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Minas Gerais tem áreas potenciais para abrigar novas usinas nucleares



Temática que voltou à pauta dos grandes líderes mundiais, com a guerra entre Rússia e Ucrânia, o uso da energia nuclear no ranking da matriz energética global revela um Brasil ainda atrasado, com 1,3% de geração nesta matriz. O país tem duas usinas, Angra 1 e 2, capazes de produzir 1.999 MW, potencial cuja expansão está prevista para um índice entre oito a dez gigawatts até 2050, conforme o Plano Nacional de Energia (PNE).

A construção de até dez novas instalações nas regiões Nordeste e Sudeste do país está em estudo e divide opiniões de especialistas. Enquanto alguns estudiosos aprovam que o caminho da diversificação da matriz energética brasileira passa pela expansão do número de usinas nucleares, outros revelam temor quanto ao custo e ao passivo ambiental gerados por essas instalações. 

Minas Gerais tem duas potenciais áreas para abrigar usinas nucleares: São Romão, no Norte do Estado, e Resplendor, na região do Rio Doce. As análises são feitas pela Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras que cuida do processo de criação e operação de usinas termonucleares no Brasil. Também estão no páreo municípios de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

Além da pré-seleção, a posição mineira também é estratégica no que diz respeito à existência de reservas geológicas de urânio. Conforme a Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Poços de Caldas, no Sul de Minas, e a região do Quadrilátero Ferrífero estão entre os principais estoques de urânio do país. Para construir uma nova usina, o empreendedor, no caso a Eletronuclear, deve seguir a norma 1.04 da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM). 

“É feita uma detalhada avaliação de segurança. Vamos verificar se as informações fornecidas estão de acordo com os requisitos regulatórios estabelecidos, se vai ter água suficiente para resfriamento, se os reatores estão em área afastada de comunidades”, explicou o coordenador-geral de Reatores e do Ciclo de Combustível do órgão, Jefferson Borges Araújo.

O professor aposentado do departamento de Engenharia Nuclear da UFMG Inácio Loiola explica que apesar de dificuldades tecnológicas, o Brasil pode se tornar independente no setor. O docente ainda defende estudos mais aprofundados para descobertas de reservas de urânio. “É preciso aprofundar mais o território. O Brasil é muito grande, tem local que ninguém pisou. Quando o Brasil prospectar, de fato, todas as áreas, teremos consciência e exata noção de capacidade”, frisa. 

Já o professor titular do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer, considera as crises energéticas fruto de falhas de gestão. Ex-diretor de Gás e Petróleo da Petrobras, ele acredita que as fontes eólica e solar fotovoltaica são opções mais viáveis, financeiramente, para diversificar a matriz nacional, diminuindo a dependência das hidrelétricas.

“Combinando essa produção de vento e sol disponíveis com reservatórios das usinas hidráulicas, você poupa a água das grandes usinas e só utiliza nos momentos estratégicos”. Ildo Sauer ainda pondera que ao fim das operações, o passivo deixado pelas usinas pode chegar a até 40 mil toneladas de elementos irradiados.

Sobre a expansão, o Ministério de Minas e Energia disse, em nota, que o “mundo e o Brasil já entendem que a energia nuclear é parte da solução” da crise energética. 

A Eletronuclear, por sua vez, não detalhou os estudos feitos para instalação dos novos reatores no país, informando apenas que as pesquisas são preliminares e que qualquer evolução depende de análise ministerial. “Somente ao final desse trabalho, locais ou municípios específicos poderão ser elencados”, diz a nota.

 

Estrutura atual 

As usinas nucleares em operação no Brasil estão localizadas no complexo Central Almirante Álvaro Alberto em Angra dos Reis, chamadas de Angra I e Angra 2. A usina de Angra I foi a primeira a ser construída. Os reatores entraram em operação em 1985 e o prazo para encerramento das atividades está previsto para 2024.

No entanto, a Eletronuclear, subsidiária da Eletrobrás que opera e estrutura instalações do tipo no país, já solicitou ampliação das atividades à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM). O pedido está sob análise, segundo o coordenador-geral de Reatores e do Ciclo de Combustível do órgão, Jefferson Borges Araújo.

Ele explica que a vida útil das usinas é de 40 anos, após licenciadas, passando por avaliações periódicas obrigatórias a cada 10 anos. Com o pedido para ampliação das atividades, é possível prorrogar por até mais 20 anos, desde que a empresa responsável comprove condições de segurança suficientes para retornar a operação.

“A temperatura nos reatores não pode passar de 324 graus, condição limite de operação”, citou Jefferson como um dos critérios observados nas análises. Outra possibilidade no horizonte é a retomada das obras da usina de Angra 3, localizada no mesmo complexo, que foi paralisada em 2014. De acordo com a Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), as obras físicas devem ser finalizadas até 2026.

A Eletronuclear informou que 67% das intervenções já foram concluídas e o reator terá condição de gerar 1.405 megawatts. Contudo, a empresa não deu mais detalhes da situação. O funcionamento será nos mesmos moldes das duas primeiras usinas e o mais utilizado no mundo, o chamado PWR. Neste caso, o processo de fissão é controlado com água pressurizada.

O presidente da Aben, Carlos Mariz, ressalta que o Brasil tem expressiva reserva de urânio, matéria-prima utilizada no processo de fissão para a geração nuclear. Ele destaca que o país também domina o processo de enriquecimento químico, procedimento necessário para a utilização nos reatores. 

Para Mariz, o cumprimento das metas do Plano Nacional de Energia passa por ações imediatas. “É necessário que esse assunto seja tratado já agora, se não dificilmente haverá tempo útil e mão de obra na indústria nacional”, analisa.

Carlos ainda acredita que as crises no sistema elétrico brasileiro, com a baixa nos reservatórios das hidrelétricas, em 2001, 2014 e 2021, poderiam ser minimizadas caso o Brasil estivesse estruturado com outras usinas. 

“O processo decisório no Brasil foi lento. Nós estamos pagando caro hoje por não ter desenvolvido mais usinas nucleares no passado. É uma obra de porte semelhante à de uma grande hidrelétrica que demanda anos para uma aprovação de licenciamento”, acrescenta.

Fonte: O Tempo



 
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