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Opinião com Luiz Fernando Alfredo - 28/07/2026

  • 28 de jul.
  • 4 min de leitura
Por Luiz Fernando Alfredo
Por Luiz Fernando Alfredo

A inteligência artificial e o risco da medicina sem contato humano


Brasil é um país continental. A distribuição dos profissionais de saúde, especialmente dos médicos, acompanha a lógica econômica: os grandes centros concentram especialistas, enquanto centenas de cidades do interior convivem com a escassez de atendimento.
Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde (SUS), apesar dos conhecidos problemas de gestão, desperdício de recursos e episódios de corrupção, continua sendo uma das maiores estruturas públicas de saúde do mundo e representa, para milhões de brasileiros, a única porta de acesso à assistência médica.
Entretanto, nem todos os problemas decorrem da administração pública. Há também uma questão cultural. O brasileiro, em regra, não cultiva a medicina preventiva. Grande parte da população somente procura atendimento quando a doença já está instalada ou quando a dor se torna insuportável. As unidades de urgência acabam recebendo pacientes que deveriam estar sendo acompanhados em consultas periódicas. O resultado é conhecido: filas intermináveis, agendas superlotadas e profissionais pressionados a atender cada vez mais pessoas em cada vez menos tempo.
Foi nesse cenário que a telemedicina ganhou espaço. Em determinadas circunstâncias, trata-se de um avanço inegável. Permite que pacientes de regiões remotas tenham acesso a especialistas e facilita o acompanhamento de casos específicos. O problema começa quando uma ferramenta extremamente útil passa a ser apresentada, ainda que indiretamente, como substituta da consulta médica tradicional.
O diagnóstico não nasce apenas dos exames laboratoriais ou das imagens sofisticadas. Ele começa na conversa, na observação, no exame físico, na postura do paciente, no tom de sua voz, na expressão do rosto e, muitas vezes, em detalhes que nenhum computador consegue captar.
A tecnologia revolucionou a medicina. Seria injusto negar sua contribuição. Ela aumentou a expectativa de vida, tornou diagnósticos mais precisos e permitiu tratamentos antes inimagináveis. O problema nunca foi a tecnologia. O problema é o velho comportamento humano de transformar toda facilidade na conhecida lei do menor esforço.
O computador entrou no consultório como ferramenta. Em muitos casos, tornou-se o protagonista da consulta. O paciente fala; o médico digita. O paciente relata sua dor; o médico olha para o monitor. A inteligência artificial organiza sintomas, sugere hipóteses diagnósticas e redige parte da evolução clínica. Tudo isso pode ser extremamente útil, desde que permaneça exatamente onde deve estar: como instrumento de apoio ao raciocínio médico, jamais como substituto dele.
Infelizmente, percebe-se um distanciamento crescente entre médico e paciente. A anamnese, uma das etapas mais importantes da consulta, corre o risco de transformar-se em um simples formulário eletrônico preenchido com respostas padronizadas. A consulta deixa de ser um encontro entre duas pessoas para tornar-se um diálogo intermediado por uma tela.
Outro aspecto que merece reflexão é a expansão acelerada dos cursos de Medicina. O Brasil forma hoje um número muito maior de médicos do que há algumas décadas. A quantidade, porém, não garante qualidade.
Bons profissionais exigem formação rigorosa, treinamento intenso, hospitais-escola estruturados, residência médica de qualidade e professores experientes. A medicina não pode ser ensinada apenas em salas de aula, laboratórios ou simuladores. O aprendizado depende do contato diário com pacientes reais, da supervisão constante de profissionais experientes e da maturidade clínica adquirida ao longo dos anos.
Nesse ponto, cabe uma responsabilidade que vai além das universidades. O Ministério da Educação, os órgãos reguladores do ensino superior, os Conselhos de Medicina e as autoridades responsáveis pela autorização dos cursos devem exigir padrões cada vez mais elevados de formação. Não basta autorizar a abertura de novas faculdades. É indispensável garantir que seus egressos possuam experiência prática suficiente antes de exercerem, com autonomia, uma profissão da qual dependem vidas humanas. A sociedade tem o direito de esperar que todo médico recém-formado esteja efetivamente preparado para assumir sozinho a responsabilidade sobre seus futuros pacientes.
Nenhuma inteligência artificial responde por um erro de diagnóstico. Nenhum algoritmo assume responsabilidade ética. Nenhum aplicativo transmite segurança a uma família diante de uma notícia difícil. Essas responsabilidades continuam pertencendo ao médico.
É igualmente importante fazer uma ressalva. Felizmente, o Brasil possui milhares de médicos extraordinários. Homens e mulheres que honram diariamente o juramento que fizeram ao concluir a graduação. Profissionais que estudam continuamente, escutam seus pacientes, examinam com atenção, acolhem famílias, enfrentam longas jornadas e compreendem que a medicina não se resume a interpretar exames ou preencher prontuários eletrônicos. São esses médicos que preservam a essência da profissão e demonstram que competência técnica e sensibilidade humana podem caminhar juntas.
A medicina sempre foi uma profissão de ciência, mas jamais deixou de ser uma profissão de humanidade.
Que a tecnologia continue evoluindo e auxiliando o trabalho médico. Que a inteligência artificial seja cada vez mais eficiente como ferramenta de apoio. Mas que jamais substitua o olhar clínico, o exame físico, a escuta atenta, a experiência adquirida ao lado do paciente e o compromisso ético que nenhum software será capaz de assumir.
O prefeito Ciacci não está errado ao implantar a telemedicina em Varginha. A iniciativa pode contribuir para agilizar o atendimento e aumentar a resolutividade das demandas de saúde do próprio município, bem como dos pacientes referenciados de outras cidades que vêm a Varginha para consultas e exames pelo sistema público. No entanto, o sucesso dessa ferramenta dependerá, em grande medida, do comprometimento e da postura dos profissionais médicos, que deverão utilizá-la como um complemento à assistência presencial, e nunca como um substituto do contato humano quando este for indispensável.
O que precisa observar nas regras dos SUS são resolubilidade e resolutividade, no caso de uso de telemedicina:

O que é Resolubilidade?

Conceito: É a propriedade ou a condição de ser resolúvel. No SUS, é vista como um princípio ou diretriz que exige que cada nível de atendimento tenha recursos para resolver o que é de sua competência.

Foco: A infraestrutura, a formação da equipe e a competência técnica disponíveis para enfrentar um agravo. Se o posto de saúde tem médicos, remédios e exames básicos para cuidar de um caso simples, ele tem alta resolubilidade teórica para aquela demanda.

O que é Resolutividade?

Conceito: É a efetivação da solução, ou seja, o grau de resposta satisfatória entregue ao cidadão.

Foco: O desfecho prático do atendimento. Significa que o paciente obteve a cura, o alívio da dor, a orientação correta ou o encaminhamento ágil e adequado para a rede especializada quando o caso exigiu mais complexidade.

Luiz Fernando Alfredo

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Gazeta de Varginha

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