O misterioso poço da Serra do Cachimbo e a história por trás da pá de cal de Collor
16 de set.
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FotoRedesSocias/Divulgação-Em 18 de setembro de 1990, Fernando Collor esteve na Serra do Cachimbo, no sul do Pará, e lançou pás de cal sobre uma enorme perfuração de cerca de 320 metros de profundidade.
Na manhã de 18 de setembro de 1990, o então presidente Fernando Collor de Mello chegou à Serra do Cachimbo, no sul do Pará, para protagonizar uma cena que se tornaria uma das imagens mais simbólicas da história nuclear brasileira. Diante das câmeras, Collor se aproximou de uma enorme perfuração aberta em uma área militar e lançou pás de cal sobre o buraco.
A estrutura não era uma escavação comum. O poço tinha cerca de 320 metros de profundidade, aproximadamente um metro de diâmetro, revestimento de aço e concreto e havia custado mais de US$ 5 milhões aos cofres públicos, segundo registros do Memorial da Democracia.
Quatro anos antes, a existência daquela estrutura havia provocado uma crise política. Suas dimensões eram consideradas compatíveis com instalações utilizadas em testes nucleares subterrâneos, embora autoridades brasileiras tenham apresentado diferentes explicações sobre a finalidade da obra ao longo dos anos.
O gesto de Collor marcou publicamente o encerramento daquela possibilidade. No entanto, a história do chamado poço da Serra do Cachimbo é mais complexa do que a imagem do presidente jogando cal sobre a perfuração.
A descoberta do poço
A existência da estrutura chegou ao conhecimento público em 8 de agosto de 1986, quando a Folha de S.Paulo revelou que o governo brasileiro havia construído instalações subterrâneas na Serra do Cachimbo.
Segundo a reportagem da época, levantamentos geológicos e hidrológicos eram realizados na região desde 1981. Um mês antes da publicação, havia sido concluída uma perfuração com 320 metros de profundidade e cerca de um metro de diâmetro.
A revelação ocorreu nos primeiros anos após o fim do regime militar e levantou questionamentos sobre os objetivos da obra. O Memorial da Democracia registra que o poço era revestido de cimento e aço e que havia suspeitas de que pudesse ser utilizado em testes nucleares.
Naquele momento, o então presidente José Sarney negou que o projeto tivesse passado pelo governo. Nos anos seguintes, porém, a existência do campo de testes seria reconhecida pelo Ministério da Aeronáutica.
A controvérsia estava relacionada não apenas às dimensões da estrutura, mas também à razão para a construção de uma perfuração tão profunda em uma área militar isolada da Amazônia.
Características compatíveis com testes nucleares
As características técnicas do poço chamaram a atenção de pesquisadores. Um relato histórico da Coppe/UFRJ informa que a perfuração tinha aproximadamente 320 metros de profundidade e 1,5 metro de diâmetro e apresentava semelhanças com poços utilizados em explosões nucleares subterrâneas de baixa potência realizadas nos Estados Unidos durante o Programa Plowshare.
A Sociedade Brasileira de Física também analisou a estrutura e concluiu que suas dimensões eram compatíveis com um possível ensaio nuclear.
Documentos reproduzidos nos registros da Câmara dos Deputados mencionam ainda uma avaliação segundo a qual o poço apresentava características adequadas para um teste de uma bomba na faixa de 10 a 20 quilotons.
Isso, porém, não significa que houvesse uma bomba pronta dentro da Base de Cachimbo. Uma estrutura capaz de receber um ensaio nuclear e a existência de um artefato preparado para ser detonado são situações diferentes.
Não há registro de que uma explosão nuclear tenha sido realizada no local.
A possibilidade de uma explosão nuclear “pacífica”
A discussão ganhou novos elementos após a redemocratização. Em depoimento à investigação parlamentar realizada em 1990, o ex-presidente João Figueiredo reconheceu que as escavações haviam sido concebidas para experiências com explosivos, incluindo a possibilidade de artefatos atômicos.
Registros acadêmicos que reproduzem o depoimento indicam que a proposta envolvia o conceito então descrito como uma explosão nuclear de finalidade pacífica, expressão utilizada internacionalmente durante parte da Guerra Fria para experiências de engenharia e escavação com dispositivos nucleares.
O conceito ajuda a explicar por que documentos e depoimentos relacionados a Cachimbo nem sempre utilizavam diretamente a expressão “bomba nuclear brasileira”.
Naquele período, autoridades podiam fazer uma distinção entre uma arma destinada ao combate e um chamado explosivo nuclear para fins pacíficos. Tecnicamente, porém, os dois conceitos envolveriam a capacidade de produzir e detonar um artefato nuclear.
