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Opinião com Luiz Fernando Alfredo - 01/09/2026

  • há 23 minutos
  • 5 min de leitura
Luiz Fernando Alfredo
Luiz Fernando Alfredo

O QUE A GLOBO NÃO PERGUNTOU A LULA

Depois de ouvir o presidente no Jornal Nacional, ficaram perguntas demais sem resposta - e talvez sejam justamente as perguntas que mais interessam ao eleitor.
Lula já dispõe de palanques, partidos, militância, publicidade, televisão e décadas de experiência política.
A entrevista concedida por Lula ao Jornal Nacional, em 27 de agosto, deveria ser examinada não apenas pelo que o presidente disse, mas também pelas perguntas que ficaram pelo caminho.
E algumas respostas foram tão frágeis que sequer precisaram da oposição para serem contestadas. Bastaram os fatos.
Checagens independentes apontaram erros ou imprecisões nas declarações de Lula sobre o PIB, o déficit fiscal, o ressarcimento dos aposentados prejudicados pelo INSS e sua relação com Roberta Luchsinger.
Sobre esta última, Lula afirmou que não a conhecia, nunca a tinha visto e nunca estivera ao lado dela, fora os adjetivos com que ele a definiu.
O Estadão Verifica classificou a afirmação como falsa e identificou registros de pelo menos cinco ocasiões em que os dois estiveram juntos.
Não é necessário chamar Lula de mentiroso.
Basta mostrar a fotografia.
O presidente e a verdade conveniente
Lula afirmou também que o Brasil estava havia mais de dez anos sem crescer e que o PIB só voltou a crescer acima de 2% depois de sua volta à Presidência. Não é verdade.
Segundo os dados do IBGE utilizados pelo Estadão Verifica, o PIB cresceu 4,6% em 2021 e 3% em 2022.
Quando um presidente apresenta ao eleitor uma história econômica que não corresponde aos números oficiais, o cidadão tem o direito de perguntar.
Por que a realidade precisa ser adaptada ao discurso?
O INSS: quem vai devolver o dinheiro?
Lula afirmou que não havia aposentado vítima da fraude do INSS que não tivesse sido ressarcido.
A checagem do Estadão classificou a afirmação como enganosa: cerca de 659.920 aposentados e pensionistas aptos ao ressarcimento ainda não haviam aderido ao acordo para receber os valores.
É exatamente esse tipo de exagero que transforma uma informação verdadeira em uma narrativa enganosa.
Lula disse que, se seu filho tiver cometido algum crime, deverá responder como qualquer cidadão. Disse só para os brasileiros crédulos.
Fábio Luís Lula da Silva está sendo investigado pela Polícia Federal em inquéritos relacionados ao caso dos descontos indevidos do INSS. As investigações analisam mensagens, viagens, relações com lobistas e possíveis tentativas de intermediação de interesses privados junto a órgãos públicos. A defesa nega irregularidades.
Não há condenação.
Investigação não é condenação.
Mas investigação também não é invenção.
Outra pergunta que merece esclarecimento é a permanência de Lulinha na Espanha em meio às investigações. Seria “fuga”. A defesa nega.
Então, por que o filho do presidente deixou o Brasil justamente enquanto seu nome passou a aparecer no centro de uma investigação tão delicada?
Banco Master: quem conhecia quem?
Agora chegamos ao Banco Master.
E aqui Brasília precisa tomar cuidado.
Não considero intelectualmente honesto transformar o caso em “escândalo da esquerda”.
As conexões políticas investigadas alcançam diferentes grupos.
Mas isso não significa que Lula possa se apresentar como mero espectador.
O próprio presidente confirmou que recebeu Daniel Vorcaro, do Banco Master, após pedido de Guido Mantega, e afirmou que a investigação sobre o banco seria técnica, sem interferência política.
O que exatamente foi tratado naquela reunião?
Quem mais, dentro do governo, manteve contato com Vorcaro e com seus interesses?
