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Nordeste avança como polo de data centers e deve atrair quase 30% dos novos investimentos do setor

há 1 hora
5 min de leitura
Divulgação/Tecto Data Centers
Divulgação/Tecto Data Centers


O Nordeste avança na instalação de centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, impulsionado pela crescente demanda por capacidade computacional e pela disponibilidade de energia renovável. O movimento amplia a presença do setor para além do eixo Rio-São Paulo e coloca a região em posição estratégica para receber novos investimentos em infraestrutura digital.

Uma projeção da Tendências Consultoria, divulgada em junho, indica que o Produto Interno Bruto (PIB) nordestino deve crescer, em média, 3,3% ao ano entre 2028 e 2035. O resultado ficaria acima dos 2,4% estimados para a economia brasileira no mesmo período.

A expansão econômica ocorre em paralelo ao crescimento do mercado de data centers no país. A expectativa é que a capacidade brasileira dobre até 2030, enquanto parte significativa dos empreendimentos em construção já tem sua capacidade contratada antecipadamente.

Dos 660 megawatts (MW) em capacidade de data centers que estavam em construção no Brasil, 56% já haviam sido pré-locados, ou seja, reservados por clientes antes da conclusão das obras.

Outro fator que pode estimular a expansão é o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), programa de incentivos sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em setembro. A medida busca estimular a instalação e a ampliação desses empreendimentos no território nacional.

Nordeste ganha espaço nos investimentos em infraestrutura

O desempenho econômico regional também reforça as perspectivas para o setor. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a atividade econômica do Nordeste cresceu 2,5%, segundo análise do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), vinculado ao Banco do Nordeste (BNB).

O resultado superou a média nacional, de 1,5%, e colocou a região entre as que apresentaram maior crescimento no período, ao lado do Sul.

No setor energético, as perspectivas também apontam para uma participação crescente do Nordeste. Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), incluídas no Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, indicam que a região poderá atrair quase 30% dos novos investimentos em data centers de grande porte.

A disponibilidade de energia proveniente de fontes renováveis, principalmente eólica e solar, é um dos fatores que favorecem essa expansão. O avanço acompanha mudanças no consumo de eletricidade, o crescimento econômico e a necessidade cada vez maior de processamento de dados para serviços digitais e aplicações de inteligência artificial.

Fortaleza abriga o maior data center em operação no Nordeste

Na capital do Ceará, um dos principais exemplos dessa expansão é o TFOR3, conhecido como “Mega Lobster”. O empreendimento pertence à Tecto Data Centers, plataforma controlada pelo BTG Pactual e ligada à V.tal, e foi inaugurado em outubro de 2025, na região da Praia do Futuro.

O centro de dados tem capacidade final projetada de 20 MW, com ampliação prevista em etapas, de acordo com a demanda dos clientes. A empresa pretende elevar a capacidade inicial de 4 MW para 8 MW até o começo de 2027.

A estrutura foi desenvolvida para atender aplicações que exigem grande capacidade de processamento e transmissão de informações, como inteligência artificial, serviços de computação em nuvem e distribuição de conteúdo digital.

O empreendimento possui três andares, sistema próprio de resfriamento, geradores de energia e baterias. Esses recursos ajudam a manter os equipamentos funcionando caso ocorram falhas na distribuição de eletricidade.

O local conta com dez data halls, áreas destinadas à instalação dos servidores utilizados pelos clientes. Esses ambientes concentram os equipamentos responsáveis por armazenar, processar e transmitir grandes volumes de dados.

Além da unidade TFOR3, a Tecto mantém outros dois data centers em Fortaleza, um no Rio de Janeiro e três em Barranquilla, na Colômbia.

Para acelerar sua expansão na América Latina, a companhia prevê investimentos estimados em US$ 2 bilhões entre 2026 e 2028.

Ceará também receberá projeto ligado ao TikTok

Outro empreendimento de grande porte está em desenvolvimento no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, também no Ceará.

A empresa Omnia trabalha na implantação de um data center destinado a atender à ByteDance, companhia chinesa proprietária do TikTok.

A primeira fase do projeto prevê capacidade de 200 MW, com início de operação planejado para 2027.

O empreendimento reforça a posição do Ceará na disputa por investimentos em infraestrutura digital, setor que depende de grandes instalações, fornecimento confiável de eletricidade e conexões de telecomunicações capazes de atender à demanda de empresas e plataformas digitais.

Data centers podem ajudar a aproveitar a energia excedente

O crescimento do setor também desperta o interesse das empresas de geração de energia. A demanda adicional dos centros de processamento de dados pode contribuir para aproveitar parte da eletricidade disponível no sistema brasileiro que, em determinadas situações, não consegue ser totalmente utilizada.

Gilberto Feldman, CEO da Engeform, afirmou que a chegada de novos data centers pode ajudar a reduzir os cortes de geração impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que atingem principalmente usinas eólicas e solares em determinadas circunstâncias.

“Hoje nós temos uma sobra de energia no país, que inclusive contribui muito para os cortes, e a vinda dos data centers deve contribuir para a redução dos cortes”, afirmou o executivo.

Segundo Feldman, a disponibilidade de recursos naturais permite ao Brasil oferecer eletricidade de fontes limpas e renováveis a preços competitivos. Para ele, o Nordeste apresenta condições favoráveis para atrair atividades de processamento de dados que necessitam de grandes volumes de energia.

Os cortes de geração, também conhecidos pelo termo em inglês curtailment, são medidas adotadas para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico.

Entre os fatores que podem provocar essas restrições estão limitações na infraestrutura de transmissão, problemas em linhas elétricas, falta de capacidade para transportar toda a energia produzida e situações em que a oferta supera a demanda.

Nessas circunstâncias, parte da eletricidade que poderia ser gerada por usinas precisa deixar de ser produzida. A instalação de consumidores de grande porte pode ajudar a absorver parte desse excedente, desde que existam condições técnicas para conectar os empreendimentos à rede.

O executivo, entretanto, ressalta que a expansão dos data centers precisa ser acompanhada por investimentos na transmissão de energia. Sem uma infraestrutura adequada, a eletricidade disponível nas regiões produtoras pode não chegar aos centros de consumo.

Expansão exige atenção à infraestrutura e à conta de luz

Apesar das oportunidades, o avanço dos data centers também envolve desafios relacionados à infraestrutura, à regulamentação e aos impactos ambientais.

A instalação de empreendimentos de grande porte exige planejamento para garantir o fornecimento de eletricidade, a conexão às redes de transmissão, o funcionamento dos sistemas de refrigeração e a continuidade das operações.

A necessidade de ampliar a infraestrutura elétrica também levanta discussões sobre a distribuição dos custos dos investimentos e seus possíveis efeitos sobre as tarifas pagas pelos consumidores.

Questionado sobre o impacto na conta de luz, Feldman afirmou que os efeitos dependem das regras regulatórias aplicadas ao setor e defendeu medidas para proteger os consumidores de menor porte.

“É importante que o governo tenha também essa visão para que o pequeno consumidor se proteja de um eventual impacto na tarifa”, ponderou.

O avanço do Nordeste como polo de data centers, portanto, combina oportunidades econômicas, disponibilidade de energia renovável e demanda crescente por processamento de dados. A concretização desse potencial, porém, dependerá da capacidade de expandir a infraestrutura necessária e de estabelecer condições regulatórias que permitam atender aos novos empreendimentos sem comprometer a confiabilidade do sistema elétrico.

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