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Afeganistão: Dois anos após volta do Talibã, mulheres estão sendo “apagadas de tudo”


Mulheres protestam no Afeganistão Reuters




Quando Zahra pensa em sua vida antes de agosto de 2021, parece outra realidade. Como estudante no Afeganistão, ela tinha “muitos amigos”.

“Éramos felizes juntos”, lembra ela. “Estávamos estudando, às vezes nos reuníamos… andávamos de bicicleta”.

Zahra, 20 anos, não anda mais de bicicleta, ou vai para a escola, ou sai sem cobrir o rosto, ou vê os amigos que fugiram do país. Tudo o que pode fazer, ela diz, é sentar em casa e se preocupar com um futuro que se desenrola diante de seus olhos.

“Quando fico na frente do espelho, quando olho para mim mesma, vejo uma Zahra diferente de dois anos atrás”, disse ela. “Me sinto triste pelo meu passado”.


O Talibã, que não é reconhecido pela maioria dos países do mundo, declarou a terça-feira dessa semana feriado nacional. O dia é “cheio de honra e orgulho para os afegãos”, disse o vice-porta-voz do Talibã, Bilal Karimi.

“O Afeganistão foi libertado da ocupação, os afegãos puderam recuperar seu país, liberdade, governo e vontade. A única forma de resolver o problema é a compreensão e o diálogo. A pressão e a força não são lógicas”, acrescentou.

Mas comemorar é a última coisa que muitas mulheres afegãs como Zahra – que a CNN está identificando pelo primeiro nome por razões de segurança – querem fazer, já que a vida sob o domínio do Talibã se torna cada vez mais repressiva e brutal.

E os ativistas alertam que as coisas só podem piorar quando o mundo desviar o olhar, cansado das guerras de décadas no Afeganistão e preocupado demais com seus próprios problemas domésticos. Enquanto isso, a diminuição da ajuda estrangeira significa que milhões de afegãos estão lutando contra a seca, a fome e as doenças em uma crise que os especialistas em direitos humanos das Nações Unidas disseram nesta semana que está piorando.

“Não existe mais a liberdade das mulheres”, disse Mahbouba Seraj, ativista dos direitos das mulheres afegãs e indicada ao Prêmio Nobel da Paz de 2023. “As mulheres no Afeganistão estão sendo lentamente apagadas da sociedade, da vida, de tudo – suas opiniões, suas vozes, o que pensam, onde estão”.

Apagadas da esfera pública

Quando o Talibã, um grupo islâmico radical que já havia governado o Afeganistão na década de 1990, assumiu o poder em 2021, inicialmente se apresentou como uma versão mais moderada dele mesmo, prometendo até que as mulheres teriam permissão para continuar seus estudos até a universidade.

Mas, desde então, reprimiu, fechando escolas secundárias para meninas; proibindo as mulheres de frequentar a universidade e trabalhar em ONGs, incluindo as Nações Unidas; restringindo suas viagens sem um acompanhante masculino; e banindo-as de espaços públicos, como parques e academias.

As mulheres não podem mais trabalhar na maioria dos setores – e sofreram mais um golpe no mês passado, quando o Talibã fechou todos os salões de beleza do país. A indústria empregava cerca de 60 mil mulheres, muitas delas o único ganha-pão de suas famílias, criando mais problemas para as famílias que já lutavam para sobreviver.

Para mulheres jovens como Zahra, a reviravolta abrupta da vida cotidiana parece particularmente devastadora à medida que atingem a maioridade e desenvolvem sonhos para o futuro. Ela gosta de arte e queria ser designer ou abrir seu próprio negócio – nada disso parece possível no Afeganistão de agora.

“Tenho 20 anos e é hora de estudar, de me educar”, disse ela. “Mas eu não tenho permissão. Estou apenas na minha casa. Estou apenas preocupada com meu futuro, minhas irmãs, e estou preocupada com o futuro de todas as mulheres do Afeganistão.”

Incapaz de sair muito, ela tenta ocupar seu tempo em casa pintando, lendo livros e fazendo todas as aulas online disponíveis. Mas é sufocante, como estar na prisão, diz ela. “Não consigo me concentrar porque vejo a situação, minha irmã está sentada em casa, todas as meninas estão sentadas em casa. Elas não podem fazer nada.”

Isso também causou um grave dano à saúde mental, com relatos generalizados de depressão e suicídio, especialmente entre adolescentes que foram impedidas de estudar, de acordo com um relatório da ONU no mês passado, compilado após uma visita de uma semana ao Afeganistão.

Quase 8% das pessoas pesquisadas conheciam uma menina ou mulher que havia tentado suicídio, disse o relatório. Restrições e dificuldades econômicas também resultaram em um aumento da violência doméstica e no casamento forçado de meninas, afirmou.

