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Estudo no Brasil testa tratamento injetável contra HIV com aplicações a cada quatro meses

há 1 hora
5 min de leitura


O Brasil começou a testar uma nova estratégia de tratamento contra o vírus da imunodeficiência humana (HIV) que poderá reduzir a frequência das medicações de uso diário. A pesquisa internacional avalia uma combinação de medicamentos antirretrovirais aplicada por injeção a cada quatro meses, o que representaria apenas três ciclos de aplicações por ano.

O estudo, chamado CUATRO, investiga se a formulação de ação ultralonga consegue manter o vírus controlado com segurança e eficácia durante intervalos maiores entre as doses. A pesquisa é conduzida internacionalmente com participação da farmacêutica GSK, por meio da ViiV Healthcare, e envolve voluntários de diferentes países, incluindo o Brasil.

Uma das participantes brasileiras é Pisci Bruja, antropóloga, ativista trans e doutoranda em Saúde Coletiva pela Universidade de São Paulo (USP). Aos 37 anos, ela se tornou a primeira pessoa no país a iniciar o esquema experimental com aplicações a cada quatro meses.

Pisci vive com HIV há 13 anos e, durante esse período, utilizou comprimidos diariamente para controlar a infecção. A última dose oral foi tomada em 21 de setembro de 2026. No dia seguinte, ela iniciou a nova etapa do tratamento experimental, com a aplicação dos medicamentos no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids, em São Paulo.

A mudança representa uma alteração importante em sua rotina, embora a eficácia e a segurança do novo intervalo ainda precisem ser confirmadas pelos resultados do ensaio clínico.

Como funciona o tratamento injetável

A pesquisa avalia a combinação de dois antirretrovirais: cabotegravir e rilpivirina. Os medicamentos atuam em diferentes etapas do ciclo de reprodução do HIV, ajudando a impedir que o vírus se multiplique no organismo.

As duas substâncias já são utilizadas em formulações injetáveis de ação prolongada em alguns países, mas com intervalos menores entre as aplicações. O estudo CUATRO pretende verificar se uma formulação capaz de manter a ação dos medicamentos por mais tempo pode oferecer resultados comparáveis aos do esquema administrado a cada dois meses.

No protocolo experimental, os medicamentos são aplicados por via intramuscular, na região dos glúteos. O procedimento envolve duas injeções, uma de cada substância.

Se a estratégia demonstrar eficácia e segurança, poderá reduzir de seis para três o número de ciclos de aplicação por ano em comparação com o esquema bimestral.

A proposta é facilitar a continuidade do tratamento para pessoas que vivem com HIV, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades para manter o uso diário de comprimidos.

Os pesquisadores também acompanham possíveis efeitos adversos, a tolerabilidade dos medicamentos e a capacidade de manter a carga viral em níveis indetectáveis durante todo o intervalo entre as aplicações.

Quem participa do estudo no Brasil?

O recrutamento brasileiro incluiu dezenas de voluntários que atendiam aos critérios estabelecidos pela pesquisa. No país, cerca de 65 participantes já haviam sido incluídos no estudo, segundo informações divulgadas por pesquisadores envolvidos no projeto.

No Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, a seleção foi realizada entre pessoas interessadas em participar, considerando requisitos clínicos e a estabilidade do tratamento contra o HIV.

A pesquisa não é destinada indiscriminadamente a todas as pessoas que vivem com o vírus. Os participantes precisam cumprir os critérios específicos do protocolo, que incluem condições relacionadas ao controle da infecção e ao acompanhamento médico.

Pisci foi a primeira brasileira a iniciar o esquema de quatro meses. Além de participar da pesquisa, ela atua na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV e compartilha discussões sobre tratamento, acesso à saúde e enfrentamento do estigma.

A experiência também chama a atenção para as dificuldades que algumas pessoas enfrentam ao precisar tomar medicamentos diariamente. Embora os comprimidos sejam eficazes para controlar o HIV, a rotina de tratamento pode envolver desafios pessoais, sociais e logísticos.

Por que reduzir a frequência das doses é importante?

O tratamento antirretroviral transformou a vida de pessoas que vivem com HIV, permitindo controlar a multiplicação do vírus e reduzir o risco de progressão da infecção. Entretanto, a eficácia depende da continuidade do tratamento conforme a orientação médica.

Para algumas pessoas, tomar medicamentos todos os dias pode ser difícil devido à rotina de trabalho, ao acesso aos serviços de saúde ou ao receio de que outras pessoas descubram sua condição.

Uma terapia de longa duração pode diminuir a necessidade de lembrar diariamente dos comprimidos e oferecer maior discrição. Também pode facilitar a organização da rotina de quem precisa conciliar o tratamento com outras responsabilidades.

No entanto, as aplicações periódicas exigem comparecimento aos serviços de saúde nas datas programadas. Portanto, a alternativa também depende de acesso regular às unidades responsáveis pelo acompanhamento.

Além disso, o tratamento injetável pode provocar reações no local da aplicação, como dor, vermelhidão ou inchaço. A ocorrência e a intensidade desses efeitos precisam ser monitoradas durante o estudo.

Os pesquisadores também avaliam se o intervalo ampliado consegue manter o controle viral durante todo o período previsto, sem aumentar o risco de falha terapêutica.

O tratamento já está disponível no Brasil?

Não. O esquema experimental de aplicações a cada quatro meses ainda está sendo investigado e não pode ser considerado uma alternativa já aprovada para uso rotineiro no país.

A combinação de cabotegravir e rilpivirina possui versões injetáveis autorizadas em outros mercados, com intervalos de administração menores. Isso não significa, porém, que o esquema experimental de quatro meses esteja aprovado para utilização geral no Brasil.

O estudo precisa demonstrar que a estratégia mantém a eficácia e apresenta um perfil de segurança aceitável antes que sua eventual adoção clínica possa ser considerada.

O Ministério da Saúde informou que ainda não há discussão sobre a incorporação desse tratamento injetável ao Sistema Único de Saúde (SUS). Entre os fatores estão a ausência de registro dos medicamentos injetáveis no Brasil para essa utilização e a necessidade de avaliar custos, benefícios e condições de implementação.

O país já dispõe de diversas opções de tratamento antirretroviral, oferecidas gratuitamente pelo SUS. A eventual inclusão de uma nova alternativa dependerá das evidências científicas e dos procedimentos regulatórios pertinentes.

Quando os resultados serão conhecidos?

O estudo CUATRO é um ensaio clínico internacional de fase 3, etapa em que os pesquisadores avaliam a eficácia e a segurança de uma estratégia terapêutica em um grupo maior de participantes.

A previsão é acompanhar aproximadamente 564 voluntários em diferentes países, com conclusão planejada para 2029.

Durante o acompanhamento, os pesquisadores verificarão se a combinação de cabotegravir e rilpivirina mantém a carga viral controlada, além de registrar efeitos adversos e outros indicadores de segurança.

Os resultados serão fundamentais para determinar se as aplicações quadrimestrais podem se tornar uma alternativa viável ao esquema injetável mais frequente.

Até que existam dados suficientes e as autorizações necessárias, os pacientes devem seguir o tratamento prescrito por seus médicos. Pessoas que vivem com HIV não devem interromper ou substituir os medicamentos atuais por conta própria.

A pesquisa representa mais uma frente de desenvolvimento de terapias de longa duração contra o HIV. Se os resultados forem favoráveis, a estratégia poderá ampliar as opções de tratamento e tornar a rotina de cuidados menos frequente para determinados pacientes.

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