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Mercado reduz otimismo com a Argentina diante de risco-país elevado e dívida bilionária em 2027

há 48 minutos
5 min de leitura

O mercado financeiro começou a rever o otimismo em relação à economia da Argentina, enquanto aumentam as preocupações com os compromissos da dívida externa previstos para 2027, ano em que o presidente Javier Milei deverá disputar a reeleição. Nesta semana, o risco-país argentino voltou a superar os 700 pontos, atingindo o maior patamar em aproximadamente um ano.

A alta do indicador, porém, não pode ser explicada apenas pelo volume de pagamentos que o país terá de realizar no próximo ano. A pressão reúne fatores internacionais, movimentos técnicos dos investidores e dúvidas sobre a capacidade do governo de sustentar seu programa econômico e manter apoio político.

Segundo um levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Argentina terá mais de US$ 30 bilhões em pagamentos de principal e juros em 2027. O total inclui compromissos com credores privados e organismos internacionais.

Apesar do valor elevado, a obrigação não representa, por si só, uma crise imediata de pagamento. O país mantém pouco mais de US$ 50 bilhões em reservas, e parte das dívidas poderá ser refinanciada. Outra parcela dos compromissos envolve o próprio FMI.

O que preocupa o mercado é a combinação entre a necessidade de honrar esses pagamentos, as condições de financiamento internacional e o cenário político que antecederá a eleição presidencial.

Fatores internacionais pressionam os títulos argentinos

Parte da recente elevação do risco-país tem origem no cenário externo. Daniel Marcatto, sócio e analista da Exploritas, avalia que a abertura das taxas dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e o fortalecimento do dólar pressionaram os mercados emergentes.

A Argentina, contudo, costuma reagir de maneira mais intensa às mudanças nas condições financeiras internacionais. Segundo Marcatto, o crédito argentino apresenta um beta elevado, o que significa que seus títulos tendem a oscilar mais do que os de outros mercados diante de mudanças no ambiente global.

Quando os investidores ficam mais avessos ao risco, os papéis argentinos podem sofrer quedas acentuadas. Em períodos de maior confiança, o movimento pode ocorrer na direção contrária, com valorização dos títulos.

O calendário também influencia o desempenho desses ativos. Outubro costuma ser um período menos favorável para os mercados emergentes, pois fundos norte-americanos realizam ajustes em suas carteiras antes do início de um novo ano fiscal, em novembro.

Marcatto explica que, historicamente, o intervalo entre dezembro e abril tende a oferecer condições mais favoráveis para os títulos de países emergentes.

Remessas de dividendos aumentam a pressão

Além dos fatores internacionais, o mercado argentino enfrenta uma mudança nos fluxos financeiros internos. Com a retomada das remessas de dividendos para o exterior, empresas passaram a vender posições em títulos soberanos para levantar recursos e transferir dinheiro para fora do país.

Essas companhias poderiam atuar como compradoras de papéis da dívida argentina. Com a necessidade de obter caixa para as remessas, parte delas passou a vender os ativos, retirando do mercado uma fonte de demanda.

De acordo com Marcatto, mais de US$ 4 bilhões já teriam sido enviados ao exterior nesse processo. O analista estima que o montante possa alcançar entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões até o fim do ano.

Esse movimento ajuda a explicar a pressão recente sobre os títulos, mas não elimina as preocupações mais amplas com a economia e com a capacidade de financiamento do país no próximo ano.

Investidores começam a questionar o otimismo com Milei

A mudança de percepção não se limita a fatores técnicos. Parte dos investidores também passou a avaliar com mais cautela a velocidade da recuperação econômica argentina e a capacidade do governo de manter as reformas.

Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e de nacionalidade argentina, considera que o mercado exagerou nas expectativas sobre a recuperação do país.

“O mercado fez uma aposta na Argentina que estava 'comprando lotes na Lua'. Era delirante”, afirmou.