O Talibã afirmou repetidamente que as mulheres podem trabalhar em certos setores, desde que sigam os “valores islâmicos”. Zabiullah Mujahid, outro porta-voz do Talibã, reconheceu que ainda havia um “problema em relação à educação das meninas”, alegando que o grupo queria “preparar o terreno para regras e regulamentos islâmicos” e estabelecer um “ambiente seguro para sua educação”.
Ele também afirmou que “as mulheres estão trabalhando ativamente na saúde, educação, departamentos de polícia, escritórios de passaportes, aeroportos e assim por diante”. Mas organizações sem fins lucrativos e especialistas dizem que isso está longe de ser verdade, e o buraco é particularmente evidente no setor de saúde.

Sob as regras do Talibã, as mulheres só podem receber cuidados de saúde de outras mulheres, mas a proibição do ensino superior das mulheres significa que todas as estudantes de medicina não conseguiram terminar seus estudos e se formar, criando uma escassez de médicas, parteiras e enfermeiras muito necessárias.

“(O Talibã) Parece perfeitamente confortável com a ideia de que mulheres e meninas quase certamente já estão morrendo por falta de profissionais de saúde, por causa de suas políticas”, alertou Heather Barr, diretora da divisão de direitos das mulheres da Human Rights Watch.

“Gritando” pela atenção do mundo

A comunidade internacional condenou amplamente o tratamento dado pelo Talibã a meninas e mulheres, com o órgão de direitos humanos da ONU instando o grupo nesta semana a introduzir reformas e respeitar as liberdades das mulheres.
Mas essas mensagens fizeram pouco para forçar a mudança, e a atenção global quase desapareceu, deixando muitos afegãos com raiva e abandonados pelo mundo.

“Os jovens do Afeganistão estão gritando a plenos pulmões, tentando chamar a atenção do mundo para si mesmos e para a situação da guerra, da mulher no Afeganistão”, disse Seraj, ativista dos direitos das mulheres.

Zahra disse que se perguntava por que outros países pareciam se contentar em desviar o olhar. “Eles estão confortáveis – seus filhos, suas filhas, suas irmãs estão indo para a escola”, disse ela. “Mas há meninas e mulheres neste canto do mundo, elas são simplesmente ignoradas pelo mundo e não podem fazer nada.”

Após a tomada do Talibã, os EUA e seus aliados congelaram cerca de US$ 7 bilhões das reservas estrangeiras do país e cortaram o financiamento internacional. A medida prejudicou uma economia já fortemente dependente de ajuda, com milhões de afegãos desempregados, funcionários do governo sem remuneração e o preço dos alimentos e remédios disparando.

No ano passado, os EUA criaram um fundo de assistência econômica de US$ 3,5 bilhões com os ativos congelados – mas as autoridades disseram que não liberariam o dinheiro para uma instituição no Afeganistão e, em vez disso, passariam por um órgão externo, independente do Talibã e do banco central do país.

A ajuda humanitária diminuiu ainda mais nos últimos meses, após a proibição do Talibã de mulheres trabalharem em ONGs. Numerosas organizações, incluindo a ONU, tiveram que suspender programas ou operações críticas no país.

Enquanto isso, ativistas temem que o Talibã possa ser gradualmente normalizado no cenário mundial – mesmo que não seja amplamente reconhecido como um governo legítimo e não controle a sede do Afeganistão na ONU.

“Eles estão posando para fotos com diplomatas sorridentes, estão embarcando em jatos particulares para importantes reuniões de alto nível, onde as pessoas estendem tapetes vermelhos para eles”, disse Barr. “Eles estão sendo autorizados a assumir o controle de embaixadas em um número crescente de países. Então eu acho que da perspectiva deles, está indo muito bem”.

A terrível situação significa que mais de 1,6 milhão de afegãos fugiram do país desde 2021, segundo a ONU. Mesmo esses refugiados enfrentam um futuro de incerteza, muitos ainda esperando para serem admitidos nos EUA e em outras nações ocidentais, enquanto alguns estão esperando há tanto tempo que foram deportados à força de volta para o Afeganistão e tiveram que se esconder.

“A única razão pela qual estou no Afeganistão e fico aqui é para estar ao lado de minhas irmãs e tentar ajudá-las”, disse Seraj, ativista dos direitos das mulheres. “Não perdi toda a esperança. Mas a cada passo do caminho e a cada decisão, vejo isso se tornando cada vez mais difícil”.

E para as jovens afegãs que esperam preservar o que resta de seu futuro, fugir parece ser a única opção que resta.

“Claro, todo mundo adora estar em seu próprio país, porque esta é a nossa cidade natal. Mas acho que não há escolha de ficar aqui”, disse Zahra. “Eu tenho que decidir sobre o meu futuro. Então a melhor maneira é sair do país”.

fonte: CNN Brasil

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