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Tráfico internacional de ovos de aves brasileiras movimentou R$ 90 milhões em quase 20 anos, aponta PF

há 6 minutos
4 min de leitura


A Polícia Federal (PF) desarticulou uma organização criminosa internacional suspeita de traficar ovos de aves nativas do Brasil para comercialização no exterior. Segundo as investigações, o esquema movimentou aproximadamente R$ 90 milhões ao longo de quase 20 anos, com unidades vendidas por até R$ 6 mil.

A operação contou com a cooperação de autoridades brasileiras, espanholas e suíças. Dois homens apontados como integrantes centrais do esquema foram presos na Espanha, enquanto outras investigadas foram alvo de medidas judiciais no Paraná. Uma mulher suíça considerada peça importante na investigação permanece foragida.

O grupo é suspeito de retirar ovos diretamente de ninhos de espécies ameaçadas de extinção, especialmente papagaios, e transportá-los clandestinamente para outros países, onde eram comercializados por valores elevados.

Investigação começou após apreensão no Galeão

A apuração começou em outubro de 2025, quando a suíça Erika Zumofen-Göllesz foi abordada no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Ela tentava embarcar para a Suíça levando 24 ovos de aves silvestres escondidos junto ao corpo, envoltos em meias de seda.

Entre os ovos apreendidos estavam exemplares de papagaio-de-cara-roxa e papagaio-charão, duas espécies nativas brasileiras ameaçadas de extinção. Na ocasião, a mulher prestou depoimento e foi liberada, mas seu telefone celular ficou retido pela Polícia Federal.

A análise do aparelho permitiu identificar contatos frequentes com Hans Zehnder, cidadão suíço proprietário de dois grandes viveiros de aves nas proximidades de Zurique. Os investigadores também encontraram conversas com integrantes de uma família de Curitiba, no Paraná, suspeita de fornecer os ovos retirados da natureza.

Segundo a apuração, Erika já havia realizado 31 viagens da Suíça ao Brasil. Os deslocamentos levantaram suspeitas sobre a existência de uma operação organizada para transportar clandestinamente os ovos ao exterior.

Como funcionava o esquema internacional

As investigações apontaram que a organização atuava havia aproximadamente duas décadas e teria realizado cerca de 120 viagens internacionais, transportando, em média, 20 ovos por trajeto.

A movimentação acontecia principalmente entre agosto e março, período de reprodução das aves na Mata Atlântica. A principal suspeita é que os ovos fossem retirados de ninhos localizados em áreas de reserva e unidades de conservação de Bocaiúva do Sul, município do Paraná.

A família investigada em Curitiba administrava uma loja de equipamentos utilizados na captura e no manejo de animais. O pai, Marco Schwarz, é apontado como suspeito de fornecer os ovos, enquanto sua esposa, Rita Lydia Schwarz, e sua filha, Cláudia Fabiana Schwarz, também foram investigadas por possível participação no esquema.

Do lado europeu, Hans Zehnder é apontado como um dos responsáveis pela estrutura de recebimento e comercialização das aves. Os valores obtidos com a venda dos ovos podiam chegar a R$ 6 mil por unidade.

Prisões na Espanha e apreensões no Paraná

Com o avanço das investigações, a Polícia Federal passou a monitorar os deslocamentos dos suspeitos. Acompanhando uma viagem de Marco Schwarz à Europa, os agentes identificaram seu encontro com Hans Zehnder.

Os dois foram seguidos até a Ilha de Gran Canária, na Espanha, onde acabaram presos em um hotel com o apoio das autoridades espanholas e suíças. Durante a ação, foram apreendidos aproximadamente R$ 260 mil em dinheiro, em cédulas de euros e francos suíços.

Os investigados foram encaminhados às autoridades espanholas e passaram a aguardar os procedimentos relacionados à extradição para o Brasil.

Simultaneamente, policiais federais cumpriram mandados em Curitiba. Rita Lydia e Cláudia Fabiana também foram atingidas pelas medidas judiciais relacionadas à investigação.

Na residência da família e na loja investigada, os agentes encontraram 61 animais empalhados e 130 partes de animais, entre crânios e dentes. O material incluía exemplares de espécies ameaçadas, como o mico-leão-de-cara-dourada e primatas colombianos.

Erika Zumofen-Göllesz, cuja abordagem no Galeão deu origem à investigação, é considerada foragida. A defesa de Cláudia Fabiana informou que ela responde ao processo em liberdade provisória e que ainda não teve acesso aos autos. As defesas dos demais investigados não foram localizadas para manifestação.

Transporte clandestino provoca morte de embriões

Além do impacto sobre as populações de aves silvestres, o transporte ilegal provoca a morte de grande parte dos embriões. Dos 24 ovos apreendidos no Aeroporto do Galeão, apenas nove filhotes conseguiram sobreviver.

A bióloga Fernanda Guida, do Zoológico de São Paulo, explicou que o desenvolvimento dos embriões depende de condições rigorosas de temperatura e umidade durante a incubação. Quando os ovos são transportados clandestinamente, sem os cuidados necessários, as chances de sobrevivência diminuem consideravelmente.

Outro problema aparece depois do nascimento. Aves criadas com alimentação manual por seres humanos podem desenvolver comportamentos que dificultam sua adaptação à vida selvagem, tornando a soltura imediata na natureza inadequada.

Por isso, o trabalho das equipes especializadas envolve cuidados veterinários e a formação de casais em cativeiro. O objetivo é permitir que futuras gerações de aves, criadas em condições que favoreçam seu comportamento natural, possam ser reintroduzidas nas florestas brasileiras.

Outras apreensões também revelam a dimensão do tráfico

O caso investigado pela Polícia Federal não é isolado. Em outra ocorrência, um casal de chineses foi preso em Foz do Iguaçu transportando 34 ovos em incubadoras improvisadas, escondidas em uma sacola e nas costuras de uma jaqueta. Até o momento das informações divulgadas, 18 filhotes haviam nascido e permaneciam sob cuidados veterinários.

Também foram apreendidos 71 ovos no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, em um intervalo de cinco dias. As cargas tinham como destinos a China e o Vietnã e foram encaminhadas ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres do governo estadual.

As ocorrências reforçam a preocupação das autoridades com o comércio ilegal de ovos e animais silvestres brasileiros, especialmente de espécies ameaçadas de extinção.

A Polícia Federal continua apurando a extensão da organização internacional, a participação dos envolvidos e os possíveis destinatários dos ovos comercializados no exterior.

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