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Call of Duty imagina invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte; veja o que poderia acontecer na vida real

há 1 hora
6 min de leitura
Fonte: YouTube/Call of Duty
Fonte: YouTube/Call of Duty

O trailer do novo jogo da franquia Call of Duty começa com jovens recrutas sul-coreanos aparentemente realizando uma patrulha de rotina. Pouco depois, mísseis lançados pela Coreia do Norte atingem o sul da península coreana, dando início a novos combates entre os dois países, que suspenderam a guerra por meio de um armistício em 1953.

O trailer de Call of Duty: Modern Warfare 4 alcançou 22 milhões de visualizações no dia de seu lançamento, em maio, e já acumula 61 milhões. O jogo tem lançamento previsto para 23 de outubro de 2026.

A história provocou críticas de pessoas que consideram inadequado transformar um conflito ainda não resolvido em entretenimento. Outros, por sua vez, valorizam a perspectiva dos soldados sul-coreanos apresentada na narrativa.

Mas será que a Coreia do Norte poderia realmente realizar uma invasão como a retratada no videogame? Embora especialistas considerem baixa a probabilidade de uma guerra de grandes proporções, o histórico militar da região, o arsenal norte-coreano e o risco de escalada nuclear tornam o cenário uma preocupação estratégica.

A invasão já aconteceu no passado

O fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, levou à divisão da península coreana. Cinco anos depois, em 25 de junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu o Sul, dando início à Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953.

O conflito ultrapassou as fronteiras da península e se tornou parte da disputa entre as potências da Guerra Fria. A Coreia do Norte integrava o bloco oriental, liderado pela União Soviética, enquanto a Coreia do Sul era aliada dos Estados Unidos e de outros países ocidentais.

As forças norte-coreanas avançaram rapidamente e conquistaram Seul, a capital sul-coreana, em apenas três dias. Em poucas semanas, tropas do Sul e forças da Organização das Nações Unidas, lideradas pelos Estados Unidos, foram empurradas para uma área defensiva próxima à cidade portuária de Busan, no sudeste do país.

O curso da guerra mudou em setembro de 1950, quando o general americano Douglas MacArthur liderou um desembarque surpresa em Incheon, perto de Seul. A China entrou no conflito no mês seguinte, e os combates continuaram por anos até que os dois lados chegaram a um impasse.

Em 27 de julho de 1953, foi assinado um armistício que suspendeu os combates. O documento foi firmado pela Coreia do Norte, pela China e pelo Comando das Nações Unidas, liderado pelos Estados Unidos. A Coreia do Sul não assinou o acordo.

O armistício estabeleceu uma linha de cessar-fogo próxima à frente de batalha e criou a Zona Desmilitarizada, uma faixa de aproximadamente quatro quilômetros de largura que continua separando os dois países. A região permanece entre as fronteiras mais fortemente protegidas do mundo.

Mais de 70 anos depois, as Coreias continuam tecnicamente em guerra. Apesar de diversos confrontos terrestres e marítimos, os dois países evitaram retomar uma guerra em grande escala. Estima-se que pelo menos três milhões de pessoas tenham morrido durante o conflito, um dos mais mortais da era moderna.

Coreia do Norte abandonou o objetivo de reunificação

Durante décadas após o armistício, os líderes norte-coreanos defenderam a reunificação da península, ainda que sob os próprios termos de Pyongyang.

A posição do país mudou em janeiro de 2024, quando o líder Kim Jong-un declarou ao Parlamento norte-coreano que a reunificação deixaria de ser um objetivo nacional.

A Constituição do país também foi alterada e passou a definir a Coreia do Sul como o principal adversário do Norte, ressaltando que os dois Estados devem ser tratados como entidades separadas e hostis.

Os Estados Unidos mantêm cerca de 28,5 mil militares na Coreia do Sul como parte de sua aliança de segurança com Seul. Essa presença é um fator importante nos cálculos estratégicos de Pyongyang, pois uma ofensiva norte-coreana poderia desencadear uma resposta americana.

Qual é a probabilidade de uma invasão?

Autoridades e especialistas militares ocidentais e sul-coreanos realizam há décadas exercícios, simulações de guerra e avaliações de inteligência para estudar a possibilidade de uma invasão e os cenários que poderiam surgir.

Em 2023, a Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos publicou um relatório segundo o qual a Coreia do Norte provavelmente usaria seu crescente arsenal de mísseis balísticos e armas nucleares para ampliar sua influência regional e dissuadir adversários, em vez de iniciar uma ofensiva convencional em grande escala.

Markus Garlauskas, ex-oficial de inteligência dos Estados Unidos especializado na Coreia do Norte e atualmente ligado ao centro de estudos Conselho do Atlântico, avalia que um eventual ataque norte-coreano poderia ocorrer em escala limitada, com o emprego de mísseis e ameaças de escalada nuclear.

A Coreia do Norte e a China são os únicos países do Leste Asiático que possuem armas nucleares. Ao todo, estima-se que nove países no mundo disponham desse tipo de armamento.

A existência dessas armas torna qualquer confronto especialmente perigoso. Mesmo que um ataque começasse de maneira limitada, uma sequência de retaliações poderia ampliar a dimensão do conflito.

