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Premiê do Canadá, Mark Carney, abandona tom conciliador e endurece postura com Trump

há 7 horas
5 min de leitura


O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, passou a adotar uma postura mais direta e bem-humorada diante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, depois de meses mantendo uma estratégia considerada mais conciliadora nas relações entre os dois países. A mudança ocorre em meio ao impasse nas negociações comerciais, à imposição de tarifas e à aproximação do Canadá com a União Europeia.

Quando encontrou Trump pela primeira vez na Casa Branca, em maio de 2025, Carney respondeu com calma às declarações do presidente americano sobre transformar o Canadá no 51º estado dos Estados Unidos. Na ocasião, afirmou que, assim como ocorre no mercado imobiliário, “há lugares que nunca estão à venda”, provocando risos entre os dois líderes.

A postura conciliadora passou a marcar a atuação de Carney diante de Trump. Mesmo com a deterioração das relações entre os dois países e o aumento das críticas do presidente americano, o primeiro-ministro canadense manteve uma relação cordial enquanto tentava defender os interesses do Canadá nas negociações comerciais.

Agora, cerca de 18 meses depois do início de seu mandato, o cenário mudou. As negociações comerciais voltaram a ficar paralisadas, o Canadá adotou tarifas retaliatórias contra produtos americanos após o fracasso das conversas em agosto e Ottawa também ampliou a aproximação com a União Europeia.

Carney imita gesto característico de Trump

Um dos sinais mais visíveis dessa mudança ocorreu durante um discurso de Carney na sexta-feira, diante de integrantes de seu Partido Liberal, em Ottawa.

Ao falar sobre um grande acordo de energia limpa, que segundo ele teria capacidade equivalente a 18 represas Hoover, Carney abriu e fechou as mãos reproduzindo o característico gesto utilizado por Trump para enfatizar números e dimensões.

“18 represas Hoover”, repetiu o premiê, sorrindo, enquanto provocava risadas entre os presentes.

O episódio rapidamente ganhou repercussão e passou a ser visto como um exemplo da mudança no estilo de Carney. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, o primeiro-ministro canadense passou a demonstrar maior disposição para responder às provocações de Trump com ironia.

Para Fen Hampson, professor da Universidade Carleton e co-presidente do Grupo de Especialistas em Relações Canadá-EUA, Carney recebeu uma série de ataques de Trump e agora começa a substituir a cautela por provocações mais sutis.

Da tentativa de aproximação às respostas diretas

Quando assumiu o cargo, Carney tinha entre seus objetivos reduzir as tensões com Washington, que já haviam aumentado durante o governo de Justin Trudeau. Trump havia voltado a ameaçar a anexação do Canadá no início de seu segundo mandato.

Durante um encontro em outubro de 2025, Carney chegou a chamar Trump de “presidente transformador” e elogiou seus esforços de mediação internacional. Na ocasião, Trump também elogiou o canadense, classificando-o como um negociador duro e um “líder de classe mundial”.

Na tentativa de obter alívio das tarifas americanas, Carney aumentou os esforços canadenses contra o tráfico de fentanil para os Estados Unidos e abandonou um imposto sobre serviços digitais que atingiria empresas de tecnologia americanas. O primeiro-ministro também pediu desculpas a Trump após uma campanha publicitária canadense contra as tarifas irritar o presidente americano e contribuir para o encerramento das negociações comerciais.

Carney chegou ainda a apoiar publicamente Trump em questões de política externa, incluindo a guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Em maio, durante um encontro com empresários em Nova York, utilizou uma expressão associada ao próprio Trump ao defender que um Canadá mais forte ajudaria a “tornar a América grande novamente”.

Enquanto Carney mantinha uma postura mais moderada, Trump intensificava as críticas. O presidente americano passou a chamá-lo repetidamente de “governador” ou simplesmente de “Mark”, além de classificá-lo como “desagradável” e “ingrato”.

Trump também publicou um meme gerado por inteligência artificial relacionado ao hóquei, no qual aparecia sobre uma representação de Carney caído no gelo.

Nos últimos meses, porém, o primeiro-ministro canadense começou a responder com mais firmeza. Depois que Pete Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, publicou uma mensagem zombando de integrantes do programa juvenil de cadetes do Canadá, Carney reagiu publicamente.

“Parem com os memes, parem de provocar, parem de tentar parecer durões”, afirmou o premiê a jornalistas, em uma mensagem dirigida ao governo americano.

Aproximação com a União Europeia aumenta tensão

A mudança de tom também ocorreu paralelamente ao fortalecimento das relações entre Canadá e União Europeia.

Durante um discurso no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Carney defendeu uma aproximação maior com o bloco depois que a União Europeia manifestou interesse em transformar o Canadá em seu primeiro “membro associado”. A possibilidade provocou novas ameaças de tarifas por parte de Trump.

Carney afirmou que a iniciativa não tinha como objetivo criar um bloco rival dos Estados Unidos.

“Não estou propondo um terceiro bloco para me tornar um rival de grande potência, apenas com melhores modos”, disse.

O primeiro-ministro canadense também fez uma provocação indireta em agosto. Durante uma entrevista coletiva, seu teleprompter parou de funcionar, e Carney afirmou que, “ao contrário de certo líder mundial”, não considerava aquilo uma conspiração. A declaração fazia referência a um episódio anterior envolvendo Trump, quando o teleprompter do presidente americano apresentou problemas durante a Assembleia Geral da ONU e ele afirmou ter ocorrido sabotagem.

A aproximação entre Canadá e União Europeia ganhou novos contornos nos últimos dias. Carney defendeu que o país tenha liberdade para decidir suas próprias parcerias internacionais e afirmou que uma relação mais estreita com os europeus poderia tornar o Canadá um parceiro mais eficaz dos Estados Unidos.

Nova estratégia pode aumentar tensão

Para Eric Van Rythoven, professor de ciência política da Universidade Carleton, Carney passou a incorporar uma espécie de “zombaria gentil” à diplomacia canadense.

Segundo o especialista, o primeiro-ministro tentou durante meses uma abordagem conciliadora sem conseguir destravar as negociações comerciais, o que teria levado à busca por uma nova estratégia.

Van Rythoven também afirmou que Trump costuma reagir fortemente a demonstrações de desrespeito, especialmente quando partem de um líder estrangeiro como Carney.

Outro especialista, Imran Bayoumi, diretor-adjunto do Scowcroft Center for Strategy and Security, do Atlantic Council, avaliou que a postura de Carney também encontra respaldo dentro do Canadá. Segundo ele, parte da população apoia a defesa dos interesses canadenses mesmo quando isso aumenta a distância em relação aos Estados Unidos.

Uma pesquisa recente da empresa canadense Leger apontou que 41% dos canadenses disseram considerar os Estados Unidos um país inimigo, um aumento de 15 pontos percentuais em relação a junho de 2025. Entre os entrevistados, 64% afirmaram que sua opinião mudaria caso Trump deixasse a Presidência.

Para Van Rythoven, a nova postura de Carney pode representar uma fase ainda mais tensa nas relações entre os dois países. Outros especialistas, porém, consideram que as provocações não necessariamente terão consequências permanentes.

Asa McKercher, especialista em relações Canadá-Estados Unidos da St. Francis Xavier University, afirmou que Trump já teve relações turbulentas com outras pessoas e que conflitos pessoais podem eventualmente ser superados por novos acordos.

As negociações comerciais entre os dois países continuam sendo um dos principais pontos de tensão, enquanto Canadá e Estados Unidos mantêm uma relação econômica profundamente integrada e Ottawa amplia simultaneamente suas parcerias com países europeus.

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