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Vacinas são eficazes contra variante Delta, ao contrário do que diz médico



São enganosas as afirmações do médico Roberto Zeballos em vídeo postado em seu perfil no Instagram em 10 de agosto sobre a COVID-19. Já na legenda ele minimiza a importância da variante delta ao escrever que ela “é pouco agressiva”. Identificada no Brasil em maio, ela já matou ao menos 50 pessoas por aqui. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela circula em mais de 111 países e pesquisas mostram que ela tem nível de transmissibilidade cerca de 50% maior do que as variantes anteriores do Sars-CoV-2.

Ainda sobre a delta, Zeballos também erra ao dizer que as vacinas disponíveis até agora não funcionam contra ela. É verdade que os imunizantes foram desenvolvidos quando a variante ainda não circulava, mas eles são, sim, eficazes contra a delta. “É importante ressaltar que todos os agentes imunizantes disponíveis para aplicação no Brasil são eficazes contra a delta, principalmente nas formas mais graves da doença”, informa o Ministério da Saúde
 
Outra desinformação dita pelo médico no vídeo é a de que crianças não desenvolvem a COVID-19 e não a transmitem. Embora transmitam menos do que os adultos, elas transmitem – como informa o Centro de Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, elas “podem ser infectadas, podem ficar doentes e podem espalhar o vírus para outras pessoas”. 
 
Procurado, Zeballos afirmou ter sido “o primeiro brasileiro a entender o mecanismo da doença” e declarou que “não tem sentido você vacinar com uma vacina que não é livre de riscos – todo mundo sabe disso – nas pessoas que já tiveram a doença”, mas, completou que “talvez as pessoas tenham o benefício de ter uma doença mais leve”. 
 
O Comprova considerou a publicação do médico enganosa porque ele usa dados incorretos ou imprecisos sobre a variante delta e sobre a vacinação.
 

Como verificamos?

Depois de assistir ao vídeo, o Comprova buscou informações a respeito da variante delta do coronavírus em órgãos reguladores oficiais, como o CDC, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial de Saúde (OMS) para as Américas, o Ministério da Saúde do Brasil, farmacêuticas e institutos produtores de vacina, além da imprensa.
 
Para verificar informações sobre a vacinação nos três países citados por Zeballos – Islândia, Itália e Alemanha –, foram consultadas informações sobre a aplicação dos imunizantes na plataforma Our World in Data, mantida por pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e ainda nos sites oficiais de governo dos três países.
 
Também foram consultados documentos oficiais sobre a aplicação de vacinas em pessoas que já tiveram a COVID-19 tanto na Itália quanto na Alemanha. Os ministérios da Saúde dos dois países foram consultados por e-mail.
 
Por fim, o Comprova entrou em contato com o médico Roberto Zeballos, autor do vídeo, por WhatsApp. Ele respondeu por áudio.
 
O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a COVID-19 disponíveis no dia 27 de agosto de 2021.
 

Verificação

 
A variante Delta 
 
No vídeo, Zeballos declara que a delta “é menos agressiva do que a primeira (variante)” e que, por isso, “vai dar para tratar todo mundo em casa”. Ambas as afirmações são enganosas. 

Segundo o CDC, “dados sugerem que a variante delta pode causar doenças mais graves do que as cepas anteriores em pessoas não vacinadas” e que “em dois estudos diferentes do Canadá e da Escócia, os pacientes infectados com essa variante eram mais propensos a serem hospitalizados do que os pacientes infectados com a alfa ou as cepas originais do vírus”. 
 
O órgão ressalta que, diferentemente das cepas anteriores, que produziam menos vírus em pessoas totalmente vacinadas em relação às não imunizadas, a delta “parece produzir a mesma alta quantidade de vírus” nos dois casos – e, como as outras variantes, a quantidade de vírus da delta diminui mais rapidamente nos pacientes que se vacinaram.
 
Em 27 de junho, o Brasil registrou a primeira morte em decorrência dela e, em 20 de julho, o país já registrava cinco óbitos, segundo o Ministério da Saúde – ressaltando que a cepa foi identificada pela primeira vez por aqui em maio. Em 25 de agosto, já eram 50 óbitos, mas o número pode estar subestimado, já que a identificação desta variante depende de sequenciamento genético. 
 
