Convulsões durante a menstruação levam médicos a suspeitar de endometriose no cérebro de paciente
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Foto: Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa Iaşi, 700115 Iaşi, Romênia
Uma mulher de 41 anos começou a apresentar crises epilépticas em fevereiro de 2019. Os episódios tinham uma característica incomum: aconteciam exclusivamente durante a menstruação. A relação entre as convulsões e o ciclo menstrual levou médicos a investigar uma possível endometriose no cérebro, hipótese que ganhou força depois que uma lesão identificada em exames de imagem desapareceu após um tratamento hormonal.
O caso foi descrito por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, localizada em Iași, na Romênia. O relato foi publicado em 11 de setembro no Journal of Clinical Medicine e apresenta a possibilidade de endometriose cerebral, uma condição extremamente rara. Apesar dos indícios, o diagnóstico não foi confirmado por análise de tecido, e outras explicações para as crises continuam possíveis.
Durante os episódios, a paciente apresentava perda parcial ou total da consciência, olhar fixo e confusão após as crises, acompanhada de falhas na memória recente. Não havia histórico de epilepsia entre seus parentes de primeiro grau. Além disso, seus ciclos menstruais eram regulares e ela não relatava sintomas frequentemente associados à endometriose, como cólicas intensas, dor durante as relações sexuais ou dor pélvica cíclica.
A mulher procurou atendimento neurológico cerca de seis meses depois do início dos episódios. A partir daí, passou a registrar em um diário as datas das convulsões e da menstruação. O acompanhamento durante seis meses revelou que as crises coincidiam exclusivamente com o período de sangramento menstrual.
Lesão cerebral levantou suspeitas
Em agosto de 2019, uma ressonância magnética identificou uma alteração no hipocampo direito, região do cérebro relacionada à memória e à atividade epiléptica. A lesão se estendia pela estrutura, e as áreas próximas apresentavam sinais aparentes de inchaço.
Inicialmente, os médicos consideraram diferentes possibilidades para explicar a alteração, incluindo uma má-formação do córtex cerebral, uma infecção ou um tumor. Outros exames, porém, não esclareceram a origem do problema.
O eletroencefalograma, que registra a atividade elétrica cerebral, não apresentou descargas típicas de epilepsia. O exame, entretanto, foi realizado fora dos episódios de convulsão. Testes de memória e raciocínio também tiveram resultados normais.
Durante aproximadamente um ano e meio, a paciente utilizou dois medicamentos antiepilépticos, isoladamente ou em combinação, mas as crises continuaram.
Uma nova ressonância, realizada em 2020, mostrou outra característica na região afetada: um pequeno nódulo de aproximadamente um centímetro na parte posterior do hipocampo, que absorvia o contraste utilizado no exame. Também foi identificado um ponto escuro, que poderia corresponder a um depósito de cálcio ou a ferro deixado por um sangramento anterior.
Os radiologistas voltaram a considerar a possibilidade de um tumor. No entanto, a aparência da alteração e os indícios de sangue fizeram com que a endometriose também entrasse na lista de hipóteses. A doença pode provocar sangramentos em tecidos localizados fora do útero.
Um exame destinado a analisar a composição química do tecido não encontrou sinais claros de tumor, mas também não permitiu determinar a causa da lesão.
Tratamento hormonal interrompeu as convulsões
Em 2021, a equipe médica decidiu iniciar um tratamento hormonal diante da relação entre as crises e o ciclo menstrual. A paciente passou a utilizar dienogeste e desogestrel, dois hormônios sintéticos com ação semelhante à da progesterona, empregados no tratamento da endometriose.
Após três meses, os medicamentos antiepilépticos foram suspensos. Segundo os pesquisadores, as convulsões e os demais sintomas neurológicos desapareceram completamente.
A paciente manteve o tratamento hormonal por cerca de quatro anos. Em setembro de 2025, a medicação foi interrompida, depois da última menstruação relatada. Mesmo após a suspensão, as crises não voltaram.
