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Passo a Passo da operação com churrasco, uso de drogas e 500 Tiros e resultado de 26 Mortos em MG, Segundo a PF

Trinta e nove policiais rodoviários federais e militares foram indiciados em ação que terminou em mortes de grupo suspeito de assalto a bancos em outubro de 2021 em Varginha.


Foto: Reprodução/EPTV
O inquérito da Polícia Federal que indiciou 39 policiais por crimes que teriam sido cometidos na operação que deixou 26 mortos em outubro de 2021 em Varginha (MG) revela que a quadrilha que planejava assaltar um banco na cidade havia feito um churrasco na noite anterior, regado a drogas e álcool. Vários integrantes dormiram sob efeitos de narcóticos.

O g1 e a EPTV Sul de Minas, Afiliada Rede Globo, tiveram acesso ao inquérito policial, concluído pela delegacia da Polícia Federal de Varginha no dia 22 de fevereiro. O relatório aponta que os criminosos foram surpreendidos pela polícia por volta de 5h e mortos a sangue frio, sem apresentar a resistência alegada na época pelas forças de segurança.

A PF concluiu ainda que a localização de um dos sítios onde estava a quadrilha só foi obtida após tortura de um dos integrantes, apontado com um dos mentores do assalto a banco que ocorreria no dia 1º de novembro.

Segundo a conclusão da PF, aproximadamente 500 disparos foram feitos pelos agentes do Estado. Ao todo, 300 cartuchos deflagrados foram encontrados pela perícia e somente 20 disparos foram atribuídos aos criminosos. O inquérito afirma que há evidências que apontam para tiros simulados perpetrados pelos próprios policiais.

O início da operação

Por volta de 5h, ao amanhecer, uma caminhonete da PRF derrubou o portão principal do chamado "Sítio 1", que fica no bairro Recanto Dourado. Logo após, a equipe tática iniciou a entrada no perímetro alvejando as janelas frontais casa.

Ainda conforme o inquérito, parte da tropa caminhou até a entrada principal e arrombou a porta da sala. Um grupo então entrou no imóvel e iniciou a visualização dos que ali estavam e que, a essa altura, corriam recém-despertos, desorientados e sem entender o que ocorria.

Conforme a PF, todos eram alvejados. A equipe policial progrediu rumo aos quartos do térreo e ali eliminou quem lá estava. Os suspeitos que ganharam a cozinha e já rumavam para a porta de acesso à piscina foram baleados.

Em seguida, parte do grupo de policiais iniciou subida aos andares superiores. Quem passava pela mira dos policiais era alvejado. Alguns se mantiveram nos quartos, outros no banheiro e varanda. Todos foram atingidos.

Ainda segundo o relatório, uns poucos conseguiram ganhar o telhado buscando os fundos do sítio. Quem chegou ao sítio vizinho ou aos fundos da propriedade também foram mortos.

Suspeito torturado é colocado na cena do crime

Após o "morticínio", relata a PF, Gleisson Fernando da Silva Morais, apontado como um dos mentores do roubo a banco e que havia sido interceptado horas antes em um posto de combustíveis em Muzambinho (MG), foi colocado na sala do pavimento térreo e sofreu disparos de fuzil que o mataram.

Foto: Reprodução/EPTV
Gleisson, conforme a PF, foi torturado para indicar aos policiais a localização do sítio 1, no bairro Recanto Dourado. A investigação também apontou que a polícia já monitorava o sítio 2, no bairro Lagoinha, desde o dia 16 de outubro.

Busca pelas armas

Após a execução de Gleisson, relata a PF no inquérito, os policiais iniciaram a busca pelas armas, as quais, por tudo apurado, não estavam com os suspeitos e não foram usadas em combate.
Segundo a PF, as armas estavam acondicionadas em sacos plásticos e concentradas dentro de um dos veículos que seriam usados pelo bando no assalto a banco.