Mais de US$ 5 milhões investidos
O tamanho da obra não foi o único aspecto que chamou atenção. Segundo o Memorial da Democracia, a perfuração custou mais de US$ 5 milhões.
Relatos posteriores apresentam valor semelhante e situam a conclusão do poço em 1986.
O investimento fazia parte de um esforço nuclear desenvolvido durante os últimos anos do regime militar e cercado de forte sigilo. O Brasil mantinha, naquele período, programas destinados ao domínio de tecnologias fundamentais do ciclo nuclear.
O poço de Cachimbo estava inserido nesse contexto mais amplo, que envolvia iniciativas das três Forças e projetos desenvolvidos longe do escrutínio público.
Collor transforma o fechamento em ato público
Quando Fernando Collor assumiu a Presidência, em março de 1990, o poço já era conhecido havia quatro anos. Em 18 de setembro daquele ano, o presidente decidiu transformar o fechamento em uma demonstração pública.
No dia seguinte, O Globo registrou o episódio na reportagem “Collor fecha buraco para testes”, posteriormente preservada no acervo do Instituto Socioambiental.
A cena foi transmitida pela televisão. O geofísico George Sand França, da Universidade de Brasília, recordaria posteriormente que Collor esteve no local e jogou uma pá de cal na perfuração, fechando-a simbolicamente.
Estudos sobre a relação entre Brasil e Argentina também registram a data de 18 de setembro de 1990.
O gesto carregava um significado político. O presidente não estava apenas diante de uma obra de engenharia, mas apresentando ao público e ao exterior uma mudança na postura brasileira em relação às explosões nucleares.
Naquele mesmo período, Brasil e Argentina aprofundavam sua aproximação na área nuclear, movimento que posteriormente contribuiria para a criação de um sistema bilateral de inspeção e controle.
O fechamento físico veio depois
Apesar da força da imagem registrada pelas câmeras, a pá de cal lançada por Collor não representou, inicialmente, o fechamento físico definitivo do poço.
Pesquisas baseadas em documentos posteriormente liberados pela Aeronáutica indicam que a inutilização efetiva da estrutura ocorreu depois. Registros obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mencionam um documento relacionado à implosão do poço em novembro de 1990, após a determinação presidencial de encerramento das pesquisas naquele local.
Outra pesquisa acadêmica registra que Collor posteriormente determinou que a perfuração fosse selada com concreto.
Assim, a imagem das pás de cal marcou a decisão política, enquanto o fechamento físico da estrutura ocorreu posteriormente.
Uma tentativa de transformar o poço em estação científica
O destino da perfuração poderia ter sido diferente. Depois de assistir pela televisão à cerimônia de Collor, um pesquisador da Universidade de Brasília elaborou uma proposta para aproveitar a estrutura.
A ideia era instalar no local parte de uma estação sismográfica moderna e de alta sensibilidade. Os centenas de metros de profundidade poderiam ser utilizados para obter medições com menor interferência da superfície.
O projeto chegou ao Palácio do Planalto, mas acabou recusado. Segundo relato publicado pela própria Universidade de Brasília, a justificativa estava relacionada ao receio de que a manutenção da perfuração alimentasse novamente suspeitas de que a estrutura pudesse ser utilizada para fins militares.
Com isso, o investimento realizado anos antes não chegou a ser convertido em uma infraestrutura científica.
Cachimbo não encerrou o programa nuclear brasileiro
A imagem de Collor lançando cal sobre o poço pode dar a impressão de que aquele episódio representou o fim do programa nuclear brasileiro. Não foi isso que ocorreu.
O Brasil continuou investindo no domínio do ciclo do combustível nuclear e preservou tecnologias de importância estratégica. Décadas depois, parte desse conhecimento sustenta projetos civis e militares, entre eles o programa de propulsão nuclear da Marinha.
O que Cachimbo simbolizou foi a retirada pública da possibilidade de realizar uma explosão nuclear brasileira naquele tipo de instalação.
Em 1994, o Brasil formalizou sua adesão plena ao Tratado de Tlatelolco. Em 1998, aderiu ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.
A Constituição de 1988 já havia estabelecido que toda atividade nuclear em território nacional somente poderia ser admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional.
Por isso, a manhã de 18 de setembro de 1990 permanece como uma das imagens mais marcantes da história nuclear brasileira: um presidente diante da imprensa, lançando cal sobre uma perfuração de centenas de metros que havia consumido milhões de dólares e se tornado o símbolo físico da possibilidade de o Brasil realizar um teste nuclear subterrâneo.
A cal desapareceu rapidamente dentro do poço. O debate revelado por aquela estrutura, porém, permaneceu.
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