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Pesquisadores da UFV estudam farinha feita de insetos para consumo humano

Imagine que você foi ao mercado e encontrou um biscoito zero lactose, zero glúten e cheio de proteína. Mas tem um porém: a farinha usada na fabricação dele é feita de insetos. Você compraria? Apesar de parecer algo assustador, a farinha feita de insetos existe e é objeto de estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que trabalham justamente para desmistificar o assunto e entender como esse produto poderia ser inserido na indústria e chegar ao consumo humano.
A professora doutora Ceres Mattos Della Lucia, coordenadora do grupo de pesquisa que estuda o tema no Departamento de Nutrição e Saúde (DNS) da UFV, explica que um dos objetivos do estudo é avaliar o uso, por exemplo, por celíacos (intolerantes a glúten, presente nas farinhas brancas). “Não pensamos nas farinhas de insetos como alimentos, mas sim como ingredientes que podem agregar valor nutricional e substituir outras farinhas para alérgicos e celíacos, por exemplo”, diz. “Essa farinha seria utilizada como ingrediente em preparações como bolos, cookies, barra de cereal, shakes, uma infinidade de produtos”, diz.
A nutricionista lembra que insetos, na sua forma in natura, são consumidos em vários países ao redor do mundo. Mas no Brasil, no Ocidente mais precisamente, ainda não há esse hábito. “A gente vê imagens de pessoas, por exemplo, na Tailândia, na China, consumindo grilos fritos vendidos em feiras, e isso nos causa estranhamento mesmo”, exemplifica. “A possibilidade de transformar esses insetos em farinhas é uma alternativa para que eles possam ser consumidos e nós possamos usufruir dos benefícios contidos neles em termos de valor nutricional”.
Farinha rica
em proteína
Uma das principais discussões sobre o valor nutricional da farinha de insetos é a quantidade de proteínas que ela pode oferecer. Isso leva, inclusive, a debates sobre meio ambiente e alternativas de menor impacto ambiental para inserção de proteínas na dieta humana: a criação de bovinos tem sido criticada por ambientalistas devido à alta emissão de gases-estufa.
“Vários estudos já comprovam a alta concentração de proteínas em alguns desses insetos, como, por exemplo, o Tenebrio molitor, que é a larva da farinha, um dos insetos que nós estudamos na nossa pesquisa”, diz a pesquisadora. “A nossa equipe teve como intuito avaliar, além dessa proteína, o que mais esse inseto poderia nos oferecer. Então, fizemos uma caracterização nutricional completa dessas farinhas, e trabalhamos, além do Tenébrio, com o Gryllus assimilis, o grilo Preto, e tentamos também produzir a farinha de barata d'água (Belostoma anurum), que embora se chame barata, não é a que a gente está acostumado a ver, que vem do esgoto, suja, é uma outra espécie”, explica.
Ceres conta que o estudo com a barata d’água não deu muito certo porque não foi possível produzir boa quantidade de farinha, a partir das baratas criadas em um laboratório parceiro. Já as farinhas do grilo preto e da larva da farinha foram compradas prontas, de uma empresa em São Paulo que as produz exclusivamente para fins de pesquisa.
Mas, afinal, como essa farinha é feita?
De acordo com a professora da UFV, a produção da farinha passa por vários processos, que começam com a criação dos insetos em cativeiro, alimentados com uma ração específica. Depois, esses animais são congelados. As baixas temperaturas reduzem o metabolismo deles até que morram e, então, eles são então secos em estufa e triturados até a produção de farinha.
Antes do processo de congelamento, porém, os insetos ficam 24 horas em jejum. “Eles são colocados em jejum para que haja realmente a limpeza do trato gastrointestinal e não haja resíduos de fezes no intestino desses animais”, explica, mostrando que todo o processo leva em conta a segurança para o possível consumo humano.
Quando a indústria usará essa farinha?
De acordo com Ceres, não é possível saber quando ou mesmo se a farinha de insetos será aproveitada pela indústria alimentícia. Atualmente, a pesquisa está em fase de teste com ratos. Durante os testes, eles são alimentados com a farinha, combinada com outros alimentos que fazem parte da dieta desses animais. A partir daí, os pesquisadores analisam se a proteína fornecida pela farinha é segura.
“A gente foi no Tenébrio e no grilo porque já havia estudo na literatura, principalmente com o Tenébrio, mostrando que ele era rico em proteína. Aí, a nossa pergunta era: tá bom, é rico em proteína, mas essa proteína é facilmente digerível pelo organismo? Ela contribui para o crescimento e desenvolvimento do organismo? E é isso que nós testamos em animais”, explica. “Não adianta ele ser somente nutritivo, ele tem que ser seguro também”, diz.
A especialista frisa que somente após comprovar que as proteínas são seguras para os animais é que começam os testes em humanos. E somente após todo esse processo o produto será oferecido ao mercado. Além disso, existe uma infinidade de insetos que ainda não foram estudados.
“Nós temos um mundo altamente vasto e rico em espécies em que, claro, vários ali poderiam ser utilizados para alimentação, mas para que a gente saiba quais deles poderiam ser utilizados para alimentação humana, nós precisaremos estudar”, sintetiza.
Fonte: O Tempo

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