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Brasil vai testar primeira vacina nacional de mRNA em humanos e mira aplicações contra câncer e outras doenças

  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura


O Brasil vai testar pela primeira vez em seres humanos uma vacina desenvolvida integralmente no país utilizando a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). O imunizante, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) contra a Covid-19, recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar aos estudos clínicos. A expectativa é que a mesma plataforma tecnológica possa futuramente ser utilizada no desenvolvimento de vacinas e terapias para outras doenças, incluindo o câncer.

A autorização da Anvisa permite o início de um estudo clínico de Fase 1, que terá como principais objetivos avaliar a segurança e a capacidade da vacina de provocar uma resposta do sistema imunológico. O estudo será realizado com 90 adultos saudáveis, entre 18 e 59 anos, recrutados em dois centros localizados no Rio de Janeiro. A vacina será avaliada como dose de reforço contra a Covid-19 e utiliza mRNA que codifica a proteína Spike da variante XBB.

O recrutamento dos voluntários está previsto para o primeiro trimestre de 2027. Cada participante será acompanhado durante o estudo, enquanto os pesquisadores avaliarão a segurança e a resposta imunológica provocada pelo imunizante. Antes de chegar aos testes em humanos, a vacina passou por estudos pré-clínicos, avaliações toxicológicas e etapas de escalonamento.

O diferencial do RNA mensageiro está no fato de que a tecnologia funciona como uma plataforma. Em vez de utilizar diretamente uma proteína ou um agente infeccioso para estimular o organismo, o mRNA leva às células instruções para que elas produzam uma proteína capaz de provocar a resposta imunológica desejada. Essas instruções podem ser modificadas de acordo com o agente infeccioso ou a doença que se pretende combater.

Por isso, o desenvolvimento da primeira vacina nacional de mRNA contra a Covid-19 é tratado como um passo que pode ultrapassar o combate ao coronavírus. A estrutura criada no país poderá servir de base para pesquisas envolvendo outras doenças. Entre os projetos apoiados pelo Ministério da Saúde estão estudos voltados a dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose visceral e influenza, além de pesquisas relacionadas a terapias e vacinas contra o câncer.

Na área de oncologia, o Centro de Competência em Vacinas da UFMG (CTV-RNA) desenvolve diferentes estratégias baseadas em RNA. Entre elas estão pesquisas de imunoterapia contra o câncer utilizando siRNA, vacinas contra tumores com antígenos tumorais e uma metodologia de CAR-T baseada em RNA. A tecnologia, portanto, está sendo investigada não apenas para prevenção de doenças infecciosas, mas também para aplicações terapêuticas.

O avanço faz parte de uma estratégia nacional que recebeu R$ 210 milhões do Ministério da Saúde para o desenvolvimento de plataformas de RNA mensageiro no país. Os recursos foram destinados à Fiocruz, ao Instituto Butantan e ao Centro de Competência em Vacinas da UFMG. Do total, R$ 77 milhões foram direcionados à plataforma de RNAm da Fiocruz, R$ 73 milhões ao Butantan e R$ 60 milhões ao centro da UFMG.

Na Fiocruz, a primeira vacina desenvolvida nessa plataforma é produzida pelo Bio-Manguinhos, que conta com uma planta piloto de RNA mensageiro considerada a primeira da América Latina com certificação de Boas Práticas de Fabricação. No Butantan, os investimentos apoiam a implantação de uma unidade de desenvolvimento e produção de vacinas de mRNA, inicialmente direcionada a imunizantes contra Covid-19 e raiva.

O objetivo do investimento é ampliar a capacidade brasileira de desenvolver e produzir tecnologias próprias para o Sistema Único de Saúde (SUS), reduzindo a dependência de soluções externas. A plataforma de RNA mensageiro poderá ser adaptada para diferentes produtos, permitindo que o país desenvolva novas vacinas e outras aplicações conforme as necessidades de saúde pública.

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Gazeta de Varginha

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