Há momentos em que os números falam mais alto do que os discursos. O Brasil enfrenta déficits públicos sucessivos, crescimento modesto, juros elevados, famílias endividadas, empresas sufocadas e um custo de vida que insiste em desafiar o orçamento de quem trabalha. Ainda assim, os grandes bancos continuam apresentando lucros extraordinários, como se navegassem em um oceano completamente diferente daquele enfrentado pela economia real.
É difícil recordar outro período da história recente em que a distância entre a prosperidade do sistema financeiro e a realidade do cidadão comum fosse tão evidente. Enquanto o brasileiro aperta o cinto, instituições financeiras anunciam resultados recordes, alimentando a percepção de que, em qualquer cenário, sempre existe um vencedor.
Nesse contexto, as notícias divulgadas pela imprensa sobre o Banco Master despertaram inevitável interesse público. Foram noticiadas operações financeiras altamente rentáveis envolvendo autoridades e pessoas politicamente expostas. Independentemente do desfecho de qualquer apuração ou da legalidade das operações, episódios dessa natureza exigem máxima transparência. Em uma República, a confiança da sociedade depende não apenas da legalidade dos atos, mas também da certeza de que o interesse público prevalece sobre qualquer benefício privado.
Quando política, poder econômico e vantagens excepcionais parecem caminhar próximos demais, instala-se um ambiente de desconfiança. E a desconfiança é um dos maiores corrosivos das instituições democráticas. Não basta afirmar que tudo ocorreu dentro da lei; é preciso demonstrar que não houve favorecimento, conflito de interesses ou privilégio incompatível com a função pública.
Enquanto isso, milhões de brasileiros enfrentam juros elevados, tarifas bancárias, crédito restrito e um sistema que parece cada vez mais eficiente para remunerar o capital do que para impulsionar quem produz, empreende e trabalha. A sensação que se instala é a de que existem dois países: um submetido às dificuldades da economia e outro protegido pelas oportunidades reservadas aos círculos de maior influência.
A imprensa livre deve investigar. Os órgãos de controle devem fiscalizar. O Poder Judiciário deve agir com independência. E a sociedade deve continuar perguntando. Democracias sólidas não se enfraquecem pelas perguntas; enfraquecem quando deixam de admiti-las.
Ao longo da história, repetem-se os momentos em que a conveniência supera os princípios, em que os resultados imediatos parecem justificar qualquer caminho. É como se o utilitarismo de Jeremy Bentham prevalecesse sobre a ética do dever defendida por Immanuel Kant: o êxito passa a valer mais do que a retidão, a utilidade mais do que a consciência. Porém, nenhuma sociedade constrói instituições verdadeiramente respeitáveis quando substitui a integridade pela vantagem. A prosperidade sem ética pode produzir riqueza; jamais produzirá confiança.
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