Operação contra bets ilegais bloqueia R$ 3,4 bilhões e investiga 184 pessoas e empresas
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Polícia Civil do Distrito Federal/ Divulgação
A Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira (5), a Operação Azzardo para desarticular um esquema de apostas ilegais que movimentou cerca de R$ 1 bilhão por meio de empresas de fachada. Por determinação judicial, foram bloqueados até R$ 3,483 bilhões em contas e ativos financeiros de 64 pessoas físicas e 120 empresas.
A ação ocorre no Distrito Federal e em outros cinco estados: São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte. Cerca de 200 policiais civis participam das diligências, que incluem o cumprimento de 50 mandados de busca e apreensão. Desse total, 24 são executados no Distrito Federal.
Na capital paulista, os alvos incluem endereços na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em Pinheiros e no polo empresarial da Vila Olímpia. Em Goiás, as equipes atuam em Goiânia, Planaltina de Goiás e Valparaíso de Goiás.
Além do bloqueio financeiro, a Justiça determinou a indisponibilidade de bens mantidos em instituições supervisionadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Também foram suspensas as inscrições no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e os registros nas juntas comerciais de 100 empresas e empresários individuais.
Outra medida impede que os investigados abram novas contas bancárias pelo período de 90 dias. A decisão ainda autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas. Veículos encontrados durante as buscas também poderão ser alvo de sequestro judicial.
Investigação começou após identificação de plataformas sem autorização
As apurações tiveram início há aproximadamente cinco meses, depois que a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda identificou plataformas de apostas de quota fixa, conhecidas como bets, que operavam sem autorização federal.
A investigação aponta que os pagamentos feitos pelos apostadores, principalmente por meio de transferências via Pix, eram direcionados a empresas que declaravam exercer atividades sem relação com o mercado de apostas.
Entre os estabelecimentos identificados estão uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô, ambas localizadas em Sobradinho, no Distrito Federal. Segundo os investigadores, essas empresas eram utilizadas para receber os valores, concentrar os recursos e redistribuí-los entre pessoas, outras empresas e instituições de pagamento.
As diligências também identificaram dezenas de empresas abertas entre fevereiro e julho de 2026. Parte delas apresentava capitais sociais idênticos e endereços concentrados em regiões como Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia.
Em alguns dos locais registrados oficialmente, os policiais encontraram imóveis vazios ou estabelecimentos comerciais que não correspondiam às atividades declaradas pelas empresas. Em um único lote de Ceilândia, dez companhias indicavam o mesmo número de telefone.
As informações financeiras analisadas apontam movimentações de aproximadamente R$ 739 milhões. A investigação também identificou operações relacionadas a uma fintech de São Paulo e empresas do mesmo grupo econômico, com movimentação próxima de R$ 1 bilhão.
Fintech e empresas ligadas ao grupo também são investigadas
A apuração alcança uma instituição financeira paulista autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto. Segundo os investigadores, simulações realizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas mostraram que cobranças via Pix feitas por sites investigados direcionavam os pagamentos para diversas contas de empresas de fachada mantidas na fintech.
A instituição também mantinha contas de outras empresas ligadas ao esquema, com alternância de procuradores. Informações financeiras relativas à fintech e a companhias do mesmo grupo indicaram movimentações próximas de R$ 1 bilhão, incluindo repasses a uma empresa investigada e pagamentos relacionados a casas de apostas sem autorização.
Em 30 de julho de 2026, o Banco Central havia divulgado a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da instituição.
A fintech, duas empresas do mesmo grupo e seus dirigentes estão entre os alvos das medidas de busca e bloqueio realizadas nesta quinta-feira. A decisão judicial, entretanto, estabelece uma restrição específica: no caso da instituição financeira, o bloqueio alcança somente os recursos próprios da sociedade. As contas de clientes que não são investigados foram preservadas.
Empresas com autorizações estaduais também entraram na apuração
A investigação também envolve três empresas que conseguiram autorizações de loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro para atuar no mercado de apostas. Essas permissões eram limitadas a determinados territórios, marcas e sites, e nenhuma delas abrangia as plataformas investigadas.
As autorizações estaduais, além disso, deixaram de valer após o prazo de transição previsto na Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em 25 de setembro, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa.
As três empresas foram incluídas na investigação por causa de vínculos societários e movimentações financeiras consideradas suspeitas.
Uma delas era administrada pelo grupo responsável por uma das principais empresas concentradoras dos recursos. A companhia apresentava mudanças sucessivas de sócios e procuradores, além de manter a maior parte de suas contas em instituições que não eram credenciadas pela loteria estadual. Quatro dessas contas haviam sido abertas antes mesmo da autorização.
Outra empresa era um consórcio constituído apenas 15 dias antes de receber autorização estadual. Segundo a investigação, ele reunia companhias apontadas como destinatárias de dinheiro de vítimas de estelionato e que também realizavam transações com empresas de fachada.
A terceira aparece nas informações financeiras como uma das responsáveis por concentrar valores recebidos inicialmente pelas contas utilizadas para recolher os pagamentos dos apostadores.
A Operação Azzardo busca aprofundar a identificação dos envolvidos, rastrear o caminho do dinheiro e interromper a estrutura financeira utilizada pelas plataformas de apostas ilegais. As medidas determinadas pela Justiça atingem pessoas e empresas investigadas, sem representar, por si só, uma condenação dos alvos.
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