Polilaminina vira tendência nas redes com debates sobre potencial terapêutico e limites científicos
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A polilaminina, uma substância experimental que ganhou destaque nas redes sociais nos últimos dias, tem sido alvo de posts e vídeos relacionados a relatos de recuperações motoras, mobilização judicial para uso em pacientes e discussões sobre propriedade intelectual e ciência no Brasil. O fenômeno nas plataformas digitais ocorre em meio a um contexto de pesquisa científica em evolução — e ainda cheia de incertezas sobre o real alcance da substância como tratamento para lesões medulares.
A polilaminina é um composto criado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida pelo corpo humano que desempenha papel importante na organização dos tecidos e no crescimento celular durante o desenvolvimento embrionário. Em laboratório, essa proteína pode ser manipulada para formar um material estável e tridimensional, o que motivou seu estudo para possíveis efeitos terapêuticos em casos de trauma na medula espinhal.
Pesquisas conduzidas por Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), exploram o uso da polilaminina em lesões medulares agudas — aquelas que ocorrem logo após um trauma na coluna e causam interrupção da transmissão de comandos nervosos entre cérebro e corpo. As primeiras evidências surgiram em modelos experimentais, com alguns resultados promissores em animais e um grupo limitado de pacientes humanos, mas esses estudos ainda não passaram por revisão por pares e são considerados preliminares no meio científico.
Os dados disponíveis são variados: um estudo preliminar com oito pacientes com lesão medular aguda mostrou diferentes níveis de recuperação motora após aplicação da substância, com apenas alguns casos de recuperação significativa. No entanto, esses resultados não permitem concluir, com base científica robusta, que a polilaminina seja eficaz como tratamento definitivo, pois o número reduzido de participantes e a ausência de ensaio clínico extenso limitam a interpretação dos achados.
Especialistas ouvidos pela imprensa destacam que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar parte dos movimentos mesmo sem qualquer intervenção, dependendo da gravidade do trauma e das condições individuais de cada pessoa. Por isso, mesmo diante de relatos de “volta a andar” compartilhados nas redes, esses casos isolados não significam que a substância tenha eficácia comprovada.
Além disso, a polilaminina ainda está na fase inicial de pesquisa clínica, com foco na avaliação de segurança — etapa que precede a comprovação de eficácia e a definição de dosagem adequada. Essa fase clínica foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro de 2026, como parte de um processo regulatório que ainda deve passar por fases posteriores antes que a substância possa ser considerada um medicamento aprovado para uso geral.
O interesse público e social em torno da polilaminina também se estende às decisões judiciais. Pacientes com lesões medulares têm solicitado acesso ao tratamento por meio de liminares, argumentando que a substância poderia ser administrada fora de ensaios clínicos formais. Algumas dessas aplicações ocorreram, com relatos de evolução clínica variada, mas essas utilizações não fazem parte de protocolos de pesquisa estruturados e nem substituem os ensaios clínicos regulamentados.
Outro tema que ganhou espaço nas discussões é a questão da patente da polilaminina. A pesquisadora afirmou que o Brasil mantém proteção nacional da tecnologia, mas que a patente internacional foi perdida por falta de pagamento de taxas em períodos de corte de verbas na UFRJ — uma situação que, segundo ela, compromete a proteção no exterior.
De forma geral, especialistas consultados reforçam a necessidade de cautela: a ciência exige ensaios controlados, ampla participação de pacientes, análise rigorosa dos dados e validação por meio de revisão por pares para que uma substância seja, de fato, reconhecida como um tratamento eficaz. Até que todas as etapas da pesquisa clínica sejam concluídas, não é possível afirmar que a polilaminina seja um remédio comprovado para lesões medulares ou uma “cura” para paraplegia ou tetraplegia.
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