top of page
1e9c13_a8a182fe303c43e98ca5270110ea0ff0_mv2.gif

Nova bolsa de valores do Rio é anunciada em tempos de ‘seca’ de IPOs no Brasil

  • gazetadevarginhasi
  • 23 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura
Foto: Divulgação/B3/TouroInc

O anúncio de uma nova bolsa de valores no Rio de Janeiro foi celebrado pelo prefeito Eduardo Paes e por Claudio Pracownik, presidente da Americas Trading Group (ATG). Após 20 anos, a cidade volta a ter uma bolsa de valores, trazendo esperanças de revitalização do mercado financeiro local. A notícia, entretanto, chega em um momento delicado para o mercado de IPOs (Ofertas Públicas de Ações) no Brasil, que enfrenta uma seca de quase três anos, durante os quais nenhuma empresa brasileira se lançou na bolsa.

O último IPO brasileiro aconteceu em dezembro de 2021, quando o Nubank abriu capital na Bolsa de Valores de Nova York. Esse evento marcou um ano recorde para o Brasil, com 46 empresas registrando ofertas públicas primárias de ações. Contudo, desde então, o cenário econômico global sofreu mudanças drásticas. O aumento dos juros, tanto no Brasil quanto em economias desenvolvidas como os Estados Unidos, reduziu o apetite dos investidores por ativos de renda variável. Com juros elevados, mesmo os investidores em países desenvolvidos preferem direcionar seu dinheiro para investimentos mais seguros, como os Treasuries norte-americanos.

Um relatório da consultoria EY revelou que o número de IPOs globais encolheu 12% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2023, caindo de 624 para 551 ofertas registradas. O volume financeiro movimentado no mesmo intervalo também diminuiu 16%, passando de US$ 62,5 bilhões para US$ 52,2 bilhões. Segundo especialistas consultados pelo g1, a inflação persistente, que impede os Bancos Centrais de reduzir os juros, ainda deve adiar a volta dos IPOs para o final deste ano ou até para o começo de 2025.

Especialistas identificam três principais fatores para a escassez de IPOs no Brasil: a demora na queda de juros nos EUA, a retirada de recursos estrangeiros da bolsa brasileira e a interrupção dos cortes na taxa Selic pelo Banco Central brasileiro.

Juros nos Estados Unidos: Um dos principais motivos para a redução do interesse das empresas em abrir capital é a frustração com o adiamento do ciclo de cortes de juros nos EUA por parte do Federal Reserve (Fed). Em um cenário de juros mais altos, investidores preferem direcionar o dinheiro para os Treasuries, considerados os ativos mais seguros do mundo. Com uma rentabilidade atrativa na segurança, o interesse por bolsas de valores diminui. No final do ano passado, a melhora dos indicadores de inflação nos EUA gerou expectativas de cortes de juros pelo Fed entre março e maio, com seis a sete reduções previstas ao longo do ano. Porém, essa expectativa não se concretizou devido à persistência dos índices de preços norte-americanos e à aceleração da atividade econômica dos EUA.

Fluxo estrangeiro no Brasil: A maior atratividade dos títulos públicos norte-americanos reduziu ainda mais o interesse em investimentos de risco nos países emergentes, como o Brasil. Investidores estrangeiros respondem por mais da metade do volume movimentado mensalmente na B3, a bolsa de valores brasileira. Em 2024, até 12 de julho, mais de 30 bilhões de reais em recursos estrangeiros foram retirados do mercado nacional. O sócio e especialista em IPOs da EY Brasil, Rafael Santos, explica que o cenário global de juros e inflação contribuiu para essa retirada.

Interrupção de cortes na Selic: Outro fator que afasta investidores de ativos de renda variável é a interrupção do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central brasileiro. A pausa nos cortes da Selic foi motivada por um reajuste das expectativas de inflação, que passou a projetar um aumento mais rápido dos preços, afastando-os da meta do BC. Esse ambiente de incerteza sobre os preços torna o BC mais cauteloso em relação ao patamar necessário para manter o controle da inflação.

Para que o mercado de IPOs se recupere, especialistas acreditam que é necessário ver uma melhora concreta no cenário econômico global. A previsão é que o mercado volte a se aquecer apenas no final deste ano ou no começo de 2025. Segundo dados da ferramenta FedWatch do CME Group, o mercado acredita atualmente em uma chance de 85,6% de que o Fed inicie o ciclo de cortes dos juros norte-americanos em setembro. A redução de juros nos Estados Unidos pode diminuir a retirada de recursos da bolsa brasileira e possibilitar que o BC brasileiro volte a cortar os juros.

O último relatório Focus do Banco Central projeta uma Selic de 10,50% ao ano para o final de 2024 e de 9,5% ao ano para 2025. Isso indica que, pelas projeções do mercado, um novo corte da taxa básica brasileira só deve ocorrer no próximo ano. O diretor do Bradesco BBI, Felipe Thut, menciona que o mercado também aguarda os resultados das eleições presidenciais norte-americanas para ajustar as expectativas. As projeções sobre o pleito ainda estão envoltas em incertezas, impactando as políticas econômicas e, consequentemente, a inflação nos EUA.

Após tanto tempo sem novas ofertas públicas de ações, a retomada desse mercado deve começar com empresas mais robustas. O executivo do Bank of America, Bruno Saraiva, destaca que operações grandes são as primeiras a voltar, gerando liquidez no mercado secundário. Setores como infraestrutura, energia, saneamento e logística são prováveis destaques na recuperação do mercado.

Para Rafael Santos da EY, a expectativa é que a retomada dos IPOs brasileiros ocorra primeiro no mercado norte-americano, com mais companhias se preparando para abrir capital nas bolsas de Wall Street. Até agora, o índice S&P 500 acumula um avanço de mais de 15% neste ano. Ele explica que as empresas buscam liquidez e veem mais capital disponível para ativos de risco no exterior. No entanto, ele alerta que não são todas as empresas que estão prontas para o mercado norte-americano, que é mais rigoroso.

A nova bolsa do Rio pode ajudar o mercado de IPOs?
Para os analistas, a nova bolsa carioca terá pouco efeito no número de empresas que decidirão abrir capital no Brasil, apesar de ser vista como uma alternativa positiva para trazer mais maturidade ao mercado. A ATS (American Trading Service), inicialmente, não fará listagem de novas empresas, focando na dupla negociação de ativos já negociados na B3. Claudio Pracownik destaca a importância de criar um ecossistema próprio para empresas de médio porte, incluindo estímulos financeiros, regras de governança e educação financeira.

O secretário municipal de desenvolvimento urbano e econômico do Rio, Chicão Bulhões, acredita que a nova bolsa trará competitividade com a B3, beneficiando o mercado com melhor atendimento, produtos e preços. Ele estima que a nova bolsa também impactará positivamente a arrecadação da cidade.

A ATS, em sua primeira fase de operação, incluirá mercado de ações à vista, aluguel de ações e negociação de cotas de fundos. Pracownik está confiante na adesão das empresas, destacando que maior liquidez é benéfica para os acionistas e o preço das ações. Ele também sugere a criação de estímulos fiscais e redução de custos de listagem para atrair empresas de médio porte ao mercado de capitais. O processo de mudança de nome da nova bolsa ainda está em curso, mas a expectativa é que a iniciativa traga benefícios significativos ao mercado financeiro brasileiro.
Fonte: G1

Comentários


Gazeta de Varginha

bottom of page