os procedimentos em terapia intensiva – correm o risco de faltar a curto prazo. É o que diz Rogério Sad, médico intensivista e coordenador do Centro de Terapia Intensiva (CTI) do Hospital Vera Cruz. “Alguns sedativos vem faltando. Não sei até quando isso vai durar não”, comenta.
 
Rogério Sad explica que a escassez não é um problema localizado e pode se tornar mais grave, repetindo o que ocorreu no ano passado, no início da pandemia do novo coronavírus. “Na verdade, isso está acontecendo em todo o mercado. A indústria aumentou os preços dos insumos em geral, assim como das luvas e máscaras. Isso levará a uma nova crise de desabastecimento como na primeira onda de COVID-19”, prevê o médico.
 
No Hospital Vera Cruz, não há mais vagas para pacientes com COVID-19 em leitos de CT (Centro de Terapia Intensiva). A lotação evidencia a necessidade de utilização dos insumos. “É preocupante para os dois lados da doença: para os profissionais de saúde e para os pacientes. Se faltar luva, capote, e outros EPIs (equipamentos de proteção individual), coloca muito em risco a saúde das pessoas que cuidam dos pacientes. Faltando medicação, sedação, tudo influencia no melhor tratamento possível desses doentes. Isso nos preocupa muito”, diz o coordenador do CTI do Vera Cruz.
O médico intensivista observa que mesmo após ampliação do atendimento, o sistema hospitalar em geral enfrenta uma situação de limite de capacidade. “No caso de COVID que os pacientes precisam muito de ventilador, sem sedativo é quase impossível ser feito. Precisamos ter muito cuidado nesse momento. Todo o sistema está no limite, no Vera Cruz ampliamos em quase 30% e mesmo assim estamos completamente lotados.”
 
A Central de Hospitais informou ainda que cobra posicionamento da indústria farmacêutica em relação à disparada de preços dos medicamentos e insumos, pois ainda não ficou claro se faltam os produtos ou se há abuso na cobrança. “Essa é uma resposta que a indústria precisa nos dar. São grandes empresas produtoras envolvidas que certamente tiveram tempo de identificar este aumento e adaptar a sua cadeia produtiva, haja vista que não se tem expectativa de a COVID desaparecer do nosso meio tão cedo”, afirma o superintendente da associação, Wesley Marques. Uma preocupação é que a intubação necessita de sedativos.

Reutilização


A Prefeitura de Belo Horizonte informou que as unidades hospitalares geridas pela Secretaria Municipal de Saúde não sofreram desabastecimento e que o monitoramento dos estoques é realizado diariamente. A pasta não informou se tem encontrado dificuldade ao adquirir os insumos. Em entrevista ao EM na última terça-feira, o secretário de Saúde da capital, Jackson Machado, revelou que o município tenta obster autorização para reutilizar um material fundamental nas salas de terapia intensiva, os tubos endotraqueais, que servem para intubar os pacientes.
 
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) admitiu que houve aumento do consumo de medicamentos usados em terapia intensiva, o chamado “kit intubação”, “mais especificamente de itens necessários à intubação de pacientes, indicando um cenário crítico de escassez”, diz a nota enviada à reportagem. “Ainda nesse contexto, a SES-MG efetuou planejamento extraordinário para aquisição de itens de uso hospitalar no contexto da terapia intensiva e está em contato constante com o Ministério da Saúde, o qual também está fazendo aquisição desses medicamentos e distribuindo aos estados”, completa o texto.

Importação negociada Ontem, a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) se reuniu com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que sinalizou a liberação de importação dos insumos, facilitando processos como medida emergencial. “Estamos passando por um segundo problema: além de não ter leito, vai ter mortes por falta de medicamentos. A Anvisa foi hábil nesse planejamento. Não é só questão de medicamentos, são todos os produtos, como filtros para respiradores, por exemplo”, afirmou o presidente da Abramge, Reinaldo Scheibe, em entrevista à imprensa.
Na mesma reunião com a Anvisa, a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) entregou documento com a lista de medicamentos essenciais para o tratamento de pacientes acometidos pela COVID-19. A entidade pesquisou os remédios junto a seus associados – 40 responderam à consulta. Para alguns medicamentos há reserva suficiente para apenas cinco dias, em média, como é o caso do propofol e cisatracúrio.

Estado de Minas

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