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Indefinição de programa do carro popular faz 40% dos negócios recuarem em Minas

  • 5 de jun. de 2023
  • 4 min de leitura

Foto: Fred Magno / O Tempo


O governo federal anunciou seu plano para reduzir o preço dos carros populares como uma forma de impulsionar não somente o consumo, mas a indústria automotiva. Pelo menos para parte da cadeia produtiva, entretanto, a falta de detalhes do programa teve o efeito contrário e ficou no caminho das vendas nas últimas semanas. Desde o anúncio do governo federal, em maio, cerca de 40% das vendas de veículos novos iniciadas em Minas Gerais foram adiadas ou canceladas por completo.

A estimativa é do gerente executivo do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), Carlos Barreto. “Apoiamos fortemente o programa do governo, mas a questão do anúncio e da execução dele foi complicada, e nossos clientes estão adiando e, inclusive, cancelando negócios que já estavam sendo efetivados porque estão aguardando o anúncio do governo”, descreve.

O primeiro pronunciamento do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), no dia 25 de maio, deixou mais dúvidas do que respostas no mercado. A margem de desconto do preço de carros de até R$ 120 mil será de 1,5% a 10,96% e alcançará 33 modelos, segundo o governo federal. Inicialmente, porém, as mudanças nos impostos que permitirão o desconto não foram detalhadas, por exemplo. O presidente Lula se reúne com o ministro da Economia, Fernando Haddad, nesta segunda-feira (5), quando se espera que as medidas sejam pormenorizadas.

Anunciar parte do projeto sem definir toda a sua mecânica soa como um teste do governo, avalia o conselheiro consultivo para a indústria de mobilidade Ricardo Bacellar. “Eu me pergunto qual é o objetivo desse balão de ensaio. Porque, na prática, ele está bagunçando um mercado que não estava bom e causando um problema em um mercado que não precisava de mais. As pessoas travaram as compras”, diz o especialista.

Uma vez que as medidas sejam integralmente explicadas, o Sincodiv-MG espera que as vendas melhorem. “Estamos em compasso de espera e dependemos da implantação das medidas do governo”, diz o gerente executivo do sindicato. Alguns analistas do mercado, contudo, avaliam que o governo precisa atacar outros problemas para de fato ajudar o mercado a se recuperar, ou o programa de carros populares não terá efeitos práticos.

"O país está vendendo pouco carro fundamentalmente por três razões: preço muito alto, restrição de crédito por bancos e taxa de juros muito elevada. Esses dois últimos não foram abrangidos pelo governo e não vão ser", exemplifica Milad Kalume Neto, diretor de negócios da Jato Dynamics. Segundo os especialistas, se as vendas não crescerem, dificilmente as empresas vão ampliar investimentos no país.

Nacionalmente, as vendas em maio recuaram 5,6% nas concessionárias brasileiras, em comparação ao mesmo período de 2022. No total, 176,5 mil veículos foram comercializados em maio, entre carros de passeio, utilitários leves, caminhões e ônibus, de acordo com levantamento da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

“Com esse resultado, o mês de maio, excluindo o do ano de 2020, quando vivíamos o auge da pandemia e muitas Concessionárias estavam apenas com suas oficinas abertas, se tornou o pior desde 2016, para esses segmentos. Na primeira metade da década de 2010, o mês de maio chegou a registrar mais de 300 mil autos e leves emplacados. Precisamos, urgentemente, que as medidas do Governo sejam implantadas”, detalha o presidente da entidade, José Maurício Andreta Jr.

O Presidente da Federação, que representa, por meio de 54 Associações de Marca, mais de 7.300 Concessionárias, disse que tem recebido ligações de seus filiados alegando paralisação nas vendas, por conta de o consumidor estar em “compasso de espera”, pelo projeto do governo. “Essa é uma situação muito difícil, pois, além das metas, estabelecidas pelas montadoras, as concessionárias têm compromisso com mais de 310 mil colaboradores diretos”, admite Andreta Jr.

‘Público está pensando em desconto de R$ 20 mil, R$ 30 mil’
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma que é possível que alguns modelos fiquem abaixo de R$ 60 mil — hoje, o carro novo mais barato do Brasil é o Renault Kwid, que custa quase R$ 70 mil. Mesmo que o desconto para o modelo seja o mais alto anunciado pelo governo, de quase 11%, não chegaria a R$ 8.000.

A expectativa de alguns motoristas, entretanto, é bem mais alta do que essa, relata a vendedora de carros Renata Mendes Machado. “A gente estava em um ritmo bacana de vendas e, de repente, após o anúncio, deu uma parada. O público, no geral, estava pensando que haveria descontos de R$ 20 mil, R$ 30 mil. Isso não vai acontecer”, diz.

Mesmo com alguns clientes receosos em fechar negócio, ela conta que conseguiu bater a meta de maio — cada vendedor precisa vender 15 veículos por mês. A concessionária tem uma política própria de descontos para tentar atrair o cliente neste momento.

Nas últimas semanas, alguns empreendimentos começaram, inclusive, a anunciar descontos similares ao que se espera que o governo federal ofereça, confirma o Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG). “É uma estratégia interessante para não parar completamente o mercado”, conclui o gerente executivo da entidade, Carlos Barreto.


Fonte: O Tempo



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