As armas foram retiradas da caminhonete, desembaladas e posteriormente apresentadas à imprensa como instrumento de resistência à ação policial empregadas pelos que morreram em confronto que, sabe-se agora, diz a PF, nunca existiu.

Conforme a PF, Com vistas a macular o local do crime e favorecer uma narrativa de legitimidade da ação, policiais iniciam o pretenso socorro às vítimas. Na verdade, entretanto, apontou a investigação, o intento era retirar os mortos dos locais onde tombaram e dificultar a reconstituição do ocorrido.

Mais mortes no sítio 2

Considerando que já era do conhecimento da inteligência policial a existência do sitio 2, uma nova equipe de policiais foi formada para se dirigir até o local, no bairro Lagoinha.

Conforme a PF, no sitio 2, todo modo de agir se repete. Os criminosos são surpreendidos com a chegada da polícia e são alvejados. Quem tenta se esconder é baleado. Quem tenta fugir também é. Quem nada ter a ver com a situação, o caseiro Adriano Garcia, também morre.

A PF afirma que não houve a alegada forte resistência com armas longas e inexistem indícios de um legítimo combate. Ao final, os corpos são retirados para receber irreal socorro e o local alterado.

Suspeitos foram interceptados antes do ataque

O inquérito da Polícia Federal concluiu que dois dos suspeitos foram interceptados em um posto de combustíveis em Muzambinho (MG) duas horas antes do ataque, por volta de 2h53 do dia 31 de outubro e levados para Varginha.

Francinaldo Araújo da Silva, motorista do caminhão que daria fuga aos criminosos após o assalto e Gleisson Fernando da Silva Morais, apontado como um dos mentores do roubo a banco, sofreram torturas físicas e psicológicas neste itinerário e tiveram seus corpos colocados entre aqueles que foram mortos no sítio.

A PF afirma que Francinaldo foi morto em local incerto entre Muzambinho e o Sítio 1 em Varginha. Já as lesões observadas no corpo de Gleisson eram compatíveis com ferimentos provocados com ele ainda vivo.

Conforme o inquérito, agonizando, Gleisson teve o corpo colocado na sala térreo do sítio 1 e ali recebeu os derradeiros ferimentos a tiros que o levaram a óbito.

Conforme a PF, é sabido que Francinaldo foi morto antes de ocorrer a entrada dos policiais no sítio 1. O certo é que o armamento utilizado por um cabo da PM disparou contra ele. Gleisson chegou com vida a Varginha, foi colocado na sala do sítio e ali recebeu disparos de fuzil.

Os cadáveres de ambos foram entregues na UPA de Varginha nas mesmas condições em que os demais mortos no sítio 1.

Localização dos sítios

A investigação também apontou que os policiais já sabiam a localização do sítio 2 desde o dia 16 de outubro, duas semanas antes da ação em Varginha.

Segundo a PF, os policiais não tinham certeza da utilização do sítio 1 pelos suspeitos até que Gleisson ou Francinaldo mediante tortura, tenha lhes indicado o local e a condição dos que lá estavam.
O inquérito aponta que os criminosos não mantinham armas longas consigo para pronto emprego, tampouco aparentavam manter guarda ou forte vigilância nos dois sítios tal como alguém que teme por ataque.

Indiciamento de policiais

Ao todo, 39 policiais foram indiciados pela Polícia Federal por crimes que teriam sido cometidos durante a operação. Ao todo, 20 policiais (16 da PRF e quatro da PM) foram indiciados por homicídio (autoria e coautoria); dois da PRF foram indiciados por tortura e 38 (22 da PRF e 16 da PM) por fraude processual.

O relatório final da Polícia Federal apontou que os criminosos foram surpreendidos com a chegada da polícia e foram alvejados. Ainda conforme a PF, não houve a forte resistência com armas longas por parte dos suspeitos, conforme alegado pelas forças de segurança na época e não existem indícios de que um combate aconteceu.

