Presença feminina em grupos do Alcoólicos Anônimos cresce 44% desde a pandemia
16 de jun. de 2025
2 min de leitura
Nesta semana, o Alcoólicos Anônimos (AA) comemorou 90 anos de existência com um dado que chama a atenção: a presença de mulheres nas reuniões da instituição aumentou 44% desde a pandemia de Covid-19. Em todo o país, são 65 encontros exclusivamente femininos — tanto presenciais quanto online —, além de centenas de reuniões mistas realizadas semanalmente.
Fundado em 1935, nos Estados Unidos, o AA surgiu como uma rede de apoio predominantemente masculina. No entanto, com o passar do tempo — e especialmente nos últimos anos —, o número de mulheres que procuram o grupo tem crescido de forma expressiva. Esse aumento reflete uma dura realidade: o consumo abusivo de álcool entre mulheres no Brasil vem subindo consideravelmente.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, o consumo excessivo de álcool entre mulheres passou de 10,5% em 2010 para 15,2% em 2023. Enquanto isso, entre os homens, a taxa manteve-se praticamente estável, subindo de 27% para 27,3%.
A sociedade ainda impõe um forte estigma à mulher alcoólatra, segundo relatos de participantes e coordenadores do AA. Muitas enfrentam duplo julgamento: são condenadas tanto por beber quanto por não se encaixar no papel social esperado de cuidadoras e equilibradas. Como explica Lívia Pires Guimarães, presidente da Junta de Serviços Gerais do AA no Brasil, muitas mulheres optam por beber em casa, temendo situações de risco. No entanto, os efeitos do álcool — potencializados por questões biológicas — acabam por deixá-las ainda mais vulneráveis.
Relatos emocionantes reforçam a importância do acolhimento. Em São Paulo, uma advogada que participa do grupo há um ano e meio destacou a mudança em sua vida: “Hoje, tenho orgulho de ser mulher. O Alcoólicos Anônimos me devolveu a alegria de viver”.
Durante um encontro recente na Zona Leste de São Paulo, com 8 homens e 6 mulheres, os participantes discutiram como a sociedade impõe rótulos pesados à mulher alcoólatra, muitas vezes taxada como “sem valor”. Em contraponto, a rede do AA oferece acolhimento, escuta e transformação, pilares essenciais para a recuperação.
O crescimento da participação feminina nas reuniões é um reflexo direto das transformações sociais pós-pandemia — ao mesmo tempo em que expõe a urgência de olhar com mais atenção para a saúde mental e os vícios entre as mulheres brasileiras.
Comentários