Estudo brasileiro detecta microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes pela primeira vez
gazetadevarginhasi
28 de jul.
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Um estudo inédito realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com a University of Hawai’i at Mānoa, revelou a presença de microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes atendidas pelo SUS em Maceió (AL). Esta é a primeira vez que esse tipo de contaminação é detectado em seres humanos no Brasil e em toda a América Latina.
Os resultados, publicados nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, destacam a crescente preocupação com os impactos da poluição plástica no corpo humano, especialmente durante a gestação. Foram analisadas amostras de tecido de dez gestantes dos hospitais públicos Professor Alberto Antunes e Dra. Nise da Silveira. Após tratamento com hidróxido de potássio e análise por técnica Micro-Raman, foram identificadas 229 partículas de microplásticos — 110 nas placentas e 119 nos cordões umbilicais.
Em oito das dez amostras, a quantidade foi maior no cordão umbilical, indicando que as partículas atravessam a placenta e chegam ao feto. O biomédico Alexandre Urban Borbely, da UFAL, ressaltou que a quantidade real pode ser ainda maior, já que foram analisados apenas cerca de 40 gramas de tecido, enquanto uma placenta completa pesa cerca de 500 gramas.
Entre os microplásticos encontrados estão materiais comuns no dia a dia, como polietileno (presente em sacolas e embalagens descartáveis) e poliamida (usada em tecidos sintéticos). Comparado a um estudo similar feito nos EUA, o número de aditivos industriais foi menor, o que os autores atribuíram a diferenças regionais, como dieta e hábitos de consumo.
A pesquisa destaca ainda fatores de risco na região: 75% do lixo na orla de Maceió é composto por plásticos, e o consumo de água engarrafada, comum entre moradores sem acesso à água potável, pode estar associado à ingestão de micropartículas, sobretudo quando exposta ao calor.
A pesquisa é especialmente relevante por tratar de uma população vulnerável, geralmente excluída de estudos internacionais. Embora ainda não se conheça exatamente o impacto dos microplásticos no corpo humano, sua presença em tecidos gestacionais levanta sérias preocupações sobre efeitos no desenvolvimento fetal e na saúde reprodutiva.
Diante dos achados, os pesquisadores defendem medidas urgentes como: proibição de plásticos descartáveis, melhoria na gestão de resíduos, controle da presença de microplásticos na água e alimentos e investimento em alternativas ao plástico tradicional.
A UFAL já iniciou uma nova fase do estudo com um grupo maior de gestantes, visando uma análise epidemiológica mais ampla, com previsão de conclusão em 2027.
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