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Bolsonaro e Guedes se distanciam da gestão liberal prometida em 2018



Faltando pouco menos de um ano para que os brasileiros escolham nas urnas eletrônicas os eleitos para a próxima gestão do país, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e o ministro da Economia, Paulo Guedes, passaram a incorporar em suas preocupações políticas a fome e a miséria enfrentadas por milhares de brasileiros.  

Porém, desde o primeiro anúncio do lançamento do Auxílio Brasil, programa de renda básica familiar que substituirá o Bolsa Família a partir de novembro, o governo Bolsonaro entrou em embate com o mercado financeiro e com a equipe econômica de Guedes. Como resultado, quatro secretários da cúpula da pasta pediram demissão na semana passada. 

O conflito ocorre porque para ampliar o número de beneficiários para aproximadamente 17 milhões de famílias em situação de vulnerabilidade social, com pagamento mínimo de R$ 400 mensais – sem fonte de recursos para os R$ 30 bilhões previstos para bancar o programa –, o governo ameaça furar o teto de gastos, driblando a promessa de compromisso fiscal. 

Tentando remediar os frequentes reajustes que encarecem os combustíveis no país, Bolsonaro também passou a prometer um “auxílio diesel”, no mesmo valor de R$ 400, para 750 mil caminhoneiros autônomos. Da mesma forma, esse benefício ainda não tem fonte de custeio definida.

Embora Guedes diga reiteradas vezes, mesmo sem ser questionado, que o presidente “não é populista” e que a intenção do governo “não é eleitoreira”, assumiu que as eleições despontam no horizonte, e por isso "é natural" que os agentes políticos queiram se promover com programas sociais

"Quanto mais próximo da eleição mais fura teto tem. É natural. Todo mundo quer ganhar eleição, todo mundo quer gastar um pouco”, afirmou o ministro em entrevista à imprensa, na última sexta-feira (22). 

Manobras de sobrevivência para 2022

A defesa do ministro coincide com a avaliação de Nauê de Azevedo, cientista político, advogado e sócio do escritório Pinheiro de Azevedo Advocacia: “É uma manobra de sobrevivência. É uma forma de se manter viável, eleitoralmente falando. Bolsonaro vem perdendo um contingente de eleitores medianos, menos radicais”, nota o especialista.

“Essa guinada na política fiscal vem exatamente para tentar manter a competitividade e a possibilidade de ser um concorrente forte em 2022. Bolsonaro não vai deixar de ser forte porque hoje ele é a pessoa com a caneta na mão”, acrescenta.

Enquanto está de olho nas próximas eleições, a gestão de Bolsonaro e Guedes, que costumam se orgulhar da união liberal-conservadora, tem se afastado do que foi prometido em 2018, quando foram eleitos. 

“É natural que existam ajustes entre o discurso e a prática, são as circunstâncias. Quando se enfrenta uma pandemia, uma crise, são feitos ajustes no projeto original. Mas não é bom que a diferença seja grosseira. Isso que se caracteriza como um engano eleitoral. Havia a expectativa de algumas ações que não estão se concretizando na prática”, desaprova Fábio Pina, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo de São Paulo (FecomercioSP).

Além disso, para o economista, o governo federal tem falhado em atender às expectativas prometidas no âmbito das privatizações e controles fiscal e da inflação. 

Contraste entre privatização e criação de estatais

Comparado ao governo anterior do ex-presidente Michel Temer, o governo Bolsonaro aumentou a quantidade de empresas públicas, principalmente as subsidiárias que têm controle indireto de empresas públicas, segundo levantamento do Boletim das Empresas Estatais Federais, divulgado em abril deste ano.

De acordo com esse levantamento, entre 2018 e 2021, a quantidade de empresas públicas passou de 134 para 188, representando aumento de 40,29%; e de 88 para 142, revelando acréscimo de 61,36% na criação de subsidiárias no governo Bolsonaro em relação ao final do governo de Temer.

Até o momento, foram concluídos 12 processos de privatizações, que tiveram início em 2016. Desse número, foram 7 desestatizações totais e 5 desinvestimentos. Estão em andamento 15 processos de desestatização total e 23 de desinvestimento parcial nas estatais, incluindo a privatização dos Correios e da Eletrobras, que tramitam no Congresso Nacional.

Sem aprovação liberal

Segundo Pina, a meta de privatização prometida no início do governo Bolsonaro “foi ousada demais e criou expectativa irrealista”, e essa avaliação se repete com relação ao controle fiscal.

“A promessa era zerar o déficit fiscal no primeiro ano. Teve a pandemia, mas mesmo sem ela a meta era muito ousada. Também está aquém do desejado o controle da inflação. O risco de rompimento do teto é outro ponto que não é bem visto pelo mercado e não era esperado sob uma administração de economistas liberais”, nota o assessor econômico.

Com perspectiva semelhante, Azevedo nota que o governo se distanciou do discurso inicial, embora tanto Guedes quanto Bolsonaro sigam tentando manter uma aparência de responsabilidade fiscal. 

“Do ponto de vista eleitoral, o presidente faz algo que tem muito sentido, que é tentar atacar um problema jogando dinheiro nele”, observa o cientista político, que também é mestrando em Direito Constitucional pelo IDP e em Direito Privado pela Università degli Studi 'Mediterranea' di Reggio Calabria, na Itália.

No entanto, essa tática política desagrada a base de eleitores liberais de Bolsonaro, de acordo com Pina. “Não atende a uma proposta liberal. Mesmo dentro do que era razoável fazer, muita coisa não foi feita”, pontua o especialista.

Discurso antissistema mantém fidelidade

Por outro lado, segundo Azevedo, embora tenha decepcionado liberais e eleitores menos radicais que o escolheram em 2018, Bolsonaro não desagrada os eleitores mais fieis, pois foi justamente o discurso antissistema que o alçou à Presidência.

“A narrativa do governo é antissistêmica, então ainda há uma confiança de que é possível responsabilizar o sistema pela falta de atitudes ou pelas atitudes tomadas nessas pautas prometidas pelo governo”, observa o cientista político.

Apesar de se colocar como antissistema, para Azevedo existe uma “falha sistêmica” no governo Bolsonaro quando ignora as variáveis “política” e “Congresso Nacional” nos planos e promessas anunciados.

“O Paulo Guedes não demonstrou domínio da pauta política o bastante para conseguir trânsito nessas instituições e levar adiante todos aqueles planos de privatização”, avalia o especialista.

“Muitas vezes pareceu que agentes do próprio governo estavam jogando contra esses planos, em vários momentos a equipe econômica ficou isolada diante da chamada ‘ala política’. Sem sinergia diante dessas pautas, fica muito difícil avançar em qualquer coisa”, conclui Azevedo.

O Tempo


 
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