Coluna Jurídica Gazeta - 08/06/2023
- gazetadevarginhasi
- 8 de jun. de 2023
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UMA ANÁLISE DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA A PARTIR DA INJUSTIÇA EPISTÊMICA
A exigência de igualdade nos direitos entre homens e mulheres é uma pauta crescente e apresenta oposição à cultura patriarcal evidente em todo mundo, cultura esta que manifesta opressão às mulheres e as transformam em vítimas de violência, especialmente no ambiente doméstico.
No Brasil a violência doméstica se apresenta como um dos principais fatores de mortes de mulheres, e tal cenário revela a importância da análise, estudos e instituição de meios de proteção e combate à violência contra a mulher.
Muitos fatores presentes na sociedade ampliam as desigualdades de gênero e a opressão das mulheres, assim temos a injustiça epistêmica, como meio de manter a hierarquia social e a dominação de um grupo por outro.
É fundamental a análise da posição da mulher na sociedade, a fim de mensurar os efeitos da opressão e da violência de gênero. O Estado tem papel fundamental para garantir a equidade entre homens e mulheres e combater à violência doméstica, através de políticas públicas e do incentivo da participação de toda a sociedade civil.
Ainda que o contexto que envolva uma situação de violência doméstica seja baseado em uma questão estrutural, contextualizada, muitas vezes, por exemplos vistos, e minimizações, fato é que a proteção deve ser verificada em todas as suas formas.
O termo “injustiça epistêmica” ganhou vida com Miranda Fricker quando esta buscou evidenciar e descrever uma forma de injustiça que se faz presente nos momentos em que a influência e colaboração de uma pessoa na disseminação e aquisição do conhecimento é excluída da sociedade.1
Uma das formas de injustiça epistêmica mencionada por Miranda Fricker em sua obra intitulada Injustice Epistemic and Power and Ethics of Knowing, é a denominada injustiça hermenêutica. Quando existe uma omissão conceitual na estrutura de uma sociedade, está configurado esse tipo de injustiça. Essa lacuna impede que o interlocutor atribua sentido e significação às suas experiências. Miranda Fricker exemplifica que uma mulher no ano de 1920 não tinha a possibilidade de dar significado ao que hoje se chama de assédio sexual pois não havia na época uma palavra capaz de definir o ato2.
O imaginário coletivo, dotado de preconceito, se mostra comumente na forma de estereótipos. Nas palavras de Fricker, “Estereótipos são associações amplamente sustentadas entre um dado grupo social e um ou mais atributos”33Ibid., p. 30.
. O modo como o ouvinte julga o nível de credibilidade do interlocutor é, por vezes, intermediado por estereótipos negativos formados sobre este último, distorcendo a percepção social epistêmica. Não é incomum vermos homens descredibilizando, subestimando ou menosprezando a fala das mulheres nos mais diversos meios: na vida familiar, no trabalho, na política, na academia. O preconceito de gênero está presente, ligado a ideia de que os homens são superiores, o que contribui com os casos de violência.
Na vida em sociedade, a opressão de um grupo em detrimento de outros acaba se evidenciando em algum momento. Por uma questão histórico-social, pessoas de diversos grupos sociais possuem compreensões conflituosas sobre o que deve ser feito pelo poder público. O impulso pela opressão surge das diferentes posições políticas conflitantes.
A violência doméstica se apresenta, então, como uma das mais perversas formas de violência, visto que ocorre no ambiente familiar, de forma reiterada e silenciosa. A cultura patriarcal enraizada na sociedade e que atribui à mulher um papel inferior ao homem encara a opressão e até mesmo a violência contra a mulher de forma naturalizada. O Estado é incapaz de atender de maneira eficaz as demandas das mulheres, visto que ainda há necessidade de se implementar mais políticas públicas e há necessidade de uma gestão eficiente.
De acordo com o conceito de injustiça epistêmica apresentado, as desigualdades e opressões sofridas pelas mulheres são acentuadas diante da omissão conceitual de certas práticas, bem como pelo poder de fala que é atribuído a certos grupos da sociedade, em detrimento de outros que se localizam em posição inferior. É possível perceber como a inferiorização da mulher perante o homem, existente na cultura brasileira, traz desequilíbrios na sociedade em todas as áreas e contribui para o aumento de casos de violência.
Enfrentar a cultura machista e a violência doméstica requer energia, persistência e coragem por parte das mulheres. A implementação de políticas públicas é necessária para proporcionar o acolhimento dos casos de violência apresentados, bem como para auxiliar as mulheres a romper esse quadro e garantir a equidade entre gêneros.
Referências bibliográficas:
DALAQUA, Gustavo Hessmann. Liberdade democrática como desenvolvimento de si, resistência à opressão e à injustiça epistêmica. Trans/Form/Ação, Marília, v. 43, n. 3, p. 213-234, jul. /Set., 2020.
LIMA JÚNIOR, Manoel Pereira. Injustiça epistêmica e a questão racial. In: Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, 04 jun. 2020. Disponível em http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/2622-injustica-epistemica-e-a-questao-racial. Acesso em 24 mai. 2023.
SANTOS, Breno Ricardo Guimarães. Injustiças epistêmicas, dominação e virtudes. In: MULLER, Felipe de Matos; ETCHEVERRY, Kátia Martins (eds). Ensaios sobre epistemologia do testemunho. pp. 143-172. Porto Alegre: 2017. Disponível em https://philarchive.org/rec/SANIED-2. Acesso em 24 mai. 2023.
Letícia Bartelega Domingueti



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