Bolsonaro trocou, em média, um ministro a cada 35 dias no cargo

 


O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) trocou, em média, um ministro a cada 35 dias desde que assumiu o Palácio do Planalto. Em dois anos e três meses de governo, foram 24 substituições em sua equipe ministerial. Com as seis novas mudanças, Bolsonaro superou o recorde da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que havia feito 20 mudanças em um período equivalente.

As trocas mais recentes acontecem para acomodar grupos políticos que ganharam força no Congresso e apontam para a tentativa do governo de buscar apoio entre os parlamentares do centrão. O resultado foi a retirada do espaço da chamada “ala ideológica” na Esplanada dos Ministérios. 

A demissão do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi a mais simbólica, uma vez que atende a reivindicações de lideranças no Parlamento. Desde o ano passado, Araújo era alvo de críticas por sua postura polêmica em questões decisivas da política internacional. Desde que assumiu o comando do Itamaraty, ele mantinha ataques ao que chama de “globalismo” – uma referência pejorativa que envolve instituições internacionais – e defendeu que o Brasil alterasse suas posições nos comitês da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Com a pandemia do coronavírus, grupos políticos passaram a atacar as dificuldades da diplomacia brasileira em firmar parcerias internacionais (principalmente com a China e a Índia) na busca por vacinas e insumos para vacinas. A demissão de Araújo se tornou uma demanda forte na Câmara e no Senado. Atendendo às cobranças dos parlamentares, Bolsonaro optou por um nome mais moderado para chefiar o Itamaraty: o do diplomata Carlos Alberto França. 

“A saída de Ernesto Araújo era uma necessidade. Ministros têm a obrigação de se relacionar bem com o Parlamento, em especial com o Senado. O presidente escolhe e tem liberdade de nomear, mas o exercício da função está ligado a boas relações com os parlamentares. Ele poderia ter a base ideológica que desejasse, mas sem confundir essa base com as atuações como ministro das Relações Exteriores e nosso posicionamento como nação”, avalia o senador Carlos Viana (PSD), vice-líder do governo no Senado. 

Turbulências no MEC

Desde que chegou ao Planalto, Bolsonaro abriu mão de vários nomes que tiveram função importante junto a uma base eleitoral considerada mais radical do presidente. A primeira demissão da ‘ala ideológica’ aconteceu no Ministério da Educação (MEC). Em 8 de abril do ano passado, o filósofo Ricardo Vélez Rodríguez foi demitido após uma confusão de mudanças no MEC e de seguidas falas polêmicas. Ele era indicado de Olavo de Carvalho. 

No lugar dele assumiu Abraham Weintraub, que também se envolveu em controvérsias, brigas com membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e com parlamentares. Em maio de 2020, quando veio à tona um vídeo de uma reunião ministerial em que o chefe do MEC chamou os ministros do tribunal de “vagabundos” e pediu a prisão deles, a situação de Weintraub ficou insustentável e ele caiu. 

A pasta da Saúde, comandada por técnicos desde o início do governo, foi a que mais teve trocas de comando no governo Bolsonaro. O ex-deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM) – médico ortopedista – ficou no cargo até 16 de abril do ano passado, quando divergências com o presidente sobre as ações de combate ao coronavírus se tornaram insustentáveis.

Em seu lugar entrou o oncologista Nelson Teich, que também teve embates com o Planalto e ficou menos de um mês no ministério. O general Eduardo Pazuello assumiu a Saúde em maio de 2020 e deixou o cargo no mês passado. O novo ministro, médico cardiologista Marcelo Queiroga assumiu a pasta no final de março.

Resistência

Entre os 22 ministérios do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), apenas nove têm o mesmo chefe desde a posse, em janeiro de 2019. O ministro Paulo Guedes, da Economia, é um deles. Apesar de já ter ameaçado publicamente deixar a equipe de Bolsonaro pelo menos três vezes, após insatisfações com derrotas no Congresso, o economista afirma que mantém a confiança do governo e o apoio às reformas da agenda liberal.

No início de março, após membros importantes de sua equipe deixarem a pasta, Guedes reafirmou que permaneceria no cargo enquanto “estiver ajudando o Brasil”, mas que é “demissível em 30 segundos” caso Bolsonaro não confie em sua gestão. 

Alguns ministros que continuam na Esplanada mudaram de cadeira ao longo desses 27 meses de governo. O novo ministro da Defesa, general Braga Netto, passou pelo ministério da Casa Civil entre fevereiro de 2020 e o mês passado. Já o ex-deputado Onyx Lorenzoni (DEM) passou pela Casa Civil e pelo Ministério da Cidadania antes de assumir a Secretaria Geral da Presidência, órgão que tem status de ministério.

Articulação

Uma mudança simbólica da ‘minirreforma ministerial’ feita por Bolsonaro na semana passada aconteceu na Secretaria de Governo, órgão responsável pela interlocução do Palácio do Planalto com as duas Casas do Legislativo e que negocia a liberação de emendas parlamentares e também indicações para cargos do Executivo.

Desde janeiro de 2019, a pasta vinha sendo ocupada por militares: primeiro com o general Carlos Alberto Santos Cruz (que deixou o governo em junho de 2019) e depois por outro general, Luiz Eduardo Ramos. Agora, a Secretaria será ocupada pela deputada Flávia Arruda (PL-DF), uma das lideranças do bloco do centrão na Câmara. 

Desde o ano passado, o bloco passou a ser contemplado com cargos no primeiro e no segundo escalões do governo federal, em troca de maior apoio para a base de governo no Congresso.

“O governo tem dialogado com os partidos do centro, construído uma maioria. E isso por meio de um diálogo frequente, o que é importante, seja para a boa interlocução e para que os parlamentares consigam benefícios para atender seus Estados”, avalia o deputado Diego Andrade (PSD), líder da maioria na Câmara. Segundo ele, a escolha de Flávia Arruda foi comemorada no Congresso, pela boa interlocução que ela tem com vários grupos políticos. 

Para o vice-líder do governo no Senado, Carlos Viana, a escolha de Arruda é uma indicação importante de que o Executivo pretende aumentar as conversas com o Congresso. “O governo sabe claramente que, sem essa boa relação e ponte com o Parlamento, as medidas que o país precisa não avançam. Política é diálogo. É o relacionamento entre o presidente e as bancadas, busca por entendimentos. Vejo as mudanças recentes como positivas”, afirmou o senador.

O Tempo

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