Jesus sabia que a dúvida faria parte da natureza humana.
Os Evangelhos registram advertências sobre a falta de fé, sobre homens que veriam e ainda assim não acreditariam. E talvez essa seja uma das maiores contradições do ser humano: queremos provas quando elas nos interessam e aceitamos crenças quando elas nos confortam.
Será que somos seletivos também na fé?
Acreditamos naquilo que combina com nossas convicções e questionamos aquilo que nos incomoda?
É curioso observar.
Há pessoas capazes de acreditar em extraterrestres, civilizações distantes, fenômenos inexplicados e teorias para as quais ainda não existe evidência conclusiva.
Mas diante do Sudário de Turim, depois de décadas de estudos e controvérsias, a primeira reação de muitos é simplesmente:
“É uma falsificação. ”
Pode ser.
Mas onde está a explicação definitiva para a formação daquela imagem?
A ciência tem o direito - e até o dever - de questionar.
Mas questionar não significa substituir uma certeza por outra.
E existe uma questão ainda mais delicada.
Ao longo da história, os cristãos identificaram acontecimentos que consideram relacionados às profecias bíblicas. Algumas interpretações são discutidas por historiadores e teólogos; outras continuam sendo objeto de fé.
Mas será que somos honestos ao examiná-las?
Ou escolhemos algumas, interpretamos outras conforme nossas conveniências e simplesmente ignoramos aquelas que não sabemos explicar?
E aqui não escapam nem as igrejas.
Porque instituições religiosas também são formadas por homens.
E homens podem ser seletivos.
Podem enfatizar determinados ensinamentos e deixar outros em segundo plano.
Podem falar muito de amor e pouco de responsabilidade.
Muito de prosperidade e pouco de sacrifício.
Muito de bênçãos e pouco de arrependimento.
Muito do que conforta e pouco do que incomoda.
Talvez o problema não seja apenas a falta de fé.
Talvez seja a nossa vontade de fabricar uma fé sob medida.
Uma fé que aceite aquilo que desejamos e rejeite aquilo que exige mudança.
Jesus não prometeu uma existência confortável. Ao contrário: falou de perseguição, sofrimento, renúncia, vigilância e responsabilidade.
Também falou de sinais, de acontecimentos futuros e da possibilidade de que muitos, mesmo diante deles, permanecessem incrédulos.
Então surge uma pergunta que vale mais do que qualquer discussão sobre o Sudário:
E se o problema não for a falta de evidências?
E se parte do problema for que não queremos acreditar naquilo que nos obriga a mudar?
Talvez seja por isso que o homem moderno possa olhar para o céu procurando extraterrestres e, ao mesmo tempo, olhar para um símbolo associado à paixão de Cristo procurando apenas uma falsificação.
Não porque um caso tenha necessariamente mais provas do que o outro.
Mas porque acreditar em determinadas coisas não exige nada de nós.
Já acreditar verdadeiramente na mensagem de Cristo exige.
Exige consciência.
Exige responsabilidade.
Exige perdão.
Exige renúncia.
Exige mudança.
E talvez essa seja a mais desconfortável pergunta de todas:
Será que não somos seletivos apenas naquilo em que acreditamos, mas também naquilo que estamos dispostos a obedecer?
Porque é muito fácil ter fé quando ela nos consola.
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