Botox pode afetar emoções, percepção social e vida sexual, apontam estudos
há 17 horas
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O Botox, nome comercial popularmente associado à toxina botulínica, é conhecido principalmente por reduzir rugas e linhas de expressão. Mas pesquisas científicas indicam que os efeitos do procedimento podem ir além da aparência e alcançar a maneira como as pessoas expressam e percebem emoções, se relacionam socialmente e até vivenciam a própria sexualidade.
A explicação está relacionada ao chamado feedback facial, hipótese segundo a qual os movimentos dos músculos do rosto não apenas refletem o que uma pessoa sente, mas também podem participar do processamento das emoções. Ao impedir temporariamente a contração de determinados músculos, a toxina botulínica pode modificar os sinais enviados ao cérebro durante a expressão e a percepção de sentimentos.
Estudos de neuroimagem já encontraram alterações na atividade da amígdala, região do cérebro envolvida no processamento emocional, depois da aplicação de toxina botulínica na região entre as sobrancelhas. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports, por exemplo, observou mudanças na atividade da amígdala diante de rostos que expressavam emoções após a paralisação temporária dos músculos responsáveis pelo franzimento da testa.
Pesquisas mais recentes também investigaram como outras pessoas percebem as expressões de quem recebeu Botox. Um estudo publicado em 2026 no Aesthetic Surgery Journal acompanhou 118 avaliadores que analisaram imagens de pessoas antes e depois da aplicação da toxina. Os resultados indicaram uma redução específica na identificação de expressões de raiva e surpresa, enquanto o reconhecimento de alegria e de expressões neutras permaneceu relativamente estável. Os autores ressaltaram que não houve evidência de um efeito geral de “rosto congelado”.
Isso significa que a toxina pode interferir não apenas na capacidade de demonstrar determinadas emoções, mas também na forma como essas emoções são interpretadas por outras pessoas. Como as expressões faciais fazem parte da comunicação não verbal, qualquer alteração nesse mecanismo pode ter reflexos nas interações sociais.
Uma revisão publicada em 2025 reuniu 46 trabalhos sobre a relação entre toxina botulínica e estados emocionais. Os autores apontaram evidências de que a substância pode modificar mecanismos ligados ao processamento das emoções e ao funcionamento da amígdala, além de discutirem possíveis efeitos sobre humor, ansiedade, percepção social e bem-estar. Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacam que esses efeitos ainda estão sendo estudados.
A relação com a sexualidade também foi investigada. Um estudo publicado na Scientific Reports avaliou mulheres submetidas a tratamentos com toxina botulínica e encontrou associação entre o procedimento e mudanças na capacidade de reconhecer emoções e na função sexual. Os pesquisadores levantaram a hipótese de que os movimentos faciais envolvidos na excitação sexual podem contribuir tanto para a comunicação entre parceiros quanto para a própria experiência de excitação.
Nesse estudo, a função sexual foi avaliada por meio do Female Sexual Function Index (FSFI), questionário que considera aspectos como desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor. Os resultados apontaram redução da função sexual após determinados tratamentos, embora o trabalho tenha sido realizado com uma amostra pequena — 24 mulheres tratadas com toxina botulínica e 12 participantes de controle —, o que limita a possibilidade de generalizar os resultados para toda a população.
As evidências, portanto, não indicam que todas as pessoas que fazem Botox terão alterações emocionais, sociais ou sexuais. Os efeitos dependem da região tratada, dos músculos atingidos, da quantidade aplicada e de características individuais. Além disso, diferentes estudos apresentam resultados distintos, e parte das pesquisas ainda possui amostras reduzidas.
O que vem ganhando força entre os pesquisadores é a compreensão de que os músculos da face participam de uma rede mais complexa do que simplesmente produzir expressões visíveis. Ao alterar temporariamente esses movimentos, a toxina botulínica pode modificar alguns dos sinais envolvidos na comunicação emocional e no processamento de sentimentos.
Por isso, além do resultado estético, pesquisadores defendem que os possíveis efeitos sobre expressão emocional e comunicação social também sejam considerados antes da aplicação. Estudos mais amplos ainda são necessários para determinar a frequência, a intensidade e a duração dessas alterações e entender em quais situações elas realmente têm impacto significativo na vida cotidiana.
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