Plano de Trump para abastecer centros de inteligência artificial com energia de Itaipu pode reduzir oferta ao Brasil
há 53 minutos
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O plano do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de utilizar energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu para abastecer empresas de inteligência artificial no Paraguai pode reduzir a quantidade de eletricidade disponibilizada ao mercado brasileiro nos próximos anos. O alerta foi feito por especialistas em energia após o anúncio de uma parceria entre uma empresa americana e outra paraguaia, divulgado na quarta-feira (21).
O projeto prevê a instalação de uma estrutura de processamento de dados em território paraguaio, utilizando eletricidade produzida pela hidrelétrica binacional, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai. A primeira etapa do empreendimento deverá entrar em operação em meados de 2027.
A preocupação está relacionada ao crescimento do consumo de energia no Paraguai. Embora os dois países tenham direito à metade da produção de Itaipu, o Paraguai historicamente utiliza apenas uma parte de sua cota e disponibiliza o excedente para compra pelo Brasil. Esse cenário vem mudando à medida que o país amplia sua demanda por eletricidade.
Atualmente, o Paraguai consome aproximadamente 74% da energia a que tem direito na usina. Os 26% restantes são destinados ao mercado brasileiro. Com a instalação de novos empreendimentos que exigem grandes quantidades de eletricidade, essa parcela excedente poderá diminuir.
Apesar da preocupação, os especialistas não apontam risco imediato de desabastecimento no Brasil. Também não há confirmação de que o novo projeto provocará aumento nas contas de luz dos consumidores brasileiros.
Empresas dos Estados Unidos e do Paraguai firmam parceria
O acordo envolve a empresa americana Crusoe, especializada em infraestrutura para inteligência artificial, e a paraguaia Araico, que desenvolve projetos de energia e infraestrutura.
A iniciativa foi anunciada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e prevê a construção de uma estrutura de computação de alto desempenho alimentada pela energia de Itaipu. Segundo o governo americano, o empreendimento atenderá clientes de serviços em nuvem dos Estados Unidos e da América Latina.
A previsão é que a primeira fase comece a funcionar em meados de 2027. O anúncio oficial, entretanto, não informou a quantidade de energia que será contratada para abastecer as instalações.
O governo americano apresentou o projeto como uma iniciativa estratégica para ampliar a infraestrutura de inteligência artificial e os investimentos privados no Paraguai. A parceria também faz parte de uma aproximação mais ampla entre Washington e Assunção, com iniciativas em tecnologia, energia, logística e segurança.
O acordo não envolve uma transferência direta de energia brasileira para empresas americanas. A eletricidade utilizada pelo empreendimento deverá estar vinculada à parcela de energia destinada ao Paraguai, conforme as regras que regulam o funcionamento de Itaipu.
O problema apontado pelos especialistas é que, quanto maior for o consumo paraguaio, menor poderá ser o excedente que o país disponibiliza atualmente ao Brasil.
Como funciona a divisão da energia de Itaipu
A Usina Hidrelétrica de Itaipu pertence conjuntamente ao Brasil e ao Paraguai. Pelo tratado que regulamenta seu funcionamento, cada país tem direito a 50% da energia produzida.
Historicamente, o Paraguai não precisava consumir toda a eletricidade correspondente à sua metade. Por isso, a parcela não utilizada era disponibilizada para aquisição pelo Brasil, que passou a contar com esse excedente em seu abastecimento.
Nos últimos anos, porém, a demanda paraguaia aumentou. O país passou a utilizar aproximadamente 74% de sua cota, enquanto os 26% restantes continuam sendo destinados ao mercado brasileiro.
O crescimento do consumo está relacionado à instalação de empreendimentos com grande demanda energética, entre eles empresas de mineração de criptomoedas e projetos de infraestrutura tecnológica.
A expansão dos centros de dados voltados à inteligência artificial pode acelerar esse movimento. Essas instalações precisam de eletricidade em grande escala para manter servidores, processar informações e operar continuamente.
Assim, mesmo que o Brasil continue com o direito à metade da produção de Itaipu, poderá receber menos energia da parcela paraguaia que tradicionalmente compra.
Especialistas alertam para redução do excedente brasileiro
Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor da Universidade Nacional de Assunção, no Paraguai, avalia que a quantidade de eletricidade disponibilizada ao Brasil poderá diminuir significativamente com a expansão do consumo paraguaio.
Segundo o especialista, o aumento da demanda ganhou força a partir de 2021 e 2022, impulsionado principalmente pela instalação de empresas que consomem grandes volumes de energia, como as dedicadas à mineração de criptomoedas.
Oxilia considera que a chegada de novos empreendimentos poderá acelerar a redução do excedente destinado ao mercado brasileiro. Embora avalie que é difícil que esse fornecimento desapareça completamente de uma só vez, ele prevê uma diminuição expressiva da quantidade disponível.
Tomaz Espósito, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), também considera que a instalação de novos consumidores poderá reduzir a oferta de energia ao Brasil e tornar mais complexas as negociações entre os dois países.
De acordo com Espósito, o crescimento da demanda paraguaia amplia a importância das discussões sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu, documento que estabelece regras financeiras e comerciais para a produção e a comercialização da eletricidade gerada pela usina.
O anexo define, entre outros pontos, como são calculados os custos da energia e a compensação pela eletricidade que um dos países não utiliza e disponibiliza ao outro.
