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'Vou cozinhar com o quê?' Pobreza agrava tragédia 'invisível' de acidentes com queimaduras no Brasil



Quando o médico Marcos Barreto participa de congressos e conferências fora do Brasil, não é incomum que achem que ele trabalha em zonas de guerra.

Na verdade, ele chefia a unidade de queimaduras do Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra, no Recife (PE), referência no tratamento de queimados no país.

Ali são atendidas cerca de 280 pessoas por mês, uma média de quase dez por dia. E nos 40 leitos costumam ser internados, em média, 1,1 mil pacientes por ano, diz Barreto, que atua no hospital há 47 anos, desde que era estudante de Medicina.

"No exterior, acham que (números dessa magnitude) só podem ser de queimaduras por conflito", explica Barreto à BBC News Brasil.

"E se você me perguntar se esse número tem aumentado no Brasil, digo que sim, claro. Quanto mais pobreza, maior o número de acidentados. (...) Mas não é nada novo: é um problema histórico. Eu vejo isso há décadas. É um problema puramente social, e muito grave. Minha clientela é miserável. Eu nunca atendo rico queimado."

Essa relação direta entre o aumento recente da pobreza e mais queimaduras ainda não consta de estatísticas oficiais recentes, mas é confirmada por especialistas e tem sido observada nos últimos meses, em particular no acesso a combustível para cozinhar de modo seguro.

Enquanto o preço do gás de cozinha acumulou alta de quase 30% nos 12 meses até março de 2022, 56% da população adulta brasileira viu sua renda cair desde o início da pandemia, segundo pesquisa do Unicef (braço da ONU para a infância) publicada em maio de 2021.

O resultado é que se tornaram mais comuns os relatos - e os riscos de acidentes - envolvendo pessoas que, sem conseguirem comprar gás de cozinha, passaram a preparar refeições com combustíveis alternativos, mais inflamáveis ou perigosos.

"Sempre quando aumenta o preço do gás, centros de atendimento de queimados já sabem que precisam se preparar para atender mais gente", sobretudo em regiões vulneráveis, explica à BBC News Brasil o médico José Adorno, presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ).




 
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