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“Agonorexia”: especialistas alertam para perda extrema de apetite causada por canetas emagrecedoras

  • 6 de mar.
  • 4 min de leitura
Reprodução
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A popularização das chamadas canetas emagrecedoras tem levado profissionais de saúde no Brasil a identificar, na prática clínica, um quadro emergente descrito como agonorexia. O termo, importado dos Estados Unidos, refere-se a um padrão de perda de apetite intenso semelhante ao observado na anorexia, porém provocado pelo uso de medicamentos que reduzem a fome.

Embora a expressão esteja sendo discutida entre especialistas, ela ainda não constitui um diagnóstico oficial. Mesmo assim, médicos afirmam que a situação desperta preocupação devido aos possíveis efeitos adversos quando esses medicamentos são utilizados sem prescrição ou acompanhamento médico adequado.

As chamadas canetas emagrecedoras são dispositivos injetáveis previamente preenchidos com medicamentos utilizados no tratamento de doenças como obesidade e diabetes. Entre os princípios ativos mais conhecidos estão a semaglutida, comercializada com nomes como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, e a tirzepatida, vendida como Mounjaro. Essas substâncias atuam imitando hormônios liberados pelo intestino, influenciando o cérebro para diminuir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, o que pode favorecer a perda de peso quando empregadas com indicação médica.

Na prática clínica, entretanto, médicos têm observado situações em que a redução do apetite ultrapassa o efeito terapêutico esperado e passa a representar um problema potencialmente perigoso para a saúde.

O endocrinologista Clayton Macedo, integrante do corpo clínico do Einstein Hospital Israelita e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que o conceito ainda está em discussão. Segundo ele, “A agonorexia ainda não é entidade clínica estabelecida, não há critérios diagnósticos bem definidos. Não é um distúrbio mental clássico, mas já dá para dizer que é um efeito farmacológico extremo”.

Macedo foi um dos especialistas que trouxeram o termo para o debate no Brasil após observar discussões e alertas que surgiram nos Estados Unidos. Para o endocrinologista, a questão central está no contexto em que as canetas emagrecedoras são utilizadas. Ele ressalta que esses medicamentos possuem finalidade terapêutica clara. “Elas são medicamentos para tratar doenças como obesidade e diabetes".

O médico afirma ainda que, quando prescritos corretamente, os fármacos integram um tratamento que envolve acompanhamento médico e abordagem multidisciplinar. Entretanto, alerta que o uso sem indicação clínica ou em doses elevadas desde o início pode resultar em danos importantes. “Usados corretamente, fazem parte de um tratamento multidisciplinar. Usados sem indicação ou em doses altas desde o início [o ideal é iniciar com doses menores e aumentar aos poucos], podem provocar danos graves".

Outro ponto de preocupação envolve produtos manipulados ou contrabandeados. Segundo Macedo, essas versões podem representar riscos adicionais à saúde por não passarem por processos regulatórios adequados ou por não terem sido testadas de forma apropriada em termos de segurança.

Ele cita ainda pesquisas que apontam possíveis problemas relacionados à concentração do princípio ativo em medicamentos manipulados. De acordo com o especialista, alguns estudos indicam níveis superiores ao esperado. “Estudos mostram que alguns manipulados têm concentração acima do esperado, o que aumenta efeitos adversos”.

O endocrinologista Renato Zilli, do Hospital Sírio-Libanês, reforça que esses medicamentos atuam corrigindo desequilíbrios biológicos ligados à fome e à saciedade. No entanto, a situação se torna preocupante quando a redução do apetite é excessiva e leva a ingestão muito baixa de calorias.

Zilli afirma que o uso seguro dessas substâncias depende da chamada titulação de dose, processo em que o tratamento é iniciado com quantidades menores do medicamento e gradualmente ajustado até alcançar a dose adequada ou a resposta clínica desejada, sempre considerando a tolerância do paciente.

Embora a agonorexia não esteja listada como diagnóstico oficial no DSM-5, manual da Associação Americana de Psiquiatria que estabelece critérios para transtornos mentais, médicos já identificam sinais clínicos que merecem atenção durante o acompanhamento de pacientes que utilizam essas medicações. Entre os sintomas relatados estão perda de peso acelerada, náuseas persistentes, fraqueza extrema, isolamento social e aumento compulsivo da atividade física.

A psiquiatra Tâmara Kenski, professora da Faculdade de Medicina Santa Marcelina e especialista em emagrecimento, compulsão alimentar e fome emocional, afirma que certos comportamentos podem indicar risco. Segundo ela, “É um sinal de alerta vermelho quando o paciente valoriza excessivamente a diminuição do apetite ou demonstra ansiedade intensa para manter a medicação”.

Entre os riscos clínicos associados ao uso inadequado das canetas emagrecedoras está a formação de cálculos biliares decorrente da perda de peso rápida. Esses cálculos podem migrar e desencadear quadros de pancreatite. Em situações mais graves, a pancreatite necrotizante pode levar à morte.

Outro efeito observado por especialistas é a perda de massa magra. Mesmo quando a redução de peso ocorre principalmente pela diminuição da gordura corporal, parte da massa muscular também pode ser afetada.

Macedo alerta que, sem acompanhamento nutricional adequado e sem a prática de exercícios de resistência para preservar a musculatura, o paciente pode enfrentar risco futuro de sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa muscular.

Segundo o endocrinologista, esse cenário pode ter consequências a longo prazo. Ele afirma: “Estamos criando uma geração que talvez, no futuro, tenha uma perda muscular importante. Estão perdendo um patrimônio, porque, para o envelhecimento, o músculo é o que vai determinar se o indivíduo será um idoso frágil ou não.”

Diante desse quadro, especialistas defendem que o uso dessas medicações seja realizado apenas com prescrição médica e acompanhamento adequado. Entre as recomendações estão o acompanhamento por profissional qualificado — preferencialmente endocrinologista —, ajuste gradual das doses, orientação nutricional e prática de exercícios físicos voltados à preservação da musculatura.

Além disso, quando há indícios de comportamento de risco ou de relação problemática com a alimentação, também é indicada avaliação psicológica. A psiquiatra Tâmara Kenski ressalta que as decisões sobre manter, reduzir ou interromper o tratamento devem ser tomadas com base em abordagem multidisciplinar. “A decisão de continuar, reduzir ou interromper a medicação deve ser multidisciplinar”.

Macedo também faz críticas à comercialização dessas terapias em ambientes com foco estritamente estético. Segundo ele, existem clínicas que oferecem protocolos caros envolvendo soro, implantes e pacotes de tratamento. “Há clínicas que vendem protocolos caros com soro, implantes e pacotes; o foco precisa ser saúde, não lucro”, afirma.

O especialista orienta pacientes a desconfiar de promessas de resultados rápidos e buscar informações em sociedades científicas reconhecidas.

Ao final, ele resume o ponto central do debate sobre esses medicamentos: “A caneta — quando bem utilizada — não é perigosa. O problema é o uso indevido.”

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Gazeta de Varginha

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