China monitora posições de Flávio Bolsonaro e avalia possíveis impactos nas relações com o Brasil
há 6 horas
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O governo da China acompanha as declarações e posições de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, para avaliar como poderiam ficar as relações entre Brasil e China em um eventual governo do senador. Segundo relatos de fontes em Pequim ouvidas pela CNN, autoridades chinesas observam especialmente as posições do candidato sobre Estados Unidos, Brics, minerais críticos e inteligência artificial.
De acordo com essas fontes, existe preocupação em Pequim com a possibilidade de um governo brasileiro adotar uma postura abertamente favorável aos Estados Unidos e mais hostil à China. Ao mesmo tempo, integrantes do governo chinês avaliam Flávio como mais pragmático e moderado do que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A relação entre Brasil e China passou por momentos de tensão durante os primeiros anos do governo Jair Bolsonaro. Na época, o então deputado Eduardo Bolsonaro responsabilizou a China pela pandemia de Covid-19, enquanto o ex-chanceler Ernesto Araújo utilizou o termo “comunavírus” para se referir ao coronavírus.
O então embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, também reagiu publicamente a declarações de autoridades brasileiras, aumentando os atritos diplomáticos entre os dois países. A relação começou a apresentar menos confrontos na segunda metade do governo Bolsonaro, depois da saída de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores e de sua substituição por Carlos França.
Diante do cenário eleitoral brasileiro, Pequim teria adotado uma postura de cautela. O atual embaixador chinês no Brasil, Zhu Qingqiao, deverá manter uma atuação discreta nas redes sociais e evitar envolvimento com as principais campanhas à Presidência para não transmitir a impressão de apoio a qualquer candidato.
Segundo interlocutores do governo chinês, a relação com o Brasil é considerada estratégica e baseada em interesses econômicos de longo prazo. Por isso, Pequim não avalia que eventuais divergências políticas produziriam necessariamente um impacto imediato no comércio entre os dois países.
Ainda assim, as “falas e práticas” de Flávio, expressão atribuída pela CNN a uma fonte em Pequim, seriam acompanhadas com atenção caso ele vença a eleição. Entre os temas considerados especialmente sensíveis estão os minerais críticos e a inteligência artificial.
Na área de minerais, a China acompanha as discussões envolvendo a venda das minas de níquel da Anglo American em Goiás, Mato Grosso e Pará para a chinesa MMG. O negócio foi fechado em 2025 por US$ 500 milhões.
Em janeiro de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) havia solicitado ao governo brasileiro, durante negociações relacionadas ao tarifaço de Donald Trump, que o país revisasse a venda das minas e evitasse transferências de controle de jazidas para economias consideradas “não de mercado” sem conhecimento prévio de Washington. Segundo a reportagem, não houve negociação efetiva sobre esses dois pontos.
Outro tema acompanhado por Pequim é a inteligência artificial. Durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Brasil aderiu à Waico, Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial, iniciativa lançada pelo presidente chinês Xi Jinping em julho.
A China defende o compartilhamento de modelos abertos de inteligência artificial. A Waico é apresentada como uma iniciativa que se contrapõe ao modelo da Pax Silica, consórcio liderado pelos Estados Unidos e voltado à construção de uma cadeia de suprimentos considerada confiável para o setor.
O Brics também é considerado um tema importante para os interesses chineses. Xi Jinping deverá presidir o grupo em 2027, depois da expansão do bloco nos últimos anos.
O programa de governo de Flávio Bolsonaro prevê a retomada do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas não faz menção ao Brics. Em entrevista anterior, porém, o candidato afirmou que avaliaria a permanência do Brasil no bloco e classificou a organização como excessivamente ideológica.
Apesar das preocupações políticas, fontes chinesas ouvidas pela CNN avaliam que uma eventual aproximação de Brasília com Washington não necessariamente provocaria uma ruptura comercial com Pequim. A China continua sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil.
Em 2025, segundo a reportagem, os chineses compraram 87 milhões de toneladas de soja brasileira. O Brasil passou a ocupar o posto de maior fornecedor do produto para o mercado chinês, em um cenário influenciado pela guerra comercial entre China e Estados Unidos. Petróleo, minério de ferro e carnes também estão entre os principais produtos brasileiros destinados ao mercado chinês.
O futuro dos investimentos chineses no Brasil, por outro lado, é considerado menos previsível. Segundo os interlocutores citados pela CNN, projetos recentes dependem de estabilidade política e de uma relação diplomática considerada favorável entre os dois países. Eventuais conflitos poderiam aumentar a percepção de risco entre empresários chineses.
Entre os investimentos acompanhados por Pequim está a fábrica da montadora chinesa BYD em Camaçari, na Bahia, além dos planos da GWM para instalar uma unidade em Aracruz, no Espírito Santo. O Brasil se tornou o maior comprador mundial de veículos chineses.
Também estão no radar chinês a fábrica da CRRC em Araraquara, no interior de São Paulo, que deverá fornecer equipamentos ferroviários para o Metrô de São Paulo e para a TIC Trens, e o megadata center da ByteDance, dona do TikTok, no complexo do Pecém, no Ceará. O centro de dados poderá alcançar capacidade de 900 megawatts quando estiver concluído.
Outro projeto citado é a constelação de pequenos satélites da SpaceSail, que deverá começar a oferecer serviços de internet a partir de 2027 e concorrer com a Starlink, empresa ligada ao bilionário Elon Musk.
Empresas chinesas de tecnologia como DiDi e Meituan também estão ampliando suas operações no Brasil. A DiDi controla a plataforma de entregas 99, enquanto a Meituan atua no país por meio da Keeta, ambas buscando espaço no mercado dominado pelo iFood.
Nesse cenário, Pequim mantém atenção sobre as posições de Flávio Bolsonaro, especialmente em temas que envolvem a relação do Brasil com China, Estados Unidos e Brics, enquanto avalia os possíveis efeitos de uma eventual mudança na política externa brasileira sobre comércio e investimentos.
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