Em março de 2026, uma nova ressonância magnética mostrou que a alteração anteriormente identificada no hipocampo já não estava visível. O resultado reforçou a suspeita de que o problema pudesse estar relacionado à endometriose, mas não foi suficiente para confirmar o diagnóstico.
O que é a epilepsia catamenial?
O padrão apresentado pela paciente é conhecido como epilepsia catamenial, caracterizada pela concentração das crises epilépticas em determinados períodos do ciclo menstrual. Segundo a literatura reunida pelos pesquisadores, essa condição afeta entre um terço e metade das mulheres em idade fértil que têm epilepsia.
A relação com o ciclo menstrual pode ser explicada, em parte, pela influência dos hormônios sobre a atividade dos neurônios. O estrogênio tende a aumentar a excitabilidade das células nervosas, enquanto a progesterona e seus derivados contribuem para reduzir a atividade neuronal, reforçando a ação de um mensageiro químico que ajuda a manter o cérebro menos excitável.
No padrão perimenstrual, as crises se concentram aproximadamente entre três dias antes e três dias depois do início da menstruação. Esse período coincide com uma queda acentuada nos níveis de progesterona, que reduz parte do efeito protetor exercido pelo hormônio sobre a atividade cerebral.
O vínculo entre as convulsões e a menstruação, entretanto, não significa necessariamente que exista endometriose.
Gustavo Leme, ginecologista, cirurgião e especialista em neuropelveologia, área dedicada ao estudo dos nervos da pelve, ressalta que as próprias oscilações hormonais podem desencadear convulsões em algumas mulheres.
Por isso, o diário da paciente demonstrou uma relação consistente entre as crises e o ciclo menstrual, mas não esclareceu, por si só, qual mecanismo provocava os episódios.
Como a endometriose poderia atingir o cérebro?
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, está presente fora da cavidade uterina. Durante a menstruação, parte desse tecido pode chegar à cavidade abdominal pelas tubas uterinas e se implantar em outras regiões, como os ovários e o intestino. Em muitas mulheres, entretanto, esse material é absorvido pelo organismo.
Ainda não existe uma explicação definitiva para o motivo de o tecido se implantar em algumas pessoas e não em outras.
Marcos Tcherniakovsky, ginecologista, obstetra e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose, explica que a doença deixou de ser entendida como uma condição exclusivamente pélvica. Atualmente, é considerada uma enfermidade crônica, inflamatória e sistêmica, capaz de apresentar manifestações em diferentes regiões do corpo.
O mecanismo pelo qual um tecido semelhante ao endométrio poderia chegar ao cérebro, porém, permanece desconhecido.
Entre as hipóteses estão a transformação de células de outros órgãos em tecidos semelhantes ao endométrio e o deslocamento de células endometriais pela corrente sanguínea ou pelos vasos linfáticos. Essa segunda possibilidade envolve um transporte de células pelo organismo, embora a endometriose seja uma doença benigna e não um câncer.
Gustavo Leme também aponta uma possível origem embrionária para casos que aparecem em locais extremamente incomuns. Nessa hipótese, o tecido teria permanecido fora de sua localização habitual desde a formação do embrião e passaria a responder aos estímulos hormonais quando a mulher começasse a menstruar.
Se um tecido desse tipo estivesse no hipocampo, poderia, em tese, crescer, provocar inflamação e sangrar em resposta às mudanças hormonais do ciclo menstrual. Essas alterações poderiam contribuir para desencadear convulsões.
Os pesquisadores, contudo, ressaltam que essas explicações ainda são especulativas quando aplicadas à presença de endometriose no cérebro.
A raridade da condição também chama a atenção. Na revisão da literatura apresentada pelos autores, foram encontrados apenas oito casos publicados, sendo o mais antigo de 1987. Até onde os pesquisadores conseguiram identificar, nenhum dos relatos anteriores descrevia claramente uma lesão localizada no hipocampo.
De acordo com a tabela do estudo, cinco dos casos foram confirmados por análise de tecido obtido por cirurgia ou biópsia. Nos demais, o diagnóstico foi considerado presumido ou o método de confirmação não estava detalhado.
A paciente romena não tinha diagnóstico conhecido de endometriose na região pélvica. Nesse caso, a suspeita surgiu principalmente porque ela relatou a coincidência entre as convulsões e a menstruação. Segundo os autores, a ausência de sintomas pélvicos não exclui a possibilidade de a doença estar presente em outra região do corpo.
Por que o diagnóstico ainda não foi confirmado?
A resposta ao tratamento hormonal é um dos principais argumentos que sustentam a hipótese de endometriose cerebral, mas também exige cautela.
Os pesquisadores consideraram um conjunto de indícios: a relação entre as crises e a menstruação, as mudanças observadas na lesão ao longo dos exames, a ausência de sinais claros de tumor, o desaparecimento dos sintomas após o tratamento hormonal e a ausência da alteração na ressonância de 2026.
A confirmação definitiva, entretanto, depende da identificação do tecido característico da endometriose em uma amostra analisada em laboratório.
No caso da paciente, os médicos consideraram arriscado retirar material do hipocampo, devido à localização da lesão. Por esse motivo, optaram pelo tratamento hormonal, que também é utilizado no manejo convencional da endometriose.
Tcherniakovsky considera que a melhora observada é compatível com a hipótese, mas reconhece que a ausência de uma amostra de tecido impede a confirmação. Leme também destaca que a resposta ao tratamento representa um indício, e não uma prova definitiva.
O ponto escuro identificado na ressonância de 2020, por exemplo, poderia corresponder a ferro acumulado após um sangramento antigo, mas esse tipo de alteração também pode ocorrer depois de outras hemorragias. Além disso, se as convulsões fossem provocadas apenas pelas oscilações hormonais, sem qualquer relação com a endometriose, o bloqueio do ciclo menstrual também poderia explicar a melhora.
Os autores apontam outras limitações. As próprias crises epilépticas podem provocar alterações temporárias nas imagens do cérebro, e os episódios da paciente começaram antes da realização da primeira ressonância. Um tumor de crescimento lento e uma inflamação provocada pelo sistema imunológico, que não foi investigada na época, também não podem ser descartados.
O exame realizado em março de 2026 traz outra questão: como a paciente já havia interrompido o tratamento hormonal, o desaparecimento da alteração visível poderia indicar que a lesão regrediu. Outra possibilidade é que tenha permanecido uma cicatriz, já que, segundo os autores, focos de endometriose cerebral podem deixar marcas após a menopausa.
Por se tratar de um relato envolvendo apenas uma paciente, os pesquisadores também não conseguem provar que o tratamento hormonal tenha sido diretamente responsável pela melhora.
Tcherniakovsky alerta que o caso não deve criar a impressão de que a endometriose cerebral seja comum. Trata-se de uma condição extremamente rara, e a evolução observada não permite estabelecer conclusões definitivas sobre a origem das convulsões.
Sete anos de acompanhamento deixam uma questão em aberto
O caso reúne aproximadamente sete anos de acompanhamento, desde as primeiras crises, em fevereiro de 2019, até a ressonância realizada em março de 2026. Nesse período, a paciente apresentou convulsões associadas à menstruação, uma lesão no hipocampo e uma melhora sustentada após o tratamento hormonal.
Ainda assim, a causa exata dos episódios permanece sem confirmação. Uma possibilidade é que a mulher tivesse um foco de endometriose no hipocampo, cuja atividade foi controlada pelos hormônios. Outra é que as crises fossem desencadeadas pelas próprias oscilações hormonais do ciclo menstrual, sem a presença da doença no cérebro.
O relato destaca a importância de investigar a relação entre sintomas neurológicos e o ciclo menstrual, especialmente quando as crises seguem um padrão repetitivo. Em situações selecionadas, essa associação pode orientar a investigação médica e a avaliação de tratamentos hormonais antes de considerar uma intervenção cirúrgica.
O caso, porém, não estabelece um diagnóstico definitivo nem permite concluir que todas as convulsões relacionadas à menstruação tenham a mesma origem.
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