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Férias escolares agravam insegurança alimentar de alunos de BH: ‘Passam fome’

 

Foto: Karoline Barreto / CMBH

“Se eu disser que não tem criança que passa fome nas férias, estarei mentindo”, diz o líder comunitário do Morro do Papagaio, Júlio Fessô, sobre um problema que tem data marcada para acontecer. O recesso escolar de julho começou na última segunda-feira (18) em Belo Horizonte. Pelas próximas duas semanas, os 194 mil estudantes da rede pública ficarão sem a alimentação fornecida pelas instituições de ensino, o que é preocupante, principalmente no atual cenário, já que, pela primeira vez, mais de 100 mil famílias se encontram em extrema pobreza. Para garantir a alimentação das crianças e adolescentes, movimentos comunitários e instituições se mobilizam.

Marlúcia Ferreira do Nascimento, de 32 anos, é moradora do Morro do Papagaio, na região Centro-Sul de BH. Mãe de seis filhos e com três deles matriculados na rede pública da capital, ela conta   que vê os gastos aumentarem nesta época do ano. “Meus meninos ficam o dia inteiro na Escola Integral e lá alimentam certinho. Quando chegam as férias, tudo aperta e fica bem puxado. Sou mãe solo e tenho que trabalhar para dar conta de pagar as contas”, diz.

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), em um ano letivo são servidas aproximadamente 85 milhões de refeições nas unidades educacionais. “A prefeitura atua na elaboração dos cardápios balanceados por meio de uma equipe de nutricionistas, planeja, adquire e faz o controle de qualidade dos alimentos, orienta e monitora a produção de refeições diretamente nas unidades escolares”, informa em nota.

Justamente pela maneira como as refeições são preparadas é que Marlúcia fica tranquila quando os filhos estão na escola e preocupada quando o período de recesso chega. “Meus filhos sentem muito quando não estão na escola, porque muda a rotina deles, a hora de se alimentar. Aqui em casa eu não consigo manter (a alimentação) do mesmo jeito que nas escolas”.

O preço dos alimentos é um dos fatores de maior empecilho para Marlúcia. “Olha só o meu caso: tenho filhos de 8 meses, 2 e 5 anos. Aqui em casa só eu trabalho. Minha despesa triplica no período das férias. Tenho que comprar leite para os meninos, e o litro aqui no morro está R$ 8. Sem falar nas fraldas, aluguel e na moça que pago para olhá-los. É pesado demais”, diz.

Para dar conta de garantir a alimentação dos filhos, além dos dois empregos de chapista e lavadeira, Marlúcia recorre à ajuda da comunidade do Morro do Papagaio. “Nos últimos seis meses cheguei a ficar desempregada, e só não passamos fome por causa das doações que recebemos. Se isso não acontecesse, com certeza, ia faltar alimento. Tenho anemia falciforme e tenho que repor sangue. Isso faz com que eu tenha que afastar dos serviços que arrumo. Não dou conta mesmo”.

A mãe de família sugere a distribuição de cesta básica pela prefeitura durante o período de férias. “Podiam fazer igual na época da pandemia. Ajudou demais. Quando as crianças estão nas escolas, elas se alimentam direitinho, mas fora delas a situação é diferente”, comenta. Segundo o Executivo municipal, mais de 5,2 milhões de cestas básicas foram distribuídas, no referido período, “impactando a vida de 1 milhão de pessoas”.  Mesmo diante das dificuldades, Marlúcia ainda tira um tempinho para estudar, visando ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O objetivo é garantir uma melhor qualidade de vida para os filhos. “Faço cursinho gratuito aqui, no Morro do Papagaio. Estudo para ser engenheira. Eu nunca desisto e nunca vou desistir, até porque desistir está longe de mim”.


Ajuda na hora certa

Iniciativas comunitárias e de instituições buscam levar alimentos para as famílias nesta época de férias. O Serviço Social do Comércio (Sesc), por meio do projeto Férias Sem Fome, mapeou 37 entidades sociais que acompanham crianças e adolescentes em insegurança alimentar de forma moderada e grave.

“Nossa meta é arrecadar alimentos para que possamos fazer doações de cestas básicas para 6.156 famílias. O Mesa Brasil funciona durante todo o ano com doação de alimentos que são distribuídos para entidades sociais atendidas”, afirma Luciana Vacari, supervisora do Programa Mesa Brasil Sesc.

Na última quarta-feira (13), parte das doações foi distribuída na Creche Etelvina Caetano de Jesus, no bairro Primeiro de Maio, com a participação do ex-jogador Reinaldo e do mascote do Atlético. O Instituto Galo foi parceiro do Mesa Brasil na iniciativa.

Quem também realiza ações voltadas a ajudar as famílias em vulnerabilidade é o líder comunitário do Morro do Papagaio, Júlio Fessô. “Quando as férias chegam, as crianças ficam desassistidas. A escola faz muita falta no quesito de alimentação. Desenvolvemos um trabalho com o cadastro de mais de 400 famílias. Ajudamos com vale-gás e cesta”, diz o autor da frase que abre esta reportagem e que integra o movimento Eu Amo Minha Quebrada.

Fessô comenta a importância de as pessoas terem a noção do quão importante é ajudar as famílias mais necessitadas. “É preciso que as pessoas que têm condições se conscientizem e ajudem o próximo. Não precisa vir só de fora. Nós estamos no mundo e, se temos condições, precisamos ajudar”.

O projeto social administrado pelo líder comunitário prioriza, conforme conta, as famílias em situação de vulnerabilidade e as mães solo que pagam aluguel e estão desempregadas. Manter o projeto não tem sido tarefa fácil. “As doações estão chegando menos. Muita gente não consegue mais ajudar, pois a situação está difícil para todo lado. Acredito, assim como a Marlúcia, que a PBH poderia ofertar cestas também nas férias, pois as escolas, melhor do que ninguém, conhecem as realidades das famílias mais vulneráveis”.


O que diz a PBH

A reportagem questionou a prefeitura sobre o percentual dos alunos matriculados que têm na escola a principal oferta de alimentos, no entanto não foi respondida. O poder público esclareceu que “o estudante pode realizar até cinco refeições na escola”. 

“A alimentação escolar, segundo as diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), é realizada, como o próprio nome do programa prevê, no âmbito das escolas e em seu período letivo. Mesmo sendo o Pnae um programa que tem em seu escopo a alimentação escolar, Belo Horizonte tem mantido outras políticas de segurança alimentar importantes para crianças e adolescentes, mas também para a população de forma geral”, afirmou.

Os Restaurantes Populares, o Banco de Alimentos, o Programa de Assistência Alimentar e Nutricional Emergencial (Paan) e o Auxílio Belo Horizonte são as políticas do Executivo municipal para auxiliar as famílias. A última delas tem um projeto de lei tramitando na Câmara Municipal para garantir mais quatro parcelas do benefício a 75.427 famílias em situação de pobreza e extrema pobreza na capital.

Fonte: O Tempo


 
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