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Paulo Gonet usa fala de André Mendonça e detalha relação com Daniel Vorcaro em defesa ao MPF

17 de set.
5 min de leitura
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


O procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentou uma defesa de 30 páginas ao Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) para responder às suspeitas relacionadas à sua menção em mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. No documento, obtido pela CNN, Gonet rejeita a existência de uma relação de amizade ou de interesse pessoal com Vorcaro e afirma estar “juridicamente plenamente apto” para continuar atuando nos processos relacionados ao caso.

Na apresentação de sua manifestação, Gonet também utilizou uma declaração feita pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante a sessão que analisou o relatório da Polícia Federal sobre as mensagens envolvendo Vorcaro. Mendonça afirmou que não havia identificado atuação irregular do procurador-geral, declaração que Gonet apresentou como elemento favorável à sua defesa.

O documento foi apresentado em um procedimento aberto no Conselho Superior do MPF a partir de uma representação do Partido Novo, motivada por notícias sobre mensagens nas quais Vorcaro teria pedido a terceiros que intercedessem junto ao procurador-geral em relação à Operação Compliance Zero, investigação envolvendo o Banco Master.

Gonet classificou as acusações contra ele como “descabidas e estapafúrdias” e pediu que seja afastada qualquer hipótese de suspeição ou impedimento para sua atuação nos processos relacionados ao caso.

Relação com Daniel Vorcaro

Um dos principais pontos da manifestação é a explicação de Gonet sobre seu contato com Daniel Vorcaro. O procurador-geral afirma que não mantinha amizade com o banqueiro e que não possuía qualquer interesse pessoal nos processos nos quais Vorcaro figurasse como parte ou investigado.

Segundo Gonet, o único encontro presencial entre os dois ocorreu em abril de 2024, em Londres, durante um evento organizado pelo Grupo Voto e pela revista eletrônica Consultor Jurídico. O procurador-geral participou de um painel sobre o papel do Judiciário para a estabilidade democrática.

Gonet afirma que o encontro reuniu diversas autoridades e personalidades e que também houve momentos de convivência entre os participantes. Segundo ele, foi nesse contexto que conheceu Vorcaro, sem que tivesse mantido com o banqueiro qualquer conversa de natureza profissional.

Na época, de acordo com o procurador-geral, não havia informações públicas que relacionassem Vorcaro ou o Banco Master a atividades ilícitas. Gonet afirma que conhecia Vorcaro apenas como um empresário bem relacionado nos meios político, empresarial e jurídico.

Ele também declarou que não sabia que o Banco Master havia patrocinado o evento em Londres. Segundo sua defesa, o organizador do encontro, Marcio Chaer, enviou posteriormente uma manifestação escrita afirmando que Gonet não havia sido informado previamente sobre os patrocinadores.

Mensagens e pedido de intervenção

Outro ponto abordado por Gonet são as mensagens de Vorcaro nas quais aparece o nome “Paulo”. Em uma das conversas analisadas pela Polícia Federal, o ex-banqueiro teria pedido que o ministro Alexandre de Moraes intercedesse junto a Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para evitar medidas que afetassem o Banco Master.

Gonet afirma que, mesmo que as anotações de Vorcaro sejam consideradas autênticas, elas não demonstram qualquer interferência sua em investigações.

Segundo o procurador-geral, as mensagens foram produzidas entre 30 de outubro e 15 de novembro de 2025 e diziam respeito a medidas que Vorcaro temia que fossem adotadas na primeira instância. Gonet afirma que nunca recebeu qualquer pedido para interromper investigações e que, ao contrário, garantiu suporte institucional para que os integrantes do Ministério Público responsáveis pelos procedimentos pudessem realizar seu trabalho.

Ele também sustenta que, caso Vorcaro tenha procurado seus então advogados, Pierpaolo Bottini e Roberto Podval, para obter informações sobre o caso, o episódio não resultou em qualquer informação privilegiada fornecida por Gonet.

Delações de Vorcaro

Gonet também explicou no documento como a Procuradoria-Geral da República tratou propostas de colaboração premiada relacionadas a Daniel Vorcaro.

Segundo o procurador-geral, a PGR recebeu duas propostas de colaboração envolvendo o ex-banqueiro e estabeleceu critérios para avaliar os acordos. Entre as condições estavam a assunção de responsabilidade criminal pelo colaborador, a apresentação de informações novas acompanhadas de elementos de corroboração, a revelação dos fatos criminosos conhecidos e a possibilidade de recuperação de ativos e valores relacionados aos prejuízos causados pelos crimes.

Gonet afirma que, com base nesses critérios, a PGR recusou duas propostas de colaboração premiada envolvendo Vorcaro e firmou outras duas, que foram submetidas à homologação do STF.

A manifestação sustenta que as decisões foram tomadas de acordo com critérios previamente estabelecidos e que não houve atuação pessoal do procurador-geral para beneficiar ou prejudicar Vorcaro.

Ausência de contato frequente

Gonet afirma ainda que seu número de telefone não aparece na lista de contatos de Vorcaro e que não há registro de ligações feitas pelo banqueiro diretamente para seu telefone.

Segundo o procurador-geral, esse dado reforçaria sua versão de que não havia proximidade pessoal entre os dois. Ele também declarou que nunca esteve na residência de Vorcaro nem na sede do Banco Master e que não teve outros encontros presenciais com o banqueiro além do evento realizado em Londres.

A manifestação, porém, registra uma segunda ocasião em que Gonet falou brevemente com Vorcaro. O contato teria ocorrido em 15 de março de 2025, quando o advogado e empresário Ciro Soares ligou para Vorcaro e passou o telefone ao procurador-geral para que ele o cumprimentasse.

Gonet afirma que a conversa foi rápida e não tratou de assuntos relacionados às suas atribuições profissionais.

Relação com Ciro Soares

O documento também detalha a relação de Gonet com Ciro Soares, apontado nas mensagens como uma pessoa que mantinha contato com Vorcaro.

Segundo o procurador-geral, Soares havia sido apresentado a ele como advogado e empresário e mantinha relações com integrantes do meio jurídico e político. Gonet afirma que os dois estiveram no mesmo evento em Boston, nos Estados Unidos, em abril de 2024, além de outros encontros.

Foi por intermédio de Ciro, segundo Gonet, que algumas mensagens atribuídas ao procurador-geral chegaram a Vorcaro.

O procurador-geral afirma que determinadas mensagens foram interpretadas de maneira equivocada. Entre elas está a expressão “que bom, estou na torcida por vocês”, que, segundo sua explicação, era dirigida a Ciro e Vorcaro em razão de uma situação envolvendo os dois. Em outro caso, Gonet afirma que a expressão “saudade de você” era destinada exclusivamente a Ciro Soares.

Ele também rejeita a interpretação de que a frase “você é uma máquina” teria sido dirigida a Vorcaro. Segundo sua defesa, a mensagem era destinada a Ciro e apenas foi encaminhada ao banqueiro.

Encontro em Londres

Gonet também negou que sua participação no evento de Londres tenha criado qualquer vínculo profissional com Vorcaro ou com o Banco Master.

Segundo o documento, o convite para participar do encontro foi feito pelo Grupo Voto e formalizado por Marcio Chaer, responsável pelo evento. O procurador-geral afirma que foi convidado para falar sobre estabilidade democrática e que havia outros painéis com autoridades e personalidades.

Gonet afirma ainda que não participou de um segundo evento que seria realizado em 2025. Segundo ele, chegou a recusar o convite antes de o fórum ser cancelado.

A defesa também aborda informações relacionadas ao filho do procurador-geral. Gonet afirma que seu filho não chegou a ser convidado pelos organizadores para o evento de 2025, que nunca teve contato com Vorcaro e que não esteve em Londres para participar do encontro.

O Conselho Superior do Ministério Público Federal marcou para 25 de setembro a sessão destinada a analisar as mensagens e os questionamentos relacionados a Gonet.

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