Bets superam juros e se tornam principal fator de endividamento no Brasil
30 de mar.
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Divulgação
Estudo aponta bets como principal causa de endividamento dos brasileiros.
Um estudo realizado pela FIA Business School em parceria com o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo revelou que o vício em jogos on-line, conhecidos como bets, já é a principal causa de endividamento no Brasil, superando fatores históricos como taxas de juros e uso de crédito.
A pesquisa analisou dados entre 2011 e 2025 e utilizou modelos estatísticos para medir o impacto de diferentes variáveis no orçamento das famílias. O resultado acende um alerta: o coeficiente associado às apostas chegou a 0,2255, enquanto os juros ao consumidor ficaram em 0,0709 e o volume de crédito em 0,0440. Na prática, o impacto das bets é quase o dobro da soma desses dois fatores tradicionais.
O avanço desse cenário está ligado à expansão das apostas esportivas no país, especialmente após a regulamentação ocorrida em 2018, durante o governo do ex-presidente Michel Temer, e ao crescimento acelerado das plataformas a partir de 2019. Estima-se que cerca de 39,5 milhões de brasileiros tenham apostado nos últimos 12 meses, sendo que 19% comprometeram a renda e 17% deixaram de pagar contas básicas para jogar.
Para o economista Sidney Proença, as apostas não são a causa isolada do problema, mas funcionam como um acelerador de uma crise financeira já existente. “O problema é que existe uma combinação perigosa: falta de educação financeira, dificuldade em entender risco, fator emocional de querer recuperar perdas e facilidade de acesso. No fim, a conta não fecha, porque o sistema é feito para a casa ganhar a longo prazo”, afirmou.
O especialista Gean Duarte reforça que a popularização das bets está ligada à facilidade de acesso por meio de celulares e ao uso de gatilhos psicológicos semelhantes aos de cassinos. Segundo ele, a prática cria uma percepção distorcida, em que o jogo deixa de ser visto como gasto e passa a ser encarado como possibilidade de renda.
Além do impacto financeiro direto, o fenômeno também altera o padrão de consumo. Dados da consultoria PwC indicam que, nas classes C, D e E, 76% dos recursos antes destinados ao lazer e 5% do orçamento de alimentação estão sendo redirecionados para apostas. O perfil predominante é de homens entre 18 e 30 anos, de baixa renda, sendo que 58% deles possuem dívidas em atraso há mais de 90 dias.
Os efeitos também se estendem à saúde pública. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima que os danos associados ao jogo problemático gerem prejuízos de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano, podendo chegar a R$ 38,8 bilhões quando considerados impactos como perda de emprego, moradia e encarceramento.
Apesar do crescimento na arrecadação com a tributação do setor — que passou de R$ 38 milhões entre janeiro e setembro de 2024 para R$ 6,8 bilhões no mesmo período de 2025 —, apenas cerca de 1% desses recursos é destinado ao Ministério da Saúde, valor considerado insuficiente diante dos custos sociais.
Levantamento do Instituto de Economia Maurílio Biagi, ligado à Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto, aponta ainda que despesas essenciais, como alimentação e vestuário, vêm sendo substituídas por gastos com apostas. O cenário, além de comprometer o orçamento familiar, aumenta a inadimplência e impacta negativamente o comércio local.
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