Operação com 25 mortos é a mais letal da história do RJ

 


A operação policial desta quinta-feira (6) no Jacarezinho, comunidade na Zona Norte do Rio, é a que deixou mais mortos na história do estado ao menos desde 1989. Até as 16h05, 25 pessoas haviam morrido baleadas, e a operação seguia em andamento.

O levantamento foi feito pelo G1 com informações do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da plataforma Fogo Cruzado.

 Um dos mortos foi o policial civil André Leonardo de Mello Frias, da Delegacia de Combate à Drogas (Dcod). A Polícia Civil diz que os outros 24 assassinados são suspeitos de integrar o crime organizado, mas não revelou as identidades ou as circunstâncias em que foram mortos.

O sociólogo Daniel Hirata, do Geni, classifica a operação como inaceitável e diz que é mais grave do que chacinas como a de Baixada Fluminense, em 2005, ou a de Vigário Geral, em 1993.

"Essa que foi a operação mais letal que consta na nossa base de dados, não tem como qualificar de outra maneira que não como uma operação desastrosa".

"Essa foi uma ação autorizada pelas autoridades policiais, o que torna a situação muito mais grave. A gente precisa de uma resposta do secretário de estado da Polícia Civil, do Governo do Estado do Rio e do Ministério Público sobre o que aconteceu hoje no Jacarezinho", conclui.

Ele diz que, segundo os moradores, a ação se tornou mais violenta após a morte do policial e que ficou "incontrolável".

Em nota, a Polícia Civil disse que fez uma operação contra o crime organizado e que comunicou o Ministério Público sobre a ação. O MP foi procurado pelo G1 para confirmar a informação, mas ainda não respondeu.

Desde junho do ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu operações em favelas durante a pandemia. A decisão permite ações apenas em "hipóteses absolutamente excepcionais" e com o aval do Ministério Público.

“Temos uma cadeia de responsabilizações que precisa ser apurada. Se trata de uma operação policial, um caso gravíssimo de violência de Estado. Não é grupo de extermínio, maus policiais, milicianos, é uma operação autorizada pelas autoridades. E tudo isso em um momento em que há a determinação de suspensão das operações policiais nas comunidades pelo Supremo Tribunal Federal”, diz o especialista.

Estudo: letalidade não diminui violência

Em nota, a ONG de Direitos Humanos Instituto Igarapé lamentou as mortes.

"É inaceitável que a política de segurança pública do estado continue apostando na letalidade como principal estratégia, sobretudo em áreas vulneráveis. Privilegiar o confronto indiscriminado coloca nossa sociedade e nossos agentes públicos em perigo".

Um levantamento de 2019, feito pelo Ministério Público, mostrou que o aumento da violência policial não diminui a ocorrência de crimes ou de homicídios no Rio. O estudo conclui que:

- letalidade policial não provoca redução de homicídios e roubos

- Rio tem a polícia mais letal, mas está entre os 10 mais violentos

- áreas onde há maior redução de assassinados não tiveram aumento de mortes por policiais

- ações policiais esporádicas não foram capazes de reduzir o problema da segurança pública

- confrontos aumentam risco de matar inocentes e afetar serviços públicos

 

 Pelas redes sociais, moradores relataram mais mortes que as computadas, além de corpos no chãoinvasão de casas celulares confiscados. À tarde, eles chegaram a fazer um protesto na comunidade.

Dois passageiros do metrô foram baleados dentro de um vagão da linha 2, na altura da estação Triagem, e sobreviveram (veja no vídeo acima). Um morador foi atingido no pé, dentro de casa, e passa bem. Dois policiais civis também se feriram.

 

Ações com mais mortos desde 2007:

06/05/2021 - Jacarezinho - 24 mortos civis + 1 policial civil morto + 5 feridos (2 deles policiais)

28/06/2007 – Complexo do Alemão - 19 mortos civis

08/02/2019 - Fallet/Prazeres - 13 mortos civis + 1 ferido civil

15/05/2020 - Complexo do Alemão - 13 mortos civis

15/10/2020 - Vila Ibirapitanga (Itaguaí) - 12 mortos civis (incluindo um ex-PM)

 

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro informa que está acompanhando "com muita atenção os desdobramentos da operação". "Neste momento, a instituição está no local, por meio de sua Ouvidoria e do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, ouvindo os moradores e apurando as circunstâncias da operação, a fim de avaliar as medidas individuais e coletivas a serem adotadas. Desde já, manifestamos nosso pesar e solidariedade aos familiares de todas as vítimas de mais essa tragédia a acometer nosso estado."

* Estagiário sob supervisão de José Raphael Berrêdo. 

G1

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