Conselheiro renuncia à Vale e cita “eventos secretos” e fóruns paralelos de decisão
27 de jul.
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O advogado Marcelo Gasparino anunciou a renúncia aos cargos de vice-presidente e membro do Conselho de Administração da Vale, em uma carta na qual afirma que a companhia vem se afastando de princípios de governança, transparência e independência. O documento, dirigido aos acionistas, investidores, colaboradores e ao mercado, informa que a saída terá efeito a partir de 1º de agosto de 2026.
Na carta, Gasparino afirma que sua decisão foi amadurecida ao longo dos últimos meses e não decorre apenas dos acontecimentos registrados na reunião extraordinária do Conselho de Administração de 22 de julho. Segundo ele, os episódios recentes apenas tornaram mais evidente uma situação que, em sua avaliação, já vinha se consolidando dentro da companhia.
Entre as críticas apresentadas pelo conselheiro estão a condução de discussões relevantes fora dos fóruns formais de deliberação, a realização de articulações e eventos que classificou como “secretos” e a existência de uma suposta assimetria na forma como determinadas condutas passaram a ser avaliadas. Gasparino também afirmou ter acompanhado a abertura de investigações internas sobre fatos atribuídos a administradores e defendeu que todas as apurações sejam conduzidas com independência, transparência, profundidade e os mesmos critérios.
A renúncia ocorreu dias depois de a Vale abrir uma investigação para apurar um suposto vazamento de informações. Em sua carta, Gasparino contestou a acusação e afirmou que encaminhou de maneira reservada a um analista de mercado parte de um documento de sua própria autoria, contendo opiniões e avaliações pessoais. Segundo ele, o material tratava de temas que já tinham aspectos centrais divulgados publicamente e eram debatidos no mercado.
O conselheiro negou ter divulgado informação relevante não pública e afirmou que não teve intenção de obter vantagem, interferir na negociação de valores mobiliários ou expor manifestações confidenciais de outros administradores. Gasparino também declarou que não foi demonstrado qualquer prejuízo à Vale ou aos acionistas decorrente do envio do documento.
Segundo o advogado, se o material posteriormente circulou para outras pessoas além do destinatário original, isso ocorreu sem sua autorização. Ele afirmou ainda que apresentará sua defesa jurídica nas instâncias competentes. Na avaliação de Gasparino, o episódio do suposto vazamento ganhou uma dimensão desproporcional porque ocorreu em um ambiente no qual, segundo ele, a transparência passou a ser tratada como uma ameaça.
Gasparino também relatou que a reunião extraordinária de 22 de julho, convocada com pouco mais de 24 horas de antecedência, deliberou sobre a aplicação de uma sanção de destituição de seu cargo de conselheiro, que seria submetida à Assembleia Geral. A medida foi baseada na alegação de que ele teria promovido o vazamento de informações confidenciais relacionadas a uma reunião do Conselho realizada em 19 de junho.
O advogado afirmou que sua permanência no Conselho, nas circunstâncias atuais, não permitiria que continuasse exercendo o mandato com a independência, coerência e responsabilidade que considera necessárias. Ele também declarou que sua renúncia não decorre de acordo com acionistas, não envolve vantagem financeira e não resulta de compromisso assumido com terceiros.
Em sua manifestação, Gasparino defendeu que a confidencialidade é necessária para o funcionamento de um Conselho de Administração, mas afirmou que esse princípio não deve ser usado para restringir o contraditório, o debate interno ou a prestação de contas aos acionistas. Para ele, a boa governança exige equilíbrio entre a proteção de informações que precisam permanecer reservadas e o acesso dos acionistas aos dados necessários para avaliar as decisões dos administradores.
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