Conforme o inquérito da PF, "quem tenta se esconder é baleado, quem tenta fugir também é. Ao final, os corpos são retirados para receber irreal socorro e o local conspurcado".

O relatório da PF também aponta que o caseiro Adriano Garcia, que não tinha nada a ver com a situação, também foi morto.

No relatório, a PF afirma que os fatos investigados, na forma como ocorreram e considerando o envolvimento das personagens que deles participaram, não possuem precedentes na história nacional.

Investigação da PF


O relatório da PF afirma que no dia 31 de outubro de 2021, por volta de 5h, aproximadamente 40 policiais entraram em um sítio no bairro Recanto Dourado, o sítio 1, em Varginha (MG) e lá mataram 16 indivíduos que se preparavam para executar um grande roubo na cidade. Outros dois corpos foram contabilizados como mortes na cena do crime.

Na sequência, um grupo formado por 12 destes policiais rumou para um segundo sítio no bairro Lagoinha, o sítio 2 e lá foram mortos mais oito suspeitos.
No relatório, a PF narra as dificuldades encontradas pelos investigadores, já que nenhum membro do bando remanesceu no local com vida e inexistiam testemunhas oculares, salvo os policiais investigados.

A investigação da PF apontou que a investigação começou no mês de agosto de 2021 em Uberaba (MG) e terminou com a operação de 31 de outubro em Varginha. Naquele mês, um policial rodoviário federal recebeu mensagens indicando a possibilidade de um grande roubo que seria executado por um bando criminoso fortemente armado. A inteligência da PRF apurou que o possível roubo seria executado no dia 1º de novembro em Varginha.

Inconsistência em depoimentos de policiais


A investigação da Polícia Federal também apontou inconsistência nos depoimentos dos policiais que participaram da ação em Varginha.

"Ficou patente que o relato dos policiais rodoviários e dos policiais militares foi uma criação fictícia, previamente acertada entre eles, com vistas a elidir a responsabilidade pelos excessos cometidos".

Conforme a PF, na fantasiosa versão para o ocorrido, consta que os policiais tensionavam uma ação escorreita de promover a prisão de suspeitos quando foram surpreendidos por injusto ataque de arma de fogo. Não restando opção, os policiais revidaram e se sucedeu vigoroso e intenso combate. Ao final, todos os "meliantes" foram abatidos e nenhum policial foi alvejado, vez que a técnica prevaleceu sobre a força. O mesmo relato "inautêntico" foi empregado para descrever nos sítios 1 e 2, aponta a PF.

A perícia da Polícia Federal conseguiu identificar nos locais elementos biológicos de 19 dos 26 mortos em diversos ambientes dos dois locais de crime. A PF afirma que, somados a outros elementos, tem-se um forte indicativo de onde quase todos os mortos foram alvejados por armas de fogo. Os laudos ainda trouxeram considerações que desconstruíram a versão apresentada pelos policiais.

"O que houve no dia 31 de outubro de 2021 nos sítios 1 e 2 foi uma ação desacertada da polícia que, surpreendendo suspeitos que preparavam a execução de grave crime violento, acabou por matar a todos", aponta a PF.

Adulteração dos locais de crime


O relatório também afirma que os criminosos não dispunham de armas quando as forças policiais entraram nos imóveis e que houve adulteração dos locais de crime por parte dos policiais.

"Apesar dos sinais consistentes de resistência no sítio 2, os vestígios indicaram que os armamentos longos atribuídos àquele local, divulgados em fotografias à imprensa, inclusive a metralhadora calibre .50, teriam sido introduzidos na cena em momento posterior ao confronto. A análise preliminar da sala (de um dos sítios) indicou que o ambiente passou por adulterações deliberadas e não relacionadas com a dinâmica de entrada tática e confronto com eventuais sujeitos".

