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Alerta Digital por Stenio Santos Sousa - 10/08/2023



O papel das universidades no contexto da segurança cibernética nacional


As universidades desempenham sua inexorável missão de ensinar desde, pelo menos, o início do Século XI, quando da criação da Università di Bologna, na Itália, no ano de 1088 e com ela, quiçá, a própria identidade europeia, depois expandida para toda parte ocidental do globo. Importantes valores e princípios fundamentais da instituição, aliás, conforme recorda Umberto Eco, encontram-se firmados na Magna Charta Universitatum, desde setembro de 1988, assinada por 388 reitores de todo o velho continente.
Aquela valorosa missão veio a se expandir em meados do século XIX quando a pesquisa passa a se inserir de forma vinculante no contexto universitário e a viabilizar investimentos na criação de centros de pesquisa e respectivos projetos na área. Mais recentemente, o paradigma da inovação veio a dar novo norte às pesquisas universitárias, que passaram a perseguir protagonismo no desenvolvimento de novas tecnologias, novos produtos, modelos de negócio, serviços, processos, com o objetivo de trazer progressos e melhorar a vida em sociedade.

O desenvolvimento de soluções criativas capazes de abordar desafios sociais como melhorias na educação, saúde, segurança e qualidade de vida compõe um intrincado leque de ações que repercutem na agenda cada vez mais atribulada da instituição universitária, evidente reflexo da complexidade da sociedade de nossa tardo modernidade.

É preciso, porém, definir filtros, ser capaz de detectar e selecionar propostas que sejam viáveis e atraentes, desafiadoras ou de maior impacto econômico e social, enquanto critérios definidores de sua maior gravidade e pertinência ao futuro que se espera, deseja e quer. Jorge Luis Borges, ao escrever o conto “Funes o memorioso”, destacou o perigo que o excesso de memória, por muitos tida como um presente divino, pode trazer a nossa capacidade de nos posicionar ativamente diante dos problemas da vida. Por causa de sua memória absoluta, Funes simplesmente não conseguia filtrar e descartar resultados da experiência vital e permanecia estático, o que muitas vezes não é admissível.

Em notícia recente, o jornal The Washington Post trouxe a público que a China teria invadido redes militares do Japão em 2020, de modo que, apesar das medidas adotadas para seu fortalecimento, ainda seriam insuficientes para permitir, por exemplo, um maior compartilhamento de inteligência entre o Pentágono e o Ministério da Defesa do Japão, o que o jornal qualificou como um dos mais destrutivos ataques cibernéticos da história japonesa atual. Capacidade similar de ataques cibernéticos por parte de países soberanos pode ser vista em outros conflitos internacionais, com destaque para a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Um ambiente internacional de tal jaez certamente exige reflexão sobre a potencial capacidade de resposta do Brasil em situação análoga e sobre o que estamos efetivamente a fazer para nos preparar adequadamente em termos de segurança cibernética. O Decreto 10.222, de 5 de fevereiro de 2020, E-Ciber, nessa esteira, aponta dentre suas 12 ações estratégicas, a importância de ampliar a parceria em segurança cibernética entre setor público, setor privado, academia e sociedade.

O investimento na formação de universitários em segurança cibernética associa-se ao objetivo de elevar o respectivo nível de maturidade de nossa sociedade na temática. Isso pode ocorrer por meio do aperfeiçoamento de mecanismos de integração, colaboração e de incentivos entre universidades, institutos, centros de pesquisa e setor privado relacionados à segurança cibernética, o qual, definitivamente, deve ter acesso privilegiado na apertada e complexa agenda universitária como uma política pública nacional, estratégica e de demasiada importância.

Em termos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, a Estratégia Nacional de Segurança Cibernética (E-Ciber), aliás, reconhece o avanço tecnológico decorrente do incentivo a essas importantes áreas, inclusive com impacto no crescimento econômico, todavia sem que a segurança cibernética tenha desempenhado papel prioritário ou de destaque. O decreto recomenda “o investimento na busca de soluções inovadoras em novos tipos de criptografia, de forma a considerar seu potencial variado de aplicabilidade e seu valor estratégico para a segurança da informação e para a segurança cibernética do País”.

