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Cerveja de sorgo impulsiona novas aplicações do grão no Brasil, cuja produção mais que triplicou em cinco anos

há 15 minutos
6 min de leitura

O sorgo, cereal conhecido pela resistência à seca e pelo custo relativamente baixo de cultivo, começa a conquistar espaço em mercados que vão além da alimentação animal. No Brasil, uma empresa multinacional do setor de sementes desenvolveu um protótipo de cerveja produzida com o grão para demonstrar seu potencial em produtos de maior valor agregado.

A iniciativa acompanha a expansão da cultura no país e a crescente demanda internacional, especialmente na Ásia. Além de ser utilizado na fabricação de ração animal e na produção de etanol, o sorgo pode servir como ingrediente para bebidas e alimentos, incluindo farinhas, biscoitos e bolos.

A cerveja foi desenvolvida pela Advanta Seeds, empresa que pertence ao grupo indiano UPL Limited e tem sede global em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. No Brasil, a companhia está instalada em Campinas, no interior de São Paulo, e trabalha principalmente com desenvolvimento, produção e comercialização de sementes.

Segundo Pedro Lima, gerente de marketing da Advanta Seeds, a ideia foi apresentar ao consumidor possibilidades de utilização de um cereal que ainda é menos conhecido no país do que culturas como milho e soja.

A fabricação da bebida contou com a participação do cervejeiro paulistano Alexandre Xerxenevsky, da Xcraft Beer, que utilizou sorgo produzido no interior paulista. A receita foi inspirada no estilo American Pale Ale.

Como é feita a cerveja de sorgo

Um dos principais desafios do projeto foi produzir a bebida a partir do grão in natura, sem utilizar malte de sorgo, que facilitaria o processo cervejeiro.

Segundo Xerxenevsky, foi necessário realizar etapas adicionais para tornar o amido presente no cereal disponível e convertê-lo em açúcares fermentáveis. O procedimento envolve gelatinização e atuação de enzimas, tornando a fabricação mais complexa do que a produção com maltes convencionais.

A receita utiliza aproximadamente 70 quilos de sorgo para produzir 300 litros de cerveja.

Embora o cereal seja considerado uma matéria-prima de baixo custo, o processamento adicional aumenta o consumo de energia na cervejaria e reduz parte da vantagem econômica do ingrediente. Além disso, despesas com latas, rótulos e impostos continuam existindo independentemente do grão utilizado.

No sabor, o cervejeiro descreve uma característica de cereal que lembra quinoa. Ele considera a bebida agradável, embora diferente das cervejas às quais o consumidor brasileiro está mais acostumado.

O projeto também abriu espaço para discutir o aproveitamento dos resíduos gerados durante a fabricação. Uma das possibilidades levantadas é utilizar o material restante em preparações culinárias, como quibes, embora essa aplicação ainda dependa de desenvolvimento.

A proposta, portanto, não se limita à produção de uma cerveja diferente. A iniciativa busca mostrar que o sorgo pode ser utilizado em produtos destinados ao consumo humano e ampliar as oportunidades comerciais para os produtores brasileiros.

Grão naturalmente sem glúten amplia possibilidades

Uma das características do sorgo é a ausência natural de glúten, proteína presente em cereais como trigo, cevada e centeio.

Essa particularidade pode favorecer o desenvolvimento de produtos destinados a pessoas que precisam evitar o glúten, desde que a fabricação também impeça a contaminação cruzada com ingredientes que contenham essa proteína.

Segundo a Advanta Seeds, a cerveja desenvolvida no projeto tem aproximadamente 50% de sorgo em sua composição e é considerada um produto sem glúten.

O cereal também pode ser empregado na produção de farinhas, biscoitos e bolos, ampliando sua presença na indústria alimentícia.

Apesar das possibilidades, a utilização do grão em produtos de maior valor agregado ainda depende de fatores como processamento industrial, disponibilidade de ingredientes adequados, custos de fabricação e aceitação do consumidor.

Para a empresa, a experiência com a cerveja funciona como uma demonstração prática de que o sorgo pode ganhar novas aplicações, além dos usos tradicionais no campo.

Advanta aposta na expansão da cultura no Brasil

O trabalho da Advanta continua concentrado no desenvolvimento e na comercialização de sementes. A empresa também introduziu tecnologias voltadas à cultura, incluindo híbridos com tolerância a herbicidas, que podem facilitar o manejo das lavouras.

Pedro Lima afirma que a companhia procura estimular o cultivo do sorgo no país e ampliar o conhecimento sobre as possibilidades de utilização do grão.

Segundo o levantamento interno da empresa, a área cultivada com sorgo passou de uma estimativa entre 800 mil e 900 mil hectares, observada quatro ou cinco anos antes, para perto de 2,5 milhões de hectares.