Porque, quando dinheiro e poder se encontram, a ideologia costuma desaparecer rapidamente.
A pergunta que Lula talvez menos gostasse
O próprio Lula reconheceu recentemente que participou da criação do Foro de São Paulo, em 1990. Segundo ele, a organização foi criada para aproximar partidos de esquerda da América Latina.
Não perguntaram: qual é hoje a influência do Foro de São Paulo sobre a política brasileira e latino-americana?
E o PT continua defendendo politicamente governos e movimentos associados ao Foro?
É uma pergunta sobre uma organização da qual o próprio Lula reconhece ter sido fundador.
Venezuela: por que a régua muda?
Aqui eu gostaria de ouvir Lula sem rodeios.
O senhor considera Nicolás Maduro um presidente democraticamente legítimo?
Se considera, por quê?
Se não considera, por que o Brasil mantém uma postura tão cautelosa diante do regime venezuelano?
Porque democracia não pode ser uma palavra que muda de significado conforme a ideologia do governante.
O PT e o PCdoB chegaram a assinar, em 2024, resolução do Foro de São Paulo reconhecendo a vitória de Maduro nas eleições venezuelanas.
Então a pergunta é inevitável:
Lula concorda com essa posição?
Qual é exatamente o projeto de família que Lula defende para o Brasil?
Qual é sua posição sobre aborto?
Qual deve ser o papel do Estado na formação moral e educacional das crianças?
O problema da política brasileira é que muitos candidatos dizem exatamente aquilo que acreditam que o eleitor quer ouvir.
Depois da eleição, descobrimos o restante.
Drogas: o traficante é vítima?
E existe uma declaração de Lula que merece ser lembrada.
Ao comentar o combate às drogas, o presidente afirmou que o traficante também seria vítima do usuário.
Mas talvez a frase revele algo maior.
Compreender as causas sociais do crime é uma coisa.
Transformar o criminoso em vítima é outra.
A diplomacia do palanque
Lula gosta de se apresentar como grande estadista internacional.
Mas às vezes tenho a impressão de que confunde visibilidade com influência.
Presidente brasileiro não é líder mundial por decreto.
Não basta tirar fotografias com presidentes estrangeiros.
Não basta discursar na ONU.
Não basta tentar mediar todas as guerras.
Diplomacia é resultado.
É capacidade de negociação.
É defesa dos interesses nacionais.
É respeito internacional.
E é, sobretudo, saber quando falar e quando calar.
Um presidente não pode falar como militante de partido quando está representando 220 milhões de brasileiros.
Quando Lula fala, o Brasil fala.
E quando Lula erra, o Brasil paga parte da conta diplomática.
Israel, Hamas e a régua seletiva
Moral seletiva não é diplomacia.
É torcida.
O Lula que o eleitor precisa conhecer
Lula tem qualidades políticas que não podem ser negadas.
É carismático.
É extraordinariamente habilidoso, para não dizer mentiroso.
Conhece o povo brasileiro.
Conhece a linguagem da política.
Conhece televisão, e as empresas do ramo gostam da sua “generosidade”, quando “passam pano” para o seu desgoverno.
Se, depois de conhecer tudo de Lula, continuar achando que ele é o “pai dos pobres”, mesmo sabendo que ele dá com uma mão e tira com a outra.
Vote como quiser. Talvez você não tenha descendente para proteger seu futuro.
Mas não vote sem saber.
Porque democracia não é escolher o político que melhor fala.
É escolher sabendo exatamente quem está pedindo o seu voto.
E talvez esta seja a pergunta que faltou no Jornal Nacional:
Lula, depois de tantos anos no poder, tantas promessas, tantas contradições, tantos episódios controversos e tantas explicações, o que o senhor ainda precisa dizer ao brasileiro que os fatos já não disseram?
Luiz Fernando Alfredo

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