top of page
1e9c13_a8a182fe303c43e98ca5270110ea0ff0_mv2.gif

Após El Niño devastar 90% da safra, chuva é a esperança para o Norte de MG


Após uma forte seca no segundo semestre de 2023, que levou 170 municípios mineiros a decretar situação de emergência, voltou a chover com mais frequência no Norte e no Noroeste de Minas e nos Vales do Jequitinhonha, do Mucuri e do Rio Doce nos primeiros dias de 2024. E a situação gera alívio para os produtores rurais, que passaram por momentos de muita apreensão nos últimos meses, com perdas de plantações e morte de gado.
Segundo um levantamento da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), feito em 241 municípios dessas regiões mais afetadas, a estiagem causou perdas para 326 mil agricultores entre julho e dezembro, período do plantio da safra de grãos. A seca foi causada pelo fenômeno climático El Niño, que também provocou fortes ondas de calor e levou o ano de 2023 a ser o mais quente da história.
“Nós tivemos perdas, aqui na lavoura, de 90%, especialmente de milho e feijão, e de 70% do plantio de pastagem no Norte de Minas. Foi um negócio arrasador”, afirma Astério Itabaiana Neto, presidente do Sindicato Rural da cidade de Januária (MG) e da Associação dos Sindicatos Rurais do Norte de Minas.
Segundo a Emater-MG, 91,3% das plantações deixaram de ser irrigadas nos últimos meses, e 71% do que já foi semeado deverá ser replantado, caso haja chuva suficiente nas próximas semanas. Nos últimos seis meses, choveu apenas 184 milímetros no Norte de Minas, quase quatro vezes menos do que a média histórica.
“Tivemos uma queda muito acentuada do volume de chuva. De 165 dias de medição, foram 150 sem nenhuma precipitação. E esses 184 milímetros ficaram concentrados em apenas 15 dias. Só que fica um veranico muito grande, que é o tempo de estiagem entre as chuvas. Esse intervalo muito grande prejudica o sucesso do plantio. As sementes não precisam de água em um dia apenas, precisam durante certo tempo para poder brotar a raiz”, explica Neto.
A falta de chuva comprometeu o abastecimento de água em 78,4% das propriedades rurais nos municípios pesquisados pela Emater, prejudicando o consumo de pessoas e dos rebanhos.
Na pecuária, a situação foi tão crítica quanto a da agricultura. O estoque de alimentos para o gado (cana, silagem e capineira) se esgotou em 56,4% das propriedades rurais no mês passado. Apenas 15,8% dos pecuaristas entrevistados tinham alimentação suficiente para o rebanho em dezembro.
“Isso quer dizer que os produtores tiveram que arrumar uma solução para alimentar o seu gado, senão ele ia começar a perder peso e poderia morrer”, disse o presidente da Emater-MG, Otávio Maia. Uma saída foi transportar o rebanho até outros Estados em busca de pasto, como Bahia e Espírito Santo. Mas muito pecuarista foi obrigado a vender o gado a um baixo custo para não vê-lo morrer.
“O gado está emagrecendo, perdendo peso e carcaça. O produtor daqui prefere vendê-lo abaixo do preço porque o prejuízo é menor do que com o gado morto. Só que até para vender nessa situação ele não encontra mercado consumidor. Ninguém quer comprar o gado com acabamento de carcaça ruim”, afirma o presidente do Sindicato Rural da cidade de Januária (MG).
Para baratear esse transporte do gado para outras regiões que sofrem menos impactos da estiagem, o governo de Minas publicou, em 28 de dezembro, uma medida para suspender, por 90 dias, a cobrança de ICMS para movimentação de gado bovino desses municípios mineiros afetados pela seca.
E qual a previsão do tempo para os próximos meses?
De acordo com o meteorologista Ruibran dos Reis, o pior momento da seca já passou, e o ano de 2024 deve ser marcado por mais chuvas nas regiões de estiagem mais crítica em Minas Gerais.
“Os modelos meteorológicos estão mostrando que, neste mês de janeiro e em fevereiro, as chuvas deverão ficar acima da média. É claro que não vai resolver, mas o pasto já vai melhorar até o fim de janeiro. Com essa chuva que já está ocorrendo, o capim começou a nascer e está crescendo, de acordo com informações dos produtores. Então é questão de mais uns dias”, justifica.
Outra boa notícia é que o fenômeno El Niño está perdendo força. “O El Niño, que provocou essa seca toda lá no Norte de Minas no ano passado, está enfraquecendo e não vai existir mais a partir de abril, então nós vamos entrar numa situação normal”, diz Ruibran.
Apesar de o período chuvoso normalmente terminar em março, o meteorologista afirma que estão previstas várias frentes frias para o restante do ano, o que deve provocar chuvas nas regiões que sofreram com a estiagem.
“Vamos ter frentes frias durante o outono e o inverno, passando pelo litoral e trazendo chuvas para Minas. E a estação de chuva vai começar mais cedo neste ano”, garante o meteorologista.
Produtores querem renegociação do crédito rural
Com a perda de grande parte da safra de grãos em 2023, os produtores rurais das regiões mais afetadas pela seca em Minas Gerais querem a renegociação dos financiamentos contratados com o Banco do Nordeste e com o Banco do Brasil para custear o plantio. A Emater-MG e a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) auxiliam os agricultores a apresentar os documentos necessários para a renegociação dessas dívidas.
No caso dos agricultores familiares, com financiamentos de até R$ 200 mil, esse processo já está mais simples. A Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG) conseguiu que o pagamento das dívidas desses produtores com o Banco do Brasil seja automaticamente prorrogado por mais um ano nos municípios com decreto de situação de emergência pela seca. A medida já está em vigor e dispensa a apresentação de laudos comprobatórios.
A Seapa tenta ainda convencer o BB a criar uma linha de crédito específica para atender aos produtores mineiros impactados pela seca, com prioridade para a agricultura familiar e para a aquisição de ração, alimentos e a recuperação das áreas de plantio e pastagens. Mas, no caso de médios e grandes produtores, nada garante que o banco vai aceitar essa extensão do pagamento.
“Isso é de suma importância para o Estado porque estamos falando de segurança alimentar. Se o produtor deixa de produzir, falta comida na prateleira dos supermercados”, alertou Astério Itabaiana Neto, do sindicato dos produtores.
Procurado pela reportagem, o Banco do Brasil alegou que já adota permanentemente práticas de renegociação com seus clientes, que poderão procurar suas agências de relacionamento para análise caso a caso. O Banco do Nordeste também tem avaliado cada situação individualmente e, como órgão federal, aguarda uma resolução padronizando as condições para todos que procurarem a instituição.
Fonte: O Tempo

Comentários


bottom of page