Sobre a afirmação de que “vai dar para tratar todo mundo em casa”, não é o que mostra documento de 8 de agosto divulgado pela Opas, da OMS. Nele, o órgão informa que “em nível global, se observam vários países com aumento de casos e de hospitalizações, com a emergência da variante de preocupação delta” e que “estudo recente no Reino Unido estimou que o risco de internação hospitalar foi aproximadamente dobrado naqueles com a delta quando comparado à alfa”. E, como escreveu o médico Drauzio Varella na Folha em 30 de junho, “a necessidade de hospitalização está diretamente ligada ao aumento da mortalidade”. 

A variante e a vacina
 
Outra desinformação dita por Zeballos é quando ele questiona por que vacinar com um produto que é “para o primeiro vírus” e relaciona a imunização a enxugar gelo no caso da delta.
 
Os imunizantes realmente foram desenvolvidos quando a delta ainda não circulava, mas, diferentemente do que ele diz, a variante não é um segundo vírus, mas, sim, uma mutação do vírus original, como informa reportagem da Folha. Em resposta ao Comprova, o médico disse não ter dito que eram vírus diferentes. 
 
Já está provado que as vacinas em uso em diversos locais, inclusive no Brasil, são eficazes contra essa variante. De acordo com o Instituto Butantan, que produz a Coronavac em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, por exemplo, a vacina “é eficaz contra casos graves de COVID-19 causados pela delta”. 
 
Na semana passada, um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, concluiu que as vacinas da Pfizer e da AstraZeneca – que no Brasil tem parceria com a Fiocruz – são eficazes contra a variante delta, embora a proteção tenda a cair com o tempo, como mostrou essa matéria do Estadão
 
Já um estudo feito na África do Sul, com resultados divulgados no início do mês, apontou que a vacina da Janssen, de dose única, reduziu em 71% as internações de pessoas infectadas com a variante delta e diminuiu as mortes em 95%

As crianças
 
Como crianças “não evoluem com a doença” e “não são transmissoras”, “não tem sentido vacinar”, desinforma, novamente, Zeballos, no trecho final do vídeo.

É verdade que os estudos, até agora, indicam que elas transmitem menos, mas transmitem. A pesquisa “A dinâmica da infecção por Sars-CoV-2 em crianças e contatos domiciliares em uma favela no Rio de Janeiro”, da Fiocruz, da Universidade da Califórnia e da London School of Hygiene and Tropical Medicine, por exemplo, indica que elas mais frequentemente são infectadas por adultos do que atuam como transmissoras.

Já um outro estudo, publicado no dia 16 na revista científica Journal of the American Medical Association (Jama), revela que bebês de 0 a 3 anos apresentam mais chance de transmitir o Sars-CoV-2 em casa do que adolescentes de 14 a 17 anos.

Mas, como informa o CDC, elas “podem ser infectadas, podem ficar doentes e podem espalhar o vírus para outras pessoas”.

Dizer que elas não evoluem com a doença também é uma desinformação perigosa, pois não se pode generalizar. De acordo com documento da Unicef, “crianças de qualquer idade podem ficar doentes com COVID-19” e, “embora crianças e adultos apresentem sintomas semelhantes, as crianças geralmente apresentam doenças menos graves do que os adultos”.

Elas podem, inclusive, e infelizmente, morrer da doença. Segundo o CDC, 271 óbitos entre pessoas de 5 a 17 anos e 120 entre aquelas de 0 a 4 anos foram relatados ao Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos Estados Unidos até 7 de julho de 2021.

Outro dado: levantamento do Observatório Obstétrico Brasileiro COVID-19 indica que houve mais de 10 mil casos graves da doença e 846 óbitos de crianças de até dois anos no Brasil entre março de 2020 e 11 de julho de 2021 – um terço dos bebês que morreram não tiveram acesso a tratamento adequado.

Sobre as vacinas, por ora, elas estão sendo aplicadas em adolescentes de 12 a 17 anos em vários países, inclusive no Brasil – o estado de São Paulo, por exemplo, começou a imunizar esta faixa etária neste mês com a Pfizer (cujo uso para menores de idade foi autorizado pela Anvisa).

Em crianças menores, apenas a China está aplicando. Por lá, estão sendo imunizadas com a Coronavac pessoas a partir de 3 anos, mas não há dados de quantas crianças já receberam as doses.

No Brasil, a Anvisa negou no dia 18 o aval para o uso da Coronavac em crianças e adolescentes de 3 a 17 anos – técnicos disseram que faltam dados para confirmar a segurança e eficácia nesta faixa etária, e a decisão pode ser revista. 

Estado de Minas

 
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