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Para driblar os aumentos, empresas cortam custos e desligam freezers



 Pressionados pelo impacto da pandemia de COVID-19 que já tem dificultado a esperada recuperação das vendas, após a reabertura do comércio, empresários da indústria e do agronegócio se debruçam sobre medidas, agora, para reduzir a conta de energia, despesa elevada em segmentos intensivos no uso do insumo, como fábricas de equipamentos, calçados e panificados. Em Minas Gerais, há casos em que o  aumento dos gastos com energia chega a 50%  desde o ano passado, motivo de alerta na produção.

As alternativas vão do corte geral dos custos nas empresas à manutenção de máquinas ligadas o menor tempo possível e, inclusive, atitudes extremas como o desligamento de equipamentos de grande consumo, a exemplo de freezers e geladeiras, como relataram empresários dos setores de calçados, mobiliário, da indústria da panificação e da pecuária ouvidos pelo Estado de Minas. É assim que eles respondem a mais uma das infelizes declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Na quarta-feira, Guedes minimizou, de forma irônica, o persistente crescimento da conta de energia, associado à histórica crise hídrica enfrentado pelo país.

Durante o lançamento da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, em Brasília, o ministro perguntou: “Qual o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos?”. Além da energia mais cara devido ao acionamento das usinas térmicas, que produzem a um custo mais alto que as hidrelétricas, em junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou o reajuste de 52% na tarifa da bandeira vermelha nível 2, cujo preço passou de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 kWh.

O impacto, que deve valer até novembro, influencia diretamente as pequenas e médias empresas, cujo consumo está justamente na faixa do aumento previsto. A energia elétrica ficou 5% mais cara em agosto, segundo a pesquisa do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial do país. exercendo o maior impacto (0,23%) entre os subitens acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A declaração do ministro Paulo Guedes, que argumentou não adiantar “ficar chorando” não faz qualquer sentido diante do atual momento vivido por vários setores, que tentam driblar o impacto da energia cara na produção. Quando não conseguem alternativa, repassam parte do prejuízo ao cliente. “O custo da energia elétrica é relevante na empresa. E ela aumenta ao mesmo tempo que vários insumos tiveram reajuste também. Não temos muitas alternativas, a não ser fazer melhorias na parte elétrica para economizar algo, embora isso leve um tempo para ocorrer. Tudo isso influencia no custo de fabricação e, portanto, no preço final para o cliente”, afirma o empresário Ronaldo Lacerda, de 45 anos, proprietário de fábrica Lynd Calçados, de Nova Serrana, no Centro-Oeste de Minas.

Na indústria de móveis, o cenário de dificuldades é parecido. A conta de energia do empresário Marcelo Araújo, dono de uma fábrica em Mateus Leme, na região Central, praticamente triplicou nessa pandemia – chegou a quase R$ 300. “Temos um gasto considerável de energia, além de aumento em vários setores da produção”, destaca.  Buscar medidas de redução dos custos virou rotina na unidade industrial. “O que temos feito é tentar fazer os móveis em escala para deixar o maquinário o menos tempo possível ligado”, explica.

A solução encontrada pela metalúrgica Amapá, com sede em Cláudio, no Centro-Oeste de Minas, surgiu antes mesmo do último reajuste da bandeira tarifária anunciado pela Aneel e mostrou que a decisão foi acertada. A empresa ingressou no mercado livre de energia, em que empresas e consumidores podem comprar diretamente das geradoras. Com isso, ela abriu mão do mercado regulamentado pelo governo, conseguiu fazer contratos mais duradouros e pode comprar energia a um preço mais baixo.

“Escolhemos essa modalidade por dois fatores. O primeiro é não ficar na mão da energia cativa, já que Cláudio tem um volume considerável de indústrias e antes tínhamos que manter vários geradores ligados. E outro fator é que no mercado livre você faz contratos com fornecedores e consegue blindar essas oscilações de energia”, ressalta Gabriel Faria, gerente Comercial e de Marketing da companhia.

A empresa estima ter obtido economia de 30,5% em julho, mediante todo o impacto que teria significado o aumento da bandeira vermelha. “Sofremos menos com essas oscilações devido a essa estratégia. Muitas vezes temos que fazer contrato projetando o consumo e, quando ultrapassamos, o extra pode ser mais caro. Mas o consumo é considerável”, explica Faria, que anuncia que a empresa poderá, no futuro, construir uma usina fotovoltaica.

 

'Apague a luz'

As padarias e panificadoras representam um dos setores que mais sofrem com o aumento da despesa com energia. Sem substituir os fornos elétricos por aqueles movidos à lenha, eles têm de enfrentar o drama. Proprietário de uma padaria no Bairro Betânia com mais de três décadas de existência, Carlos Marques, de 55, conta que jamais viu uma inflação tão alta atingir seu negócio.

Ele lamenta ter que lidar com o aumento da energia ao mesmo tempo em que convive com a inflação de insumos, como a farinha e o trigo, cujos preços acompanha as cotações do dólar, pelo fato de o país depender de importações desses produtos. “Sempre temos que usar as máquinas e não há outro jeito de driblar esse aumento. O que podemos reduzir é talvez diminuir uma luz, apagar uma lâmpada, mas o restante não tem muito jeito. E ainda temos o aumento da farinha, que, quando o dólar abaixa, ela não segue o preço. Nesse sentido, é muito difícil reduzir o custo”, conta.

No campo, ração já é cara e falta apoio

Quem sobrevive da produção no campo também luta diariamente para buscar novos opções de economia nas despesas. O produtor rural e avicultor Gilberto Leão, de 58, proprietário de uma fazenda em Ritápolis, no Campo das Vertentes, diz que toda sua atividade é muito dependente da energia elétrica. Segundo ele, a conta cresceu quase 50% desde o ano passado, afetando diretamente o negócio. O máximo que consegue economizar é deixando de ligar freezeres ou geladeiras.

“Qualquer coisa que mexe no bolso do produtor é muito significativo, porque não conseguimos repassar esse preço. Da porteira para dentro, eu consigo manipular a produção. Mas, da porteira para fora, quem manda é o mercado”. Gilberto Leão usa energia no tanque de resfriamento, no preparo de ração para a criação de aves e na ordenhadeira.

O produtor critica a falta de ações concretas do governo federal para ajudar as pequenas e médias propriedades rurais e propõe o subsídio no investimento de energia solar, o que pode ser uma boa solução para quem vive no campo. “Temos iluminação com facilidade. Se fosse possível, íamos produzir nossa própria energia e automaticamente economizar a energia para a zona urbana. Seria uma ótima ideia”, afirma. 

 

’Apaguem a luz’ 

Diferentemente do ministro Paulo Guedes, ontem, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reconheceu a gravidade da crise hídrica, que considerou “a pior da história”. Bolsonaro pediu que os brasileiros economizem e “apaguem um ponto de luz” na residência. “Em que pese estarmos vivendo a maior crise hidrológica da história, 91 anos que não tínhamos uma crise como essa...Vou até fazer um apelo a você que está em casa agora: tenho certeza de que você pode apagar um ponto de luz na sua casa agora. Peço esse favor para você, apague um ponto de luz agora”, disse o presidente em live semanal. 


 
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