A necessidade de importação de tecnologia estrangeira, decorrente da ausência de concorrência interna, impõe especial atenção para enfoque que se deve dar em termos de pesquisa, desenvolvimento e inovação nacionais em áreas como: de microeletrônica, em particular, em ações que visem à capacitação em design house, de sensores, de automação e robótica, de supercomputador, de inteligência artificial, de BigData e analytics, de redes de alto desempenho, de criptografia, de redes móveis de quinta geração - 5G e de computação em nuvem.

Sobre a necessária participação universitária no esforço da segurança cibernética nacional, não custa mencionar que líderes cibernéticos seniores de todo o Departamento de Defesa dos EUA e além se reuniram no início de 2022 para marcar a criação do Consórcio Universitário do Departamento de Defesa para Cibersegurança (UC2). O objetivo do UC2 é facilitar a comunicação bidirecional entre o Secretário de Defesa e a academia em todo os Estados Unidos. O evento foi organizado pela National Defense University's College of Information and Cyberspace, que serve como centro de coordenação para o consórcio.

A partir de paradigma como esse, entendemos que a agenda universitária não pode estar apartada dos desafios e necessidades que governo e sociedade demandam, ainda mais em assunto tão premente, sensível e de repercussões internacionais. Projetos a serem conduzidos por centros de pesquisa em universidades, em parceria com o Ministério da Educação e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, por exemplo, sem prejuízo da cooperação internacional, certamente podem alinhar esforços para atender as necessidades do setor produtivo e amortizar expectativas quanto ao tempo e à capacidade de resposta.

Em texto publicado no Journal of Cybersecurity Intelligence & Cybercrime, Dennis Giever apresenta um argumento a mais, quando defende a importância de que sejam implementados programas interdisciplinares de cibersegurança nas universidades. A partir de sua experiência como chefe do Departamento de Justiça Criminal da Universidade Estadual do Novo México, defende uma abordagem holística e interdisciplinar capaz de preparar para lidar com uma ampla gama de ameaças e desafios, o que inclui a possibilidade de que alunos de diferentes disciplinas possam interagir e cooperar com outras áreas de conhecimento, no esforço de obter, além das habilidades técnicas específicas da área, a compreensão do contexto global da cibersegurança.

A implementação de programas interdisciplinares de cibersegurança aparentam ser uma excelente alternativa de inserção inicial das universidades na temática, pois permite o fornecimento de uma educação relevante, capaz de preparar o corpo discente aos desafios reais e urgentes que os esperam no mercado de trabalho, carente de mão-de-obra qualificada.

Além disso, ao qualificar seu corpo discente, também prepara os corpos docente e técnico universitários, com consequente investimento na proteção de seus próprios ativos cibernéticos. Em última instância, ao adotar a estratégia, a universidade contribui de forma relevante e protagonista para a criação de um mundo digital mais seguro.


Fontes consultadas

Nakashima, E. (2023, agosto 7). China hacked Japan’s sensitive defense networks, officials say. *The Washington Post*. https://www.washingtonpost.com/national-security/2023/08/07/china-japan-hack-pentagon/

Billingsley, J. (2022, janeiro 10). DOD Launches New University Consortium for Cybersecurity. *National Defense University*. https://www.defense.gov/News/News-Stories/Article/Article/2894347/dod-launches-new-university-consortium-for-cybersecurity/
Audy, J. (2017). A inovação, o desenvolvimento e o papel da Universidade. *Inovação • Estud. av.*, 31(90), May-Aug. https://doi.org/10.1590/s0103-40142017.3190005

Brasil. (2020). Decreto 10.222, de 5 de fevereiro de 2020. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/d10222.htm
Eco, U. (s.d.). Perché le università? *Universitas*, 131, 55-59. https://disf.org/files/eco-perche-universita.pdf

Giever, D. (2018). An Argument for Interdisciplinary Programs in Cybersecurity. *International Journal of Cybersecurity Intelligence & Cybercrime*, 1(1), 69-73. https://www.doi.org/10.52306/01010718QKYZ9556


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