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Roubo de celular ajuda polícia a descobrir rede de tráfico ligada ao Comando VermelhoTítulo chamativo

há 2 horas
4 min de leitura
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução


O roubo de um celular em um sinal de trânsito em Fortaleza ajudou a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro a descobrir uma rede de tráfico de drogas que, segundo as investigações, fornecia entorpecentes para o Comando Vermelho. O aparelho pertencia a Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, conhecido como “Gordão” ou “Boss”, apontado pelos investigadores como um dos principais fornecedores de drogas do grupo.

Segundo a investigação, Laércio utilizava diferentes celulares para separar sua vida pessoal das atividades criminosas e tentar dificultar sua identificação. Um dos aparelhos, usado para tratar dos negócios relacionados ao tráfico, acabou sendo roubado durante o assalto em Fortaleza.

Na tentativa de recuperar o telefone, “Boss” passou a utilizar seu celular pessoal. De acordo com os investigadores, esse era justamente o aparelho que mantinha arquivos armazenados na nuvem. Pelo número pessoal, Laércio pediu ajuda a traficantes do Ceará para localizar o telefone levado no assalto e continuou tratando de assuntos relacionados a encomendas de drogas.

Com autorização judicial, os investigadores conseguiram acessar dados de linhas telefônicas e contas na nuvem. Dessa forma, passaram a reunir informações sobre a atuação de Laércio e sobre pessoas que mantinham contato com ele.

Em um dos áudios obtidos pela investigação, Laércio demonstra preocupação ao perceber que o número de um motorista responsável pelo transporte de uma carga de drogas estava armazenado justamente no celular roubado. Ele chegou a acionar criminosos para tentar recuperar o aparelho.

“Boss” também procurou contatos no Ceará. Segundo o material obtido pelos investigadores, ele chegou a mencionar que havia acionado integrantes da facção para tentar localizar o telefone.

“Fornecedor de fornecedores”

A análise das conversas levou os investigadores a identificar Laércio como uma espécie de “fornecedor de fornecedores”, responsável por abastecer integrantes do tráfico que, por sua vez, distribuiriam as drogas em diferentes pontos.

Entre os contatos identificados estava Anderson Sant’Anna da Silva, conhecido como “Gão”, apontado pela investigação como chefe do tráfico de uma favela na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Em uma conversa, Gão fala sobre o tamanho do mercado que poderia ser abastecido por Laércio e menciona a presença do Comando Vermelho em 355 favelas.

A investigação também relacionou Laércio a uma apreensão de drogas realizada em Guarulhos, em São Paulo, em fevereiro de 2024. Na ocasião, policiais civis investigavam um galpão quando abordaram um caminhão e encontraram cocaína e maconha escondidas nos tanques de combustível.

Ao todo, foram apreendidos mais de 715 quilos de drogas.

Meses depois, quando os investigadores do Rio identificaram Laércio como “Boss”, cruzaram as conversas e os pagamentos encontrados na investigação com os dados referentes à apreensão em Guarulhos. A conclusão dos investigadores foi de que a carga pertencia a ele. O procedimento deverá ser encaminhado ao Ministério Público de São Paulo para uma denúncia relacionada ao tráfico de drogas.

Conversa com pastor

Outra parte da investigação revelou uma conversa entre Laércio e um pastor após a apreensão de uma carga de drogas. Durante o diálogo, “Boss” relacionou a perda do carregamento a uma pregação religiosa que havia ouvido anteriormente.

Segundo o material obtido pelos investigadores, Laércio acreditava que a prisão do motorista responsável pela carga e o prejuízo financeiro poderiam representar um tipo de “livramento”. O pastor também relacionou o episódio à pregação anterior.

As conversas fazem parte do material analisado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro durante a investigação contra o grupo.

Prisão em Maceió

A investigação chegou ao próprio Laércio, que foi preso nesta semana em uma cobertura em Maceió, durante uma operação contra o grupo que, segundo os investigadores, fornecia drogas ao Comando Vermelho.

Laércio é acusado de associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Outras cinco pessoas também foram presas durante a operação, que cumpriu mandados em quatro estados.

No imóvel onde ele estava, os policiais encontraram uma mala com cerca de R$ 100 mil, além de roupas, acessórios e tênis de marcas famosas. A investigação também identificou outros imóveis ligados a Laércio em áreas nobres de Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo.

O secretário da Polícia Civil do Rio, Delmir Gouveia, afirmou que Laércio atuava como fornecedor emergencial para organizações criminosas e que a investigação identificou uma movimentação de aproximadamente R$ 70 milhões no período analisado.

“Ele era um fornecedor de fornecedores. Quando os fornecedores de drogas das facções do Rio e São Paulo tinham algum problema logístico, recorriam a ele para suprir aquela demanda naquele momento”, afirmou Gouveia.

Policiais também são investigados

A investigação aponta ainda que Laércio não atuaria sozinho. Dois policiais militares são apontados pelos investigadores como integrantes do esquema e responsáveis pelo recolhimento de dinheiro e pela segurança do transporte das drogas.

Um deles teria reclamado, em uma conversa, sobre o volume de trabalho envolvido nas atividades.

A investigação também apura a possível participação de um policial civil do Rio de Janeiro. O agente chamou a atenção dos investigadores depois de ser abordado em um pequeno aeroporto de São Paulo de Olivença, no Amazonas, região próxima às fronteiras com Peru e Colômbia.

Segundo a investigação, ele estava em um avião particular fretado por cinco dias, em uma viagem que custou R$ 128 mil e foi paga por PIX pelo pai. Os investigadores afirmam que nenhuma droga foi encontrada com o policial, mas o número dele estava salvo na agenda de “Boss”.

O corregedor-geral da Polícia Civil do Rio, Alexandre Capote, afirmou que o agente foi chamado para prestar esclarecimentos e permaneceu em silêncio. Segundo Capote, os investigadores identificaram uma empresa ligada ao policial que teria papel na dissimulação de valores provenientes do tráfico.

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