Argentina paga mais por fertilizantes mesmo com queda no volume importado
10 de ago.
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A Argentina desembolsou US$ 1,762 bilhão na importação de fertilizantes durante o primeiro semestre de 2026, de acordo com dados da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR). A cifra é a segunda maior já registrada para o período, em um contraste direto com o volume desembarcado, que figurou entre os menores desde 2019. Por trás desse descompasso está a escalada dos preços internacionais do insumo.
Entre janeiro e junho, os produtores argentinos trouxeram de fora 437 mil toneladas de fertilizantes nitrogenados, 767 mil toneladas de fosfatados e 39 mil toneladas de potássicos. A ureia liderou o tombo no volume adquirido, enquanto as compras de fosfatados andaram de lado e se mantiveram em patamares parecidos com os do ano anterior.
A conta dessa disparada não foi barata. A BCR calcula que a discrepância entre a cotação cobrada e a quantidade efetivamente importada gerou um sobrecusto teórico de US$ 180 milhões. A projeção estima quanto o país teria pago a mais pelas mesmas encomendas feitas no primeiro semestre caso fossem praticados os preços médios de 2025 — cálculo que nem leva em conta a fatia de mercado que deixou de comprar justamente por causa do encarecimento.
O estopim para a alta veio do Oriente Médio, com o conflito iniciado em fevereiro desorganizando as cadeias globais. O bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas de petróleo e gás estrangularam a oferta e encareceram matérias-primas essenciais para a fabricação dos insumos.
Os nitrogenados — a ureia, em especial — sentiram o golpe em cheio. Como cerca de 20% do comércio mundial de gás natural e 25% das remessas globais de ureia cruzavam a rota de Ormuz antes da crise, a disparada no preço do gás natural liquefeito jogou os custos das fábricas nas alturas.
A pressão aumentou com a reação dos grandes players. A Índia pisou no freio e cortou parte da produção de ureia por falta de gás, enquanto a China fechou as torneiras das exportações para priorizar o consumo interno, encolhendo ainda mais a oferta global. Na prática, a ureia chegou a dobrar de valor em relação a janeiro, embora não tenha atingido os picos do ciclo de 2022. No segmento dos fosfatados, o gargalo foi a escassez de enxofre, ingrediente básico para a rocha fosfórica, cujo preço também dobrou no período. Com isso, o superfosfato triplo (TSP) acumulou alta de 39% e o fosfato diamônico (DAP) subiu 27%.
O freio nas compras ficou visível no fechamento de junho. A entrada de fertilizantes nitrogenados no país foi a menor para o mês desde 2015, ficando 60% abaixo da média dos últimos cinco anos. Já o volume de fosfatados caiu para o menor patamar desde 2018, uma retração de 34% em relação à média quinquenal.
O ritmo do segundo semestre agora depende do desenrolar das tensões geopolíticas. Em anos normais, a Argentina importa cerca de metade dos nitrogenados e 80% dos fosfatados que lança no solo. O detalhe é que perto de 75% das compras de nitrogenados costumam concentrar-se justamente nesta metade do ano, antecipando o plantio das safras de Verão.
De olho nessa dependência, a BCR destacou os avanços do projeto para erguer uma fábrica de ureia em Bahía Blanca, aprovado no âmbito do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos. O plano prevê um aporte de US$ 2,7 bilhões para entregar 2,1 milhões de toneladas ao ano.
Se sair do papel, a planta será a maior da América Latina e uma das líderes globais no segmento. Colada ao aumento da extração de gás no campo de Vaca Muerta, a unidade promete reforçar a oferta interna, reduzir a fatura das importações e ainda abrir caminho para a exportação do excedente — tendo o Brasil como o cliente mais provável na região.
Atualmente, a indústria argentina produz entre 1,4 milhão e 1,9 milhão de toneladas de fertilizantes por ano. Em 2025, o parque local entregou 1 milhão de toneladas de nitrogenados, 400 mil de fosfatados e 200 mil à base de enxofre. Essa estrutura garante entre 30% e 35% do consumo do país, hoje estimado em cerca de 5 milhões de toneladas anuais.
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