Perseverance encontra rochas em Marte que registram diferentes episódios de interação com água
há 5 dias
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O rover Perseverance, da NASA, encontrou em Marte rochas que preservam sinais de diferentes períodos de interação com água, oferecendo novas pistas sobre a história do planeta e sobre as condições que podem ter existido para a vida no passado. A descoberta ocorreu na chamada Unidade Marginal, uma formação geológica localizada na borda interna da cratera Jezero.
O estudo, divulgado pela NASA na segunda-feira (21), mostra que as rochas da região registram pelo menos três episódios distintos de contato com água. A descoberta indica que a história hídrica de Marte foi mais complexa do que se imaginava e pode ajudar os cientistas a reconstruir as condições ambientais existentes no planeta bilhões de anos atrás.
O Perseverance chegou à Unidade Marginal em setembro de 2023. A área acompanha a margem de um antigo lago que existiu dentro da cratera Jezero. Antes da chegada do rover, imagens obtidas por sondas em órbita haviam identificado fortes sinais de minerais carbonatos na região.
Na Terra, carbonatos são frequentemente associados à formação em ambientes de águas rasas, como lagos e oceanos. Por isso, os pesquisadores esperavam encontrar principalmente rochas sedimentares, formadas pelo acúmulo de materiais ao longo de milhares ou milhões de anos.
A surpresa foi que o Perseverance encontrou rochas ígneas, que se formam a partir do resfriamento do magma, seja no interior do planeta ou em decorrência de atividade vulcânica. Essas rochas podem preservar informações sobre as condições existentes no momento em que se formaram.
No caso da Unidade Marginal, os minerais presentes nas rochas registraram alterações provocadas pela água em diferentes momentos. O rover analisou mais de 185 alvos de rocha na região utilizando o instrumento SuperCam, instalado em seu mastro.
A SuperCam permite identificar a composição dos materiais por meio da análise da luz refletida pelas rochas. Quando os pesquisadores encontram um alvo de interesse, o instrumento pode disparar um laser a uma distância de até 6,5 metros. O laser produz uma pequena quantidade de plasma, e a luz emitida por esse material permite determinar quais elementos químicos estão presentes.
Segundo os pesquisadores, a análise mostrou diferenças entre as partes mais altas e mais baixas da Unidade Marginal. Nas áreas superiores, cerca de 265 metros acima das regiões mais baixas, foram identificadas rochas cristalinas com grandes grãos de olivina, mineral composto principalmente por magnésio e ferro. Elas apresentam poucos sinais de terem entrado em contato com água.
A interpretação é que essas rochas se formaram a partir de magma que esfriou lentamente no interior de Marte. Com o passar do tempo, processos de erosão teriam exposto o material na superfície.
Nas regiões mais baixas, próximas ao antigo leito do lago, as rochas apresentam alterações mais evidentes. Os grãos de olivina aparecem fraturados e há presença de sílica entre eles. Também foram encontrados carbonatos, que ajudam a registrar a interação entre água e minerais presentes nas rochas.
Os pesquisadores identificaram uma sequência de pelo menos três episódios de interação com água. No primeiro, águas subterrâneas ricas em dióxido de carbono teriam reagido com a olivina, formando carbonatos nas fraturas das rochas. Em um segundo momento, a água pode ter estado relacionada ao antigo lago que ocupava a cratera Jezero.
Um terceiro episódio teria ocorrido posteriormente e deixado veios minerais em uma área da Unidade Marginal. Esses veios têm cerca de 25 centímetros de espessura e incluem minerais como sulfato de cálcio e fluorita. A presença de fluorita é considerada um indício de que água quente circulou pelas rochas vulcânicas, apontando para uma fase posterior de atividade hidrotermal.
A sequência identificada permite aos cientistas determinar a ordem em que os diferentes episódios de interação com água aconteceram, mas não estabelece as idades exatas de cada evento.
A descoberta também é relevante para a busca por sinais de vida antiga. Na Terra, a interação entre água e olivina pode liberar hidrogênio, que serve como fonte de energia para alguns microrganismos. Carbonatos e sílica, por sua vez, podem preservar registros químicos de ambientes antigos.
Para Candice Bedford, pesquisadora da Universidade Purdue e principal autora do estudo, os resultados mostram que a Unidade Marginal funcionou como uma espécie de ponto de encontro de diferentes sistemas de água. A região, segundo a pesquisadora, pode ajudar a compreender não apenas a história da cratera Jezero, mas também aspectos mais amplos da evolução da água e da habitabilidade de Marte.
O estudo foi publicado na revista científica Communications Earth & Environment e reforça um dos principais objetivos da missão Perseverance: investigar a geologia, o clima passado e a possibilidade de que Marte tenha oferecido condições para a existência de vida microbiana no passado.
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