As projeções econômicas mostram como as expectativas se deterioraram. No início de 2025, o Relevamiento de Expectativas de Mercado (REM), levantamento do Banco Central argentino semelhante ao boletim Focus, indicava crescimento de aproximadamente 3,7% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. A estimativa de inflação para o ano girava em torno de 15%.

No levantamento mais recente, a projeção de crescimento econômico caiu para 1,5% em 2026, enquanto a inflação estimada para dezembro chegou a 30%.

Para Giambiagi, os números indicam que os investidores começaram a reconhecer que as dificuldades econômicas eram maiores do que imaginavam inicialmente.

“Aos poucos, o mercado foi percebendo a dimensão do problema. No começo havia uma perspectiva irrealista da evolução das principais variáveis”, disse.

Eleição de 2027 aumenta as dúvidas sobre a continuidade das reformas

A eleição presidencial do próximo ano começa a ganhar peso nas decisões dos investidores. O mercado acompanha a capacidade de Milei de preservar sua popularidade, manter apoio no Congresso e dar continuidade ao programa econômico.

Giambiagi afirma que parte das análises subestimou os obstáculos políticos enfrentados pelo governo. Mesmo com medidas econômicas definidas pelo Executivo, a aprovação de reformas continuará dependendo do Congresso, o que torna a construção de alianças um fator importante para a continuidade do programa.

“Achar que o governo vai aprovar o que quiser é uma prova de miopia da análise econômica sobre a política”, avaliou.

O pesquisador também considera que o estilo político de Milei pode dificultar a articulação necessária para aprovar medidas. Segundo ele, o presidente precisa compreender que governar uma república exige negociação política.

Uma eventual disputa de segundo turno pode representar outro desafio. Giambiagi avalia que Milei poderá enfrentar dificuldades caso a oposição consiga concentrar os votos contrários ao presidente. A queda de popularidade em relação aos níveis observados no início do governo também contribui para as incertezas.

Nesta semana, uma controvérsia internacional acrescentou tensão ao cenário. Durante uma viagem à Espanha, Milei chamou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de “ditador inapresentável”, pouco mais de um mês antes das eleições espanholas. O Ministério das Relações Exteriores da Espanha respondeu que não aceita interferências externas e classificou a postura do presidente argentino como “indigna”.

Giambiagi citou esse episódio e outros conflitos políticos para apontar dificuldades na atuação de Milei. Para o pesquisador, a capacidade de construir acordos será importante para garantir a continuidade das medidas econômicas.

Argentina apresenta avanços, mas expectativas ficam mais moderadas

Apesar das preocupações, o cenário econômico argentino também registra mudanças positivas desde o início do governo Milei. A inflação diminuiu, o resultado fiscal melhorou, as reservas cresceram e a balança comercial apresentou avanços.

Esses resultados ajudaram a alimentar o otimismo dos investidores em relação à recuperação do país. Entretanto, as projeções mais recentes indicam que o crescimento pode ser mais lento e que a inflação permanecerá acima das expectativas iniciais.

A combinação desses fatores fez o mercado reduzir parte do entusiasmo anterior. Os investidores agora observam não apenas os indicadores econômicos, mas também a capacidade política do governo de manter a estratégia fiscal e monetária.

“O mercado aos poucos está percebendo que não é uma festa”, afirmou Giambiagi.

Dívida de 2027 será um teste para o governo

A Argentina terá de administrar vencimentos expressivos em moeda estrangeira em um momento de incerteza política e econômica. Embora o volume de reservas e a possibilidade de refinanciamento ajudem a reduzir o risco imediato, a necessidade de garantir recursos para os pagamentos continuará no centro das avaliações do mercado.

A capacidade de obter financiamento, manter a confiança dos investidores e preservar a estabilidade econômica será determinante para a condução da dívida. Ao mesmo tempo, a eleição presidencial poderá influenciar as expectativas sobre a continuidade das reformas e a trajetória futura da economia.

A revisão da aposta na Argentina não significa necessariamente que os investidores abandonaram a perspectiva de recuperação do país. O movimento indica, sobretudo, que as expectativas ficaram mais cautelosas diante dos desafios financeiros e políticos que se aproximam.

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