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Governo gasta 2 vezes mais com acidentes do que com melhorias na malha viária

Foto: Flávio Tavares


Com placas de “luto”, moradores de Coelho, na região Central de Minas Gerais, gritavam por “segurança” e pediam quebra-molas e radares. O ato foi em 2 de março, um dia depois de um rapaz ter sido morto atropelado na rodovia. Os manifestantes não sabiam dizer ao certo quantas vidas foram perdidas nos últimos anos naquele trecho que corta o distrito de Ouro Preto, mais precisamente no KM 65 da BR–356. “Foram mais de dez”, disse uma mulher com ar bastante indignado. “O quê? Chegou aos 20 com certeza”, gritou um homem no meio da multidão. Independentemente do número, ali, onde, por acaso, a reportagem passava ao seguir rumo a Nova Era, para checar os impactos causados por uma cratera que se abriu nos últimos meses, é só mais um trecho onde mães choram as perdas de seus filhos em estradas que cortam Minas Gerais. Um retrato esperado no país onde o que se perde em recursos com tudo o que envolve os acidentes é superior ao investimento nas rodovias. 

“Nós precisamos de quebra-molas, de retorno do radar que foi retirado e de passarela para segurança dos pedestres aqui. Olha, estamos do lado direito da pista, do outro lado tem posto de saúde, e a gente tem que atravessar aqui para levar as crianças para a escola”, diz Auxiliadora Silva, uma das manifestantes. Aquele não era o foco da reportagem, que buscava por pontos críticos em rodovias mineiras que aguardam obras urgentes. Mas aqueles manifestantes trouxeram à tona outra questão de extrema relevância: o alto índice de mortes nas estradas, principalmente onde a infraestrutura é deficitária. 

Nas rodovias federais que cortam Minas Gerais, 15,4 mil pessoas morreram em acidentes nos últimos 14 anos. O levantamento feito pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), com base em dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), mostra que, de 2007 a 2021, foram registrados 275,5 mil acidentes, sendo 8.309 no ano passado, quando 693 pessoas foram a óbito. Atropelamentos, como o que levou dezenas de pessoas a se manifestarem na BR–356 naquele dia, representaram 5,9% do total de acidentes nas estradas federais em Minas no ano passado. A colisão ainda é o que lidera, com mais da metade dos casos (52,5%) e 57% das mortes.

Parte desses problemas que ocorrem em rodovias estaduais e federais poderia não existir se elas estivessem em condições mais adequadas. “As estradas de maior fluxo já deveriam estar duplicadas. Se isso acontecesse, os acidentes frontais, que estão entre os mais comuns, já não ocorreriam mais”, exemplifica o especialista em trânsito Márcio Aguiar. 

Integrante da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Alysson Coimbra concorda: “São rodovias dos anos 1950 que não passaram por processo de conservação, e hoje a gente paga pela necessidade de reestruturação e adaptação para o atual fluxo de veículos. Os veículos se modernizaram, e os caminhões estão mais pesados, fazendo com a vida útil da malha asfáltica seja cada vez menor. É preciso que haja intervenções em trechos onde há alto índice de colisão, capotamento e saída de pista”, diz.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostrou que o custo estimado dos acidentes em rodovias federais no Brasil chegou a R$ 12,9 bilhões em 2021. O valor é mais do que o dobro do total de R$ 5,76 bilhões efetivamente investido nas estradas federais no ano passado. Se incluídas as vias estaduais brasileiras, o baque financeiro pula para R$ 40 bilhões anuais, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea). Desse montante, a maior parcela (41,2%) é em função da perda de produtividade tanto quando a vítima fica lesionada como quando vai à morte. 

“Os impactos da perda de produção recaem sobre a Previdência Social e também sobre a família, em função de seu empobrecimento”, explica o instituto no material. O segundo maior custo é o hospitalar, representando cerca de 20% do total. “O Brasil figura entre os países com maior índice de mortes, sequelas, ferimentos e hospitalizações no trânsito, e todo o custeio da cascata infinita de lesões e inoperância do poder público é pago por todos nós. São grandes os gastos do Sistema Único de Saúde com essas hospitalizações e cirurgias. Essa demanda aumentada ocupa leitos e impede que cirurgias eletivas sejam realizadas, reduz as vagas de internação nas UTIs. Temos internações prolongadas, após a alta hospitalar e a necessidade de reabilitação. E, quando essas pessoas não conseguem a reabilitação, elas têm que recorrer ao SUS, seja de forma temporária ou por uma aposentadoria definitiva por invalidez”, explica Coimbra. 

As polícias Rodoviária Federal e Militar Rodoviária foram procuradas pela reportagem para comentar os índices de acidentes, mas não se pronunciaram.

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