A expansão acompanha o aumento da procura pelo cereal para diferentes finalidades, incluindo alimentação animal, produção de etanol e exportação.

Uma das possibilidades apontadas pela empresa é o fornecimento de sorgo para usinas de etanol que já processam milho, especialmente na região do Cerrado. A utilização do cereal pode ampliar as alternativas de matéria-prima para as indústrias e criar novas oportunidades comerciais para os agricultores.

Além da produção de bebidas, a companhia vê potencial para ampliar o uso do grão em alimentos industrializados.

Produção brasileira mais que triplicou em cinco anos

Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram a dimensão do avanço da cultura no país.

A produção brasileira de sorgo passou de 2,08 milhões de toneladas na safra 2020/21 para 7,37 milhões de toneladas em 2025/26. O aumento foi de 253,6% em cinco anos, ou seja, o volume produzido mais que triplicou no período.

A área plantada também cresceu. Segundo a série histórica da Conab, o cultivo chegou a 2,17 milhões de hectares em 2025/26, expansão de 150,9% em relação ao início do intervalo analisado.

Para a safra 2026/27, a companhia projeta uma colheita de 8,03 milhões de toneladas, crescimento estimado de 9% sobre o ciclo anterior.

Parte da expansão ocorreu porque o sorgo passou a ocupar áreas nas quais o milho de segunda safra não pôde ser semeado dentro da janela de plantio considerada adequada.

Na temporada 2025/26, o aumento da área cultivada compensou a redução da produtividade provocada pela diminuição e pela irregularidade das chuvas, permitindo que a produção total avançasse.

A produtividade também apresentou crescimento ao longo dos anos. Entre as safras 2021/22 e 2025/26, passou de 2.760 para 3.396 quilos por hectare, alta de aproximadamente 23%, embora tenham ocorrido oscilações entre os ciclos.

Já a estimativa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2026 apontava produção de 6 milhões de toneladas, aumento de 11% na comparação anual. Os números do IBGE e da Conab são estimativas distintas e podem apresentar diferenças metodológicas e de atualização.

China amplia oportunidades para o sorgo brasileiro

O mercado internacional é outro fator importante para a expansão da cultura. Em setembro de 2025, a China autorizou a importação de sorgo brasileiro, abrindo uma nova possibilidade para as exportações nacionais.

Naquele momento, ainda era necessário concluir os registros dos produtores e exportadores habilitados para viabilizar os embarques.

Segundo Pedro Lima, volumes expressivos foram exportados para o mercado chinês em agosto e setembro de 2026. O movimento amplia as possibilidades de comercialização de um cereal que tradicionalmente tinha participação menor no comércio exterior brasileiro quando comparado à soja e ao milho.

A procura internacional aumenta a concorrência por áreas agrícolas e pode influenciar as decisões dos produtores sobre o que plantar na segunda safra.

A StoneX avalia que os custos elevados de produção do milho e a oferta mais restrita de sorgo favorecem a expansão da cultura na safra 2026/27.

Raphael Bulascoschi, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, destaca que a demanda global, o consumo pelas usinas de etanol e o crescimento das exportações estão entre os fatores que sustentam as perspectivas para o cereal.

Segundo o analista, o aumento da área de sorgo pode pressionar a disponibilidade de terras destinadas ao cultivo de milho.

A expansão, portanto, não representa apenas uma oportunidade para diversificar a agricultura brasileira. Ela também pode modificar a distribuição das culturas nas lavouras e influenciar a oferta de grãos utilizados na alimentação animal e na indústria.

Novos usos podem agregar valor à produção

A resistência à seca e o custo de cultivo ajudaram a consolidar o sorgo na agricultura brasileira desde a década de 1970. Agora, a combinação entre crescimento da produção, abertura de mercados internacionais e desenvolvimento de novos produtos amplia as perspectivas para o cereal.

A fabricação de cerveja é um exemplo de como o grão pode ser explorado em segmentos diferentes daqueles em que tradicionalmente é utilizado.

Para que essas alternativas se tornem economicamente viáveis em maior escala, entretanto, será necessário desenvolver processos industriais mais eficientes, ampliar a oferta de ingredientes processados e conquistar espaço entre consumidores e fabricantes.

A Advanta Seeds considera que o sorgo tem potencial para crescer ainda mais no Brasil, tanto na produção de etanol e na alimentação animal quanto no consumo humano.

O avanço da cultura e a abertura de novos mercados podem ampliar as oportunidades para agricultores e indústrias, desde que os custos de produção, a demanda e a capacidade de processamento acompanhem o crescimento da oferta.

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