O relatório também aponta que disparos de armas de fogo atribuídos aos criminosos também foram adulterados pelos policiais.

"Os consistentes indicativos de que os tiros no muro frontal e lateral foram produzidos depois do domínio da situação, conduzem à conclusão de que foram efetuados pelos policiais, com o possível propósito de simular resistência que não existiu".

Prestação de socorro aos baleados


A Polícia Federal afirma no inquérito que não houve efetivo socorro aos feridos.

"Tal qual observado no sítio 1, a análise global dos elementos objetivos indicou não ter havido efetivo socorro aos feridos do sítio 2. As imagens do circuito do Hospital Bom Pastor mostram que os corpos ali chegaram (seis corpos do sítio 1 e oito do sítio 2) transportados empilhados no compartimento de carga das caminhonetes, sob a capota marítima. No primeiro veículo que trouxe os sujeitos do Sítio 2, via-se policial sentado sobre os corpos, em condição incompatível com eventual prestação de socorro. Vale dizer também, a dita prestação de socorro, em verdade, decorreu da intenção de inovar local de crime".

O relatório afirma ainda que a quase totalidade dos profissionais das unidades que receberam os corpos (Hospital Bom Pastor e UPA Varginha), que trabalhou no dia dos eventos, foi ouvida no inquérito. "Afora os horrores narrados, o que ficou latente é o registro uníssono de que os nosocômios receberam somente cadáveres. Não houve sequer um lampejo de prestação de primeiros socorros".

"Observa-se que não há movimentação compatível com prestação de socorro ou a realização de quaisquer manobras de urgência pelos servidores da UPA. Ao contrário, a maioria dos corpos foi retirada do veículo e imediatamente recoberto com lençóis brancos, sugerindo não haver dúvidas sobre a ausência de vida".

O inquérito da PF também aponta que uma das vítimas "foi socorrida" com o crânio aberto, sem massa encefálica, em decorrência do disparo de fuzil em sua cabeça. A investigação apontou que o tempo estimado entre o domínio da situação no sítio 1 e o início do transporte dos baleados para a UPA e o Hospital Bom Pastor foi superior a 50 minutos. A PF afirma que somente esse fato já contradiz a versão de prioridade de se prestar efetivo socorro. Os bombeiros militares de Varginha e o Samu foram oficiados e responderam não terem recebido qualquer acionamento.

A PF afirma que todos os policiais que estiveram nos locais dos crimes imediatamente após os eventos de tiro agiram para dificultar os trabalhos investigativos. Aqueles que estiveram nos locais, ainda que não tenham participado da inovação e adulteração desses locais, por omissão dolosa, contribuíram para o resultado criminoso.

Operação

A operação conjunta entre Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal e Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) resultou na morte de 26 pessoas suspeitas de pertencerem a uma quadrilha roubos a bancos no dia 31 de outubro de 2021 em Varginha (MG).

De acordo com a PM, os suspeitos seriam especialistas neste tipo de crime. Um arsenal "de guerra" também foi apreendido com a quadrilha.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal, os confrontos com os homens ocorreram em duas abordagens diferentes. Na primeira, os suspeitos atacaram as equipes da PRF e da PM, sendo que 18 criminosos morreram no local.

O que dizem as autoridades

Em nota, a Polícia Rodoviária Federal informou que a Corregedoria-geral da PRF reabriu procedimento apuratório ainda em 2023 frente ao surgimento de novas evidências.

A PRF destacou ainda o compromisso com os limites constitucionais e a defesa do estado democrático de direito, incluídos o princípio da presunção de inocência dos agentes, a garantia ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa.

A Polícia Militar informou que acompanha o caso. Segundo a Polícia Federal, o inquérito foi relatado e encaminhado às autoridades.

O Ministério Público Federal informou que recebeu o relatório policial na tarde desta terça-feira (27). Ele agora será analisado para verificar se serão necessárias novas diligências.

FONTE:G1

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