Por que uma invasão seria difícil?

A Coreia do Norte possui um contingente militar muito maior do que o da Coreia do Sul. Estimativas apontam que Pyongyang tenha aproximadamente 1,2 milhão de soldados, enquanto Seul conta com cerca de 450 mil militares na ativa.

O Norte também possui mais tanques, peças de artilharia, lançadores de foguetes e submarinos, além de um arsenal maior de mísseis e armas nucleares. Entretanto, o tamanho das Forças Armadas e a quantidade de equipamentos não determinam, isoladamente, o resultado de uma guerra moderna.

O professor Fyodor Tertitskiy, da Divisão de Estudos Internacionais da Universidade da Coreia, em Seul, destaca que é necessário considerar as vantagens sul-coreanas no poder aéreo.

O orçamento de defesa da Coreia do Sul é estimado em aproximadamente US$ 43 bilhões, o equivalente a R$ 216 bilhões. Já os gastos militares norte-coreanos seriam de cerca de US$ 1,6 bilhão, ou R$ 8 bilhões. Segundo as estimativas citadas, o orçamento militar sul-coreano supera o tamanho de toda a economia do Norte.

Outro obstáculo para Pyongyang é a estrutura rígida e centralizada de suas Forças Armadas. Segundo Tertitskiy, o sistema foi organizado para impedir ameaças ao poder do líder supremo, e não necessariamente para maximizar a eficiência militar.

Muitas decisões das unidades do Exército Popular Coreano dependem da aprovação de autoridades políticas ou de segurança. Essa exigência reduz a autonomia dos comandantes e pode atrasar as respostas em situações de combate, quando decisões rápidas são fundamentais.

A idade dos equipamentos também é um problema. Em 2018, a Coreia do Sul estimou que o Norte possuía cerca de 810 aeronaves de combate, muitas delas modelos da era soviética. Até os caças MiG-29, entre os mais modernos do arsenal norte-coreano, foram adquiridos décadas atrás, segundo Seul.

Por outro lado, analistas apontam que a participação de militares norte-coreanos na guerra da Ucrânia, ao lado das forças russas, pode ter proporcionado experiência em combate. Estima-se que 16 mil soldados do Norte tenham participado do conflito, muitos deles mortos ou feridos.

Os sobreviventes podem ter adquirido conhecimentos sobre o emprego de drones, equipamentos que desempenham um papel cada vez mais importante nas guerras contemporâneas.

A capital sul-coreana está próxima da fronteira

Apesar das vantagens tecnológicas da Coreia do Sul, a geografia representa uma vulnerabilidade importante. Seul fica a aproximadamente 38 a 50 quilômetros ao sul da Zona Desmilitarizada. A região metropolitana, que inclui a cidade de Incheon e a província de Gyeonggi, abriga mais da metade da população sul-coreana.

A proximidade da fronteira, combinada com o grande arsenal norte-coreano de artilharia, foguetes, mísseis e drones, deixa a capital exposta a possíveis ataques. Tertitskiy avalia que a cidade seria vulnerável e muito difícil de evacuar em uma emergência militar.

A Coreia do Sul também enfrenta desafios demográficos. A baixa taxa de natalidade reduz o número de pessoas disponíveis para o serviço militar, pressionando o tamanho de suas Forças Armadas.

Dados do Ministério da Defesa sul-coreano indicam que o efetivo militar na ativa caiu de aproximadamente 563 mil soldados, em 2019, para cerca de 450 mil em 2025.

O que estaria em jogo em uma nova guerra?

Especialistas consideram baixa a probabilidade de um conflito de grandes proporções entre as duas Coreias, mas alertam que as consequências poderiam ser graves caso a guerra acontecesse.

Bruce Klingner, ex-analista da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e da Agência de Inteligência de Defesa, avalia que um ataque norte-coreano provavelmente provocaria uma reação militar internacional, envolvendo forças americanas. Isso poderia atrair também a China e a Rússia, que mantêm acordos militares com Pyongyang.

Para Tertitskiy, um confronto entre as duas Coreias poderia criar uma possibilidade real de guerra nuclear ou até termonuclear. As armas termonucleares, também conhecidas como bombas de hidrogênio, utilizam processos de fusão nuclear e podem ter um poder destrutivo muito superior ao das bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945.

Mesmo sem o emprego de armas nucleares, uma invasão poderia provocar destruição em larga escala. Klingner destaca que a Coreia do Norte mantém grandes quantidades de artilharia posicionadas perto da Zona Desmilitarizada, capazes de atingir Seul sem que os equipamentos precisem ser deslocados.

Pyongyang também dispõe de um grande arsenal de mísseis, alguns dos quais podem escapar dos sistemas de defesa antimísseis aliados, segundo o especialista.

Embora algumas pessoas tenham criticado a premissa de Modern Warfare 4, Tertitskiy não está entre elas. Ele mora em Seul e, como cidadão naturalizado, seria convocado para o serviço militar caso uma guerra começasse.

Para o professor, independentemente da precisão da narrativa do videogame, a história pode fazer com que mais pessoas pensem sobre a situação da península coreana.

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