Agronegócio cobra soluções para dívidas, seguro rural, infraestrutura e exportações do próximo presidente
há 5 horas
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O próximo presidente da República encontrará um agronegócio que enfrenta dificuldades financeiras, riscos climáticos, deficiências de infraestrutura e obstáculos para ampliar sua presença no mercado internacional. Apesar da importância do setor para a economia brasileira, especialistas avaliam que parte desses problemas exige políticas públicas contínuas e investimentos que ultrapassam o período de um mandato presidencial.
Entre os principais desafios estão o endividamento dos produtores, o custo elevado do crédito, a baixa cobertura do seguro rural, as perdas causadas por eventos climáticos extremos, a dependência de insumos importados e os entraves logísticos. Também preocupam as barreiras comerciais impostas por outros países e as dificuldades para fortalecer a imagem dos produtos brasileiros no exterior.
Diante desse cenário, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) defende cinco frentes de atuação governamental: financiamento e seguro rural; fortalecimento das cadeias industriais estratégicas; modernização da infraestrutura; comunicação e valorização da agroindústria; e inserção internacional para ampliar a competitividade brasileira. Especialistas ouvidos na reportagem ressaltam, porém, que as medidas dependem tanto do poder público quanto da iniciativa privada.
Endividamento e seguro rural estão entre as principais preocupações
O custo do financiamento é um dos maiores obstáculos enfrentados pelos produtores. Segundo Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, o endividamento do setor e o aumento dos pedidos de recuperação judicial contribuem para manter os juros elevados e tornam os bancos mais seletivos na concessão de crédito rural.
Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, explica que parte da inadimplência decorre de prejuízos acumulados em safras consecutivas. Problemas climáticos, juros altos e custos elevados de produção reduzem a capacidade de pagamento dos produtores e comprometem os investimentos necessários para as safras seguintes.
O pesquisador alerta que esse processo pode desencadear um efeito em cadeia, prejudicando os investimentos antes mesmo do início da produção. Por isso, avalia que o governo precisa atuar para impedir que as dificuldades financeiras comprometam ainda mais a atividade agropecuária.
Outro ponto crítico é a cobertura do seguro rural. Segundo Gilio, apenas 3% da produção agropecuária brasileira está protegida por esse instrumento, deixando grande parte do setor exposta a perdas provocadas por eventos climáticos e outros riscos.
Serigati afirma que a recuperação do financiamento também depende de ajustes entre credores e devedores. As instituições financeiras precisam de tempo para reorganizar suas carteiras de crédito, enquanto os produtores devem melhorar a organização de suas contas e demonstrar capacidade de pagamento.
O pesquisador acrescenta que algumas instituições evitam conceder crédito rural devido aos custos operacionais, à taxa Selic e à percepção de risco associada à instabilidade climática. Além disso, segundo Gilio, determinadas linhas de financiamento previstas nas políticas públicas nem sempre são facilmente acessadas, inclusive aquelas vinculadas ao Plano Safra.
A legislação também passou a integrar esse debate. Em 30 de setembro, foi publicada no Diário Oficial da União a Lei nº 15.526/2026, apresentada na reportagem como um novo marco regulatório para o seguro rural. Entre as medidas estão a regulamentação do Fundo de Catástrofes, destinado a prejuízos provocados por eventos climáticos, e a determinação de que as despesas com a subvenção ao prêmio do seguro rural tenham caráter obrigatório.
Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a mudança ajuda a evitar que os recursos destinados ao seguro sejam bloqueados ou reduzidos durante a execução do orçamento. Até então, essas despesas não eram obrigatórias e estavam sujeitas a cortes, conforme explica Serigati.
Dependência de fertilizantes e insumos importados preocupa o setor
A redução da dependência externa de insumos é outra demanda do agronegócio. Entre os pontos considerados mais relevantes pelos especialistas está a importação de fertilizantes: o Brasil compra do exterior cerca de 80% dos adubos químicos que consome.
Parte importante dos fornecedores está localizada em países envolvidos em conflitos ou depende de rotas comerciais afetadas por tensões internacionais, como o Estreito de Ormuz. Essa situação deixa o abastecimento brasileiro vulnerável a interrupções e dificuldades no comércio global.
O país já possui o Plano Nacional de Fertilizantes, que busca ampliar a produção nacional e diminuir a dependência das importações. Entretanto, os resultados dependem de investimentos de longo prazo e da disponibilidade de matérias-primas como potássio, fósforo e nitrogênio.
Carlos Eduardo de Freitas Vian, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), observa que o Brasil possui recursos para produzir alguns insumos, mas continuará dependendo de fornecedores estrangeiros em determinadas áreas.
Enquanto a produção nacional não consegue atender a uma parcela maior da demanda, Serigati defende a diversificação dos países fornecedores para reduzir a exposição a conflitos internacionais.
A Abag também propõe estimular a fabricação de máquinas e equipamentos no Brasil. Vian, porém, diferencia a produção dos equipamentos da fabricação de seus componentes: para ele, a dependência mais significativa envolve itens como chips, cuja produção nacional seria difícil de viabilizar diante da demanda disponível.
Outro obstáculo apontado pela entidade é o chamado passivo regulatório, relacionado à demora na aprovação de novas tecnologias. A discussão inclui os procedimentos de autorização de defensivos químicos, que precisam passar por avaliações de segurança ambiental e para a saúde humana.
Vian reconhece que esses processos podem atrasar a adoção de tecnologias, mas pondera que acelerar as aprovações exige cuidado para evitar que aspectos importantes da segurança deixem de ser avaliados.
Infraestrutura não acompanha o ritmo de crescimento da produção
A capacidade de escoar, armazenar e transportar a produção também aparece entre os principais desafios para o próximo governo. Segundo Serigati, o crescimento da agropecuária brasileira ocorre em um ritmo que a infraestrutura nacional encontra dificuldades para acompanhar.
O pesquisador destaca que, em um período de quatro anos, o setor pode registrar um aumento de quase 100 milhões de toneladas na produção, volume equivalente à safra argentina. A expansão exige investimentos em transporte, armazenamento e outros serviços necessários para movimentar os produtos agrícolas.
Entre os gargalos estão a capacidade insuficiente de armazenagem e as condições precárias de parte das rodovias. Gilio afirma que esses problemas elevam os custos logísticos e reduzem as margens dos produtores, tornando necessária a participação do poder público.
A falta de estruturas adequadas de armazenamento também contribui para perdas de produtos agrícolas. Outro entrave é a demora na concessão de licenças ambientais para obras de infraestrutura. De acordo com Gilio, há projetos que ficam parados mesmo quando já contam com financiamento e estudos ambientais concluídos.
Os especialistas também defendem maior integração entre diferentes meios de transporte, como ferrovias e hidrovias, para reduzir a dependência das estradas e ampliar a eficiência logística.
A conectividade nas áreas rurais representa mais uma dificuldade. Vian observa que a utilização de máquinas conectadas e tecnologias digitais depende da capacidade de transmitir dados. Sem uma conexão adequada, parte dos benefícios dessas ferramentas fica comprometida.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados na reportagem mostram que mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, o equivalente a 15% do total.
Gilio ressalta que a infraestrutura rural enfrenta problemas acumulados ao longo de décadas e não deve ser completamente transformada em apenas um mandato. Na avaliação dele, o próximo presidente poderia estabelecer uma política de Estado que ofereça segurança jurídica e estimule investimentos privados.
Serigati acrescenta que o poder público não dispõe de recursos suficientes para atender sozinho a todas as necessidades de infraestrutura. Por isso, mecanismos como concessões, privatizações e parcerias público-privadas podem ser utilizados para viabilizar novos empreendimentos.
Agro quer melhorar sua imagem no Brasil e no exterior
Além dos desafios financeiros e logísticos, a Abag defende medidas permanentes de comunicação, educação e valorização da agroindústria. O objetivo é ampliar o reconhecimento da contribuição do setor para a segurança alimentar, a sustentabilidade, a inovação e o desenvolvimento econômico.
Vian afirma que o agronegócio enfrenta dificuldades de imagem tanto no Brasil quanto no exterior. Para ele, é necessário apresentar os pontos fortes da atividade, mas também demonstrar disposição para enfrentar suas fragilidades.
O professor avalia que o governo federal já dispõe de instrumentos para promover essa comunicação, mas que eles podem ser aperfeiçoados. Também defende uma atuação coordenada entre representantes governamentais, associações e empresas para transmitir informações sobre o setor de maneira institucional.
Serigati considera que políticas públicas articuladas com iniciativas privadas podem contribuir para melhorar o posicionamento brasileiro nas negociações internacionais e facilitar a abertura de mercados.
Gilio cita como referência a capacidade de outros países de associar seus produtos agrícolas a uma origem reconhecida pelos consumidores. O café colombiano é um exemplo mencionado pelo pesquisador do Insper, que destaca como a identidade de um produto pode contribuir para aumentar seu reconhecimento no mercado internacional.
A melhoria da imagem, porém, também depende de ações concretas do próprio setor. Gilio ressalta a importância do cumprimento de políticas públicas, incluindo as relacionadas ao combate ao desmatamento. Segundo ele, os resultados desse trabalho exigem continuidade e não podem ser alcançados integralmente por um único governo.
Acordos comerciais e barreiras internacionais desafiam exportações
O quinto eixo de atuação defendido pela Abag envolve a inserção internacional e a proteção da competitividade dos produtos brasileiros. O comércio global passa por mudanças que exigem não apenas capacidade de produção, mas também diálogo diplomático e negociação com os países compradores.
Serigati afirma que o Brasil precisa fortalecer sua atuação nas relações comerciais internacionais. Gilio, por sua vez, avalia que o país ainda possui poucos acordos comerciais de longo prazo e cita a China, principal cliente do agronegócio brasileiro, como exemplo de mercado estratégico para o qual seria importante construir relações mais previsíveis.
Em um cenário de disputas comerciais, aumento de tarifas e restrições sanitárias, os acordos podem ajudar a reduzir incertezas e favorecer investimentos privados. Gilio também defende que o Brasil se antecipe às exigências que seus parceiros comerciais possam adotar, em vez de agir apenas depois que novas regras forem anunciadas.
A reportagem cita como exemplo a proibição de determinados antimicrobianos na produção animal estabelecida pela União Europeia. Segundo Gilio, o Brasil reagiu após a divulgação oficial da medida, embora a mudança já fosse amplamente esperada.
Outro risco está na concentração das exportações em poucos mercados. Mesmo comercializando grandes volumes no exterior, o Brasil pode ficar mais vulnerável quando depende de um número limitado de países compradores.
Para Serigati, a presença nas mesas de negociação deve envolver tanto o governo quanto a iniciativa privada e as associações do setor. Vian concorda com a necessidade dessa parceria e afirma que o país deve defender sua legislação sanitária e ambiental nas negociações internacionais.
O professor também ressalta que cada segmento do agronegócio precisa estar preparado para atender às exigências específicas dos mercados que pretende alcançar. Negociações direcionadas a determinados produtos podem facilitar a definição das condições de comercialização.
As cinco frentes defendidas pela Abag, portanto, abrangem desde o acesso ao crédito e a proteção contra perdas climáticas até a infraestrutura, a produção de insumos e a ampliação dos mercados internacionais. Segundo os especialistas, enfrentar esses desafios exigirá planejamento, investimentos e continuidade das políticas públicas para além de um único mandato presidencial.
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