Com a possibilidade de o Paraguai destinar uma parcela maior de sua energia ao consumo interno e a novos empreendimentos, as condições de comercialização poderão ganhar ainda mais relevância nas relações entre os dois países.
Brasil não participou das negociações
O Brasil não participou das negociações anunciadas pelo governo americano para o projeto de inteligência artificial no Paraguai.
A direção brasileira de Itaipu informou que não esteve presente no encontro entre as autoridades dos Estados Unidos e do Paraguai. Segundo a empresa, a utilização da energia destinada a cada país é uma decisão nacional, que deve respeitar as regras do tratado binacional.
O anúncio americano também não mencionou o Brasil, apesar de a usina ser compartilhada entre os dois países sul-americanos.
A ausência brasileira nas negociações chamou a atenção porque o empreendimento poderá afetar indiretamente a quantidade de energia paraguaia que fica disponível para o mercado brasileiro.
O projeto, entretanto, não altera por si só a divisão formal da produção de Itaipu. O possível impacto está relacionado à decisão do Paraguai de consumir uma parcela maior da energia que lhe pertence, reduzindo o excedente que tradicionalmente vende ao Brasil.
Brasil não corre risco imediato de desabastecimento
Apesar da possibilidade de redução no fornecimento, os especialistas consultados não identificam risco imediato de falta de energia no Brasil.
Oxilia avalia que o sistema elétrico brasileiro possui uma estrutura diversificada, com diferentes fontes de geração capazes de compensar parte dos efeitos de uma eventual redução no fornecimento de Itaipu.
Isso não significa que a diminuição seria irrelevante. Espósito destaca que a eletricidade da usina representa uma reserva importante para o abastecimento da região Centro-Sul do país. Por isso, a redução gradual do excedente paraguaio poderá exigir ajustes no planejamento energético brasileiro.
O Brasil conta com outras fontes de geração, incluindo energia hidrelétrica, solar e eólica, mas a disponibilidade e a contribuição de cada uma variam conforme as condições de operação do sistema.
Até o momento, não existe uma estimativa oficial de quanto o novo empreendimento poderá reduzir a quantidade de energia destinada ao Brasil. Também não há confirmação de impacto direto sobre as tarifas cobradas dos consumidores.
Acordos anteriores aumentam a importância das negociações
A disputa em torno da energia de Itaipu ocorre em meio a mudanças nas relações comerciais entre Brasil e Paraguai.
Em 2024, os dois países chegaram a um acordo para reajustar a tarifa da energia da usina, depois de um impasse envolvendo os valores pagos pelo excedente paraguaio. Na ocasião, o governo do Paraguai buscava condições mais favoráveis para a comercialização de sua parcela da produção.
Outro ponto importante é a previsão de mudanças nas regras comerciais a partir de 2027. O entendimento firmado entre os países permite que o Paraguai amplie as possibilidades de venda de sua energia no mercado livre, abrindo espaço para outros compradores além do Brasil.
Esse cenário torna o novo projeto de inteligência artificial particularmente relevante. Com a expansão da demanda interna e a possibilidade de novos contratos, o Paraguai poderá utilizar uma parcela maior de sua cota e modificar a dinâmica de fornecimento que historicamente beneficiou o mercado brasileiro.
Itaipu projeta que o excedente paraguaio atualmente destinado ao Brasil poderá deixar de existir até 2035, em razão do crescimento do consumo no país vizinho. A previsão considera a expansão da demanda energética, incluindo empreendimentos de grande porte, como centros de dados.
O ritmo dessa mudança dependerá da velocidade de implantação dos novos projetos e da evolução do consumo paraguaio nos próximos anos.
Aproximação entre Trump e Paraguai vai além da inteligência artificial
O acordo relacionado a Itaipu faz parte de uma série de iniciativas anunciadas pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação econômica e estratégica com o Paraguai.
Durante a visita de Christopher Landau, vice-secretário de Estado americano, autoridades dos dois países discutiram oportunidades de investimento em setores como tecnologia, minerais críticos, infraestrutura fluvial e logística.
Além do projeto da Crusoe com a Araico, a empresa americana Uranium Energy Corp. anunciou um investimento de US$ 12 milhões para desenvolver uma de suas concessões de urânio no Paraguai.
Na área de segurança, os governos também assinaram um acordo de assistência para interceptação aérea, com o objetivo de ampliar a capacidade paraguaia de monitorar e proteger seu espaço aéreo contra voos suspeitos de transportar drogas.
Os Estados Unidos anunciaram ainda US$ 5,5 milhões em assistência para iniciativas de combate ao financiamento do terrorismo, ao narcotráfico e para o reforço da segurança nas fronteiras. Outros US$ 6,25 milhões serão destinados à cooperação bilateral contra o crime organizado transnacional.
Os dois países também iniciaram negociações para estabelecer um acordo de cooperação no uso pacífico da energia nuclear. Caso o entendimento entre em vigor, será criado um marco legal para permitir a exportação de equipamentos e materiais nucleares americanos ao Paraguai, sob regras de segurança e não proliferação.
Nesse contexto, o projeto de inteligência artificial abastecido por Itaipu representa mais uma iniciativa de aproximação entre Washington e Assunção. Para o Brasil, o principal ponto de atenção será acompanhar como o aumento da demanda paraguaia poderá afetar a disponibilidade de energia da usina